Uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira para as infâncias, Lygia Bojunga, de 94 anos, foi escolhida Personalidade Literária da 68ª edição do Prêmio Jabuti, informou a Câmara Brasileira do Livro (CBL), organizadora da premiação. A homenagem ocorre no ano em que “A bolsa amarela”, um dos maiores clássicos da autora, completa 50 anos de publicação. 'Hoje, ele estaria na Cracolândia': Leandro Karnal investiga múltiplas interpretações de Jesus em novo livro Sob suspeita: Acusações de 'uso indevido de IA' atingem livros badalados e editoras procuram meios de provar 'escrita humana' Lançado em 1976, “A Bolsa Amarela” conta a história de Raquel, uma menina que esconde numa bolsa três grandes vontades: crescer, ser menino e se tornar escritora. Misturando fantasia e realidade, o romance aborda os conflitos da infância, as expectativas impostas às meninas e o desejo de encontrar uma voz própria. A liberdade imaginativa e a recusa em tratar as crianças como leitores incapazes de compreender questões difíceis são características que atravessam a obra da autora. — Lygia Bojunga mudou a maneira como a literatura brasileira olha para a infância. Seus livros confiam na inteligência, na imaginação e na sensibilidade de crianças e jovens para lidar com questões complexas. Homenageá-la nos 50 anos de “A Bolsa Amarela” é celebrar uma obra que permanece viva e continua conquistando leitores — afirma Hubert Alquéres, curador do Prêmio Jabuti. Democracia, violência e consumo: Livro mostra como a produção cultural refletiu os valores americanos Nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 1932, Lygia estreou na literatura em 1972, com “Os colegas”, história de um grupo de animais que se une pela amizade e pelo desejo de liberdade. O livro lhe rendeu seu primeiro Jabuti, em 1973. A escritora voltaria a conquistar a estatueta em 1993, com “Fazendo Ana Paz”, e em 1997, com “Seis vezes Lucas”. Em 1982, Lygia se tornou a primeira escritora de fora do eixo Europa-Estados Unidos a receber o Prêmio Hans Christian Andersen, concedido pelo International Board on Books for Young People (IBBY) e considerado o “Nobel da Literatura infantil”. Em 2004, conquistou o Prêmio Memorial Astrid Lindgren, criado pelo governo sueco em homenagem à autora de “Píppi Meialonga”. Em 2002, Lygia criou sua própria editora, a Casa Lygia Bojunga, inaugurada com a publicação de “Retratos de Carolina”. Desde então, passou a lançar seus livros pelo selo. Posteriormente, fundou a Fundação Cultural Casa Lygia Bojunga, dedicada a iniciativas de incentivo à leitura e à formação de leitores. 'Colcoz': Emmanuel Carrère lança livro sobre a mãe que previu a queda da URSS e viveu a contradição de defender Vladimir Putin — Reconhecer Lygia Bojunga como Personalidade Literária é celebrar uma autora que ocupa um lugar único na cultura brasileira. Sua liberdade de criação e seu compromisso com a literatura fazem dessa homenagem um reconhecimento à força e à originalidade de sua obra — diz Sevani Matos, presidente da CBL. A escritora agradeceu a homenagem por meio de uma carta manuscrita enviada à entidade e de uma mensagem gravada. “Que belo incentivo este!”, escreveu. A homenagem será realizada durante a cerimônia de premiação do 68º Jabuti, marcada para 27 de outubro, na Sala São Paulo, na capital paulista. Na ocasião, serão anunciados os vencedores das 23 categorias, além do Livro do Ano, principal distinção do concurso. A cerimônia será apresentada pelos jornalistas Michelle Loreto e Fabrício Battaglini, que foram curadores do Espaço Saúde e Bem-Estar da Bienal Internacional do Livro de São Paulo deste ano. O evento terá transmissão ao vivo pelo canal da CBL no YouTube. Finalistas Os finalistas foram anunciados na última quarta-feira (14). Na categoria Romance Literário, “Coração sem medo”, último volume da “Trilogia da terra”, de Itamar Vieira Junior, concorre com “Dança de enganos”, de Milton Hatoum, “Uma delicada coleção de ausências”, de Aline Bei, “Meridiana”, de Eliana Alves Cruz, e “Vez em quando, Billie Holiday”, de Evandro Affonso Ferreira.
Adélia Prado, que completou 90 anos em dezembro de 2025, é finalista na categoria Poesia com “Jardim das Oliveiras”, seu primeiro livro inédito em mais de uma década. Também estão no páreo Bárbara Mançanares (“A dança áspera das raízes”), Adriana Lisboa (“Antes de dar nomes ao mundo”), Nina Rizzi (“Diáspora não é lar”) e Alberto Martins (“Bóris e Marina”). “Nego tudo: ficções súbitas”, de Andréa del Fuego, disputa o prêmio de Contos com “Massaranduba”, de Abáz, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura no ano passado, e “Tranças de meninos”, de João Anzanello Carrascoza. Na categoria Crônica, destacam-se “Viagem no país da crônica”, no qual Humberto Werneck funde forma e conteúdo para falar do gênero literário mais brasileiro de todos, e “Aproveitar a vida e suas dores”, do psicanalista Contardo Calligaris, morto em 2021, aos 72 anos. Já a categoria Biografia e Reportagem inclui títulos como “Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio”, de Ruy Castro, “Quem é essa mulher? Uma biografia de Zuzu Angel”, de Virginia Siqueira Starling, e “Crentes: o pequeno manual sobre um grande fenômeno”, de Guilherme Damasceno, Juliano Spyer e Raphael Khalil. Este ano, pela primeira vez, influenciadores literários figuram entre os finalistas do Jabuti em uma categoria própria. Em março, o concurso anunciou a categoria Incentivo à Leitura: Cultura Digital, com o objetivo de premiar produtores de conteúdo e projetos virtuais que promovam o hábito da leitura. Entre os finalistas estão o colunista do GLOBO Pedro Pacífico, o Bookster, e o perfil no Instagram da BibliON, a biblioteca virtual do estado de São Paulo.
O Globo