Diante de um adversário verbal e até fisicamente truculento, que atravessou a linha da contundência para a da molecagem, Lula teve a mesma reação neuropsicológica que em 1989, no debate da Globo, prejudicou seu desempenho ao enfrentar um Fernando Collor agressivo e arrogante, que até fez chantagem velada com uma pasta amarela que brandia ameaçadoramente.
Ontem na Band, novamente ameaçado por um animal selvagem, que não respeitava regras e ignorava a mínima civilidade, Lula sofreu perda relativa da racionalidade e de seu conhecido tirocínio, demonstrou nervosismo, bebeu muita água, esqueceu-se de argumentos importantes que deveria ter usado e desperdiçou muitas oportunidades de defender seu governo e de colocar o dedo em feridas graves na trajetória de Flávio, sem falar no governo do pai. Teve alguns momentos bons, mas não conseguiu mostrar toda a sua superioridade e maior preparo.
Segundo os estudiosos das situações de perigo ou ameaça, nelas o cérebro redireciona a sua energia regular. O córtex pré-frontal, região responsável pelo pensamento lógico, pelo planejamento das ações e decisões e pelo controle de impulsos, tem sua atividade reduzida.
Esta síndrome, também chamada de congelamento, pode ocorrer diante de um acidente, de um assalto, do ataque de um cão raivoso ou numa situação de conflito mais complexo como aquele, diante da violência inesperada de Flávio, da transgressão de todos os padrões que devem reger um debate. E ainda contou com a omissão dos mediadores, que só no pior dos momentos interferiram com energia.
Porque tudo se podia esperar de Flávio, mas aquela molecagem de ficar fazendo caretas atrás de Lula quando ele respondia diante das câmeras ultrapassou, certamente, a imaginação dos que treinaram o presidente. Eles devem estar agora se perguntando como puderam subestimar o bolsonarista e aceitar a regra do livre confronto verbal proposto pela emissora. Aquilo não poderia ter sido aceito, em se tratando de um filho do defensor da tortura.
Faltou a Lula dizer, sempre que tinha a palavra: estava ali para debater propostas, era isso que esperava do oponente, mas ele o forçava a responder na mesma moeda, a discutir corrupção e a trocar acusações.
Pois debate não houve, e Flávio aparentemente ganhou ao impor um pugilato verbal em lugar de uma discussão de propostas para o país, pois isso ele não tem para apresentar.
Tenho dúvidas sobre o que terá pensado e sentido o eleitor indeciso e não engajado na polarização. Houve um caso emblemático aqui em Brasília sobre os efeitos da arrogância e da agressividade.
Em 1998, Cristovam Buarque (então no PT) tentava a reeleição para o governo do Distrito Federal (GDF), enfrentando o ex-governador Joaquim Roriz (então no PMDB), que tentava voltar ao posto. Roriz era muito popular entre os mais pobres por conta da distribuição de lotes e de cestas básicas. Cristovam, por seu lado, havia implantado o programa Bolsa-Escola, embrião do Bolsa Família, e era aplaudido por isso não só no DF.
O debate final na TV Globo foi marcado por alta tensão e agressividade recíproca. Roriz acusou Cristovam de “assassino” por conta de mortes ocorridas numa desocupação de terras. Já o governador tripudiou sobre a pouca cultura formal de Roriz, homem realmente rude, e esnobou seu próprio preparo intelectual. Contrariando as pesquisas, deu Roriz.
Ficam lições para o debate da TV Globo. As regras já podem ter sido negociadas, mas precisam ser revistas pela equipe de Lula diante do lamentável espetáculo forjado por Flávio na Band.
Brasil 247