“Lula venceu porque falou a linguagem da classe trabalhadora”, diz Varoufakis

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) representa uma demonstração de que o avanço da extrema direita pode ser contido por políticas de enfrentamento à desigualdade econômica e de fortalecimento dos trabalhadores. Essa é a avaliação do economista e ex-ministro das Finanças da Grécia Yanis Varoufakis, que publicou uma extensa análise na rede social X sobre o resultado da eleição presidencial brasileira e suas implicações para a política internacional.

No texto, intitulado “O que a reeleição de Lula nos ensina: a luta de classes não precisa terminar em fascismo”, Varoufakis sustenta que a vitória do petista sobre Flávio Bolsonaro representa uma derrota política para forças que, segundo ele, procuram transformar a insatisfação econômica dos trabalhadores em apoio a movimentos autoritários.

“No domingo, os brasileiros fizeram algo que os comentaristas políticos haviam nos dito ser uma causa perdida”, escreveu o economista, destacando que Lula conseguiu reverter a desvantagem registrada no primeiro turno e conquistar um novo mandato presidencial. Varoufakis ressaltou que o resultado ocorreu às vésperas do aniversário de 81 anos do presidente brasileiro, que superou o adversário por uma diferença de quase 4,5 milhões de votos.

Na avaliação do ex-ministro grego, a vitória tem significado que ultrapassa as fronteiras brasileiras. Ele considera que o resultado contraria a percepção de que o crescimento da extrema direita seria uma consequência inevitável das transformações econômicas e do enfraquecimento dos partidos tradicionais de esquerda.

“O Brasil acaba de refutar esse fatalismo”, afirmou. Lula mostrou que a esquerda pode enfrentar a extrema direita

Para Varoufakis, um dos principais fatores da vitória de Lula foi a capacidade de apresentar o conflito entre trabalhadores e elites econômicas como uma questão central da disputa eleitoral. O economista argumenta que setores da centro-esquerda europeia e norte-americana abandonaram progressivamente o debate sobre as desigualdades de classe, abrindo espaço para que movimentos de extrema direita conquistassem parte do eleitorado trabalhador.

Nesse processo, segundo ele, lideranças autoritárias passaram a direcionar a insatisfação popular contra imigrantes e grupos socialmente vulneráveis, desviando a atenção dos mecanismos de concentração de riqueza. Varoufakis cita políticos como Bill Clinton, Barack Obama, Tony Blair, Gerhard Schröder e François Hollande como exemplos de dirigentes que, em sua avaliação, contribuíram para o afastamento da centro-esquerda das questões de classe.

O Brasil, entretanto, teria demonstrado que existe outro caminho. “Lula venceu porque fez aquilo que a centro-esquerda ocidental esqueceu como fazer: falou a linguagem da classe trabalhadora e a sustentou com políticas que transferiram poder, ainda que modestamente, dos poucos para os muitos”, escreveu.

Segundo o economista, a diferença fundamental está na identificação dos responsáveis pelas dificuldades econômicas enfrentadas pela população. “Quando Lula diz aos trabalhadores brasileiros que as elites manipularam o jogo, ele aponta o dedo para cima, para o rentista e o especulador, e não para os lados, para o imigrante ou o pobre”, argumentou.

O ex-ministro também destacou que a extrema direita brasileira possui raízes históricas profundas, associadas à ditadura militar e ao governo de Jair Bolsonaro. Ele recordou os ataques de 8 de janeiro de 2023 às sedes dos Três Poderes, em Brasília, e classificou a derrota eleitoral do bolsonarismo como especialmente significativa diante do apoio político recebido de setores ligados ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Isenção do Imposto de Renda e taxação dos ricos são destacadas Entre as iniciativas do governo Lula elogiadas por Varoufakis está a ampliação da isenção do Imposto de Renda para trabalhadores com rendimentos mensais de até R$ 5 mil.

O economista ressaltou que a medida foi acompanhada da criação de uma tributação mínima sobre contribuintes de renda elevada, buscando reduzir as distorções do sistema tributário brasileiro. Para ele, a combinação dessas políticas representa uma tentativa de distribuir de maneira mais equilibrada o peso dos impostos entre diferentes grupos sociais.

Outro ponto destacado foi a proposta brasileira de estabelecer uma tributação mínima global sobre bilionários, apresentada durante a presidência do Brasil no G20. Na interpretação de Varoufakis, essas iniciativas demonstram que governos progressistas podem enfrentar a concentração de renda sem abandonar a disputa política com as elites econômicas.

O ex-ministro relacionou essas políticas a um fenômeno mais amplo, que identifica como uma transferência sistemática de riqueza dos trabalhadores para os proprietários de ativos financeiros. Em sua análise, governos e bancos centrais ocidentais favoreceram, ao longo de décadas, a valorização de patrimônios financeiros, enquanto os rendimentos do trabalho perderam participação relativa na distribuição da riqueza.

Ele também criticou os programas de resgate de instituições financeiras realizados em diferentes crises internacionais, argumentando que os custos dessas operações frequentemente acabam sendo transferidos à população por meio de políticas de austeridade. Pix é apresentado como exemplo de enfrentamento ao poder financeiro

Um dos principais destaques da análise de Varoufakis é o Pix, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo Banco Central. O economista considera a ferramenta um exemplo concreto de como a criação de infraestrutura pública pode reduzir a dependência da sociedade em relação a grandes empresas financeiras.

“Mas a arma mais inovadora do arsenal brasileiro é uma da qual poucos fora da América Latina ouviram falar. Ela se chama Pix”, escreveu.

Varoufakis argumenta que os sistemas tradicionais de pagamento permitem que bancos, administradoras de cartões e empresas de tecnologia financeira obtenham receitas por meio de taxas cobradas sobre transações comerciais. Segundo ele, a criação de uma alternativa pública e gratuita para pessoas físicas reduz a capacidade dessas empresas de cobrar pela intermediação de pagamentos.

O ex-ministro relaciona esse modelo ao conceito de tecnofeudalismo, expressão utilizada em seus trabalhos para descrever a crescente concentração de poder econômico nas plataformas digitais e nos proprietários de infraestruturas tecnológicas. Na avaliação do economista, o Pix oferece uma alternativa concreta a esse processo.

“Aqui, finalmente, está um exemplo concreto de como limitar o poder das grandes empresas, das grandes finanças e das grandes empresas de tecnologia: não com slogans, mas construindo uma infraestrutura digital pública que elimina, desde o início, a oportunidade de extrair renda”, afirmou.

Varoufakis também destacou a rápida expansão do sistema brasileiro, que movimentou quase 80 bilhões de transações no ano anterior, segundo os números apresentados em seu texto. Para ele, a popularização do Pix demonstra que ferramentas públicas podem alcançar grande adesão quando oferecem serviços eficientes e acessíveis à população.

Economista critica pressão dos Estados Unidos contra o Pix O ex-ministro grego também associou a defesa do Pix pelo governo Lula às tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos.

Em sua publicação, Varoufakis afirmou que Washington utilizou instrumentos de pressão comercial contra o Brasil e incluiu o sistema de pagamentos instantâneos entre suas preocupações em relação ao mercado brasileiro. Segundo o economista, a insatisfação norte-americana estaria relacionada à concorrência representada pelo Pix para empresas internacionais de pagamentos.

“O governo mais poderoso da Terra mobilizou seu arsenal comercial contra um serviço público gratuito por ele ter sido bem-sucedido demais em impedir a extração de rendas pela Visa e pela Mastercard”, escreveu. Na avaliação de Varoufakis, a postura do governo brasileiro diante dessas pressões reforçou a importância política do sistema.

“Lula não recuou. Defendeu o Pix como um bem público brasileiro, e os brasileiros o recompensaram por isso”, afirmou.

A análise apresenta o Pix não apenas como uma inovação tecnológica, mas também como um instrumento capaz de ampliar a autonomia econômica do país e reduzir a influência de grandes conglomerados financeiros. Vitória de Lula não elimina os obstáculos, avalia Varoufakis

Apesar dos elogios, Varoufakis reconheceu que a reeleição de Lula não representa uma transformação estrutural da economia brasileira. O economista destacou que a vitória ocorreu por uma margem relativamente estreita e que o presidente continuará enfrentando resistências no Congresso Nacional.

Ele citou a influência das bancadas ligadas ao agronegócio e aos setores evangélicos, além dos juros elevados praticados pelo Banco Central, como obstáculos à implementação de uma agenda econômica mais distributiva. Varoufakis também criticou as concessões feitas pelo próprio governo a grupos econômicos influentes, argumentando que esses compromissos contribuíram para a perda de apoio político.

“Não quero romantizar. Lula não é um revolucionário.

Sua margem foi estreita”, escreveu. Ainda assim, o ex-ministro considera que a experiência brasileira oferece três ensinamentos fundamentais para movimentos progressistas de outros países.

O primeiro é que a concentração de riqueza e os conflitos econômicos não precisam resultar necessariamente no fortalecimento do fascismo. O segundo é que governos progressistas podem conquistar apoio popular ao enfrentar os mecanismos de concentração de renda.

O terceiro é que alternativas públicas podem limitar o poder de grandes empresas e instituições financeiras. Varoufakis propõe que outros países sigam exemplos do Brasil

Na parte final da publicação, o economista apresentou uma série de propostas que, em sua avaliação, poderiam ajudar governos progressistas a enfrentar a desigualdade econômica. Entre elas estão a criação de sistemas públicos de pagamentos semelhantes ao Pix, a ampliação da tributação sobre ganhos de capital, a exigência de contrapartidas públicas em programas de socorro financeiro e o fortalecimento de bancos públicos de investimento.

Varoufakis também defendeu a recuperação do poder de negociação dos trabalhadores, argumentando que a autonomia econômica depende da existência de alternativas reais às condições impostas pelos proprietários do capital. Para ilustrar esse argumento, recuperou uma passagem analisada por Karl Marx sobre o empresário britânico Thomas Peel, que levou recursos financeiros, equipamentos e trabalhadores para a Austrália no século XIX, mas descobriu que não poderia reproduzir as relações capitalistas quando os trabalhadores tinham a possibilidade de trabalhar por conta própria.

O economista utilizou o episódio para defender que o poder econômico não depende apenas da propriedade de recursos, mas também da capacidade de controlar as condições de trabalho e as alternativas disponíveis à população. Na conclusão, Varoufakis retomou uma declaração do investidor norte-americano Warren Buffett sobre a existência de uma luta de classes conduzida pelos mais ricos.

“Buffett estava certo. Existe uma luta de classes, e sua classe vinha vencendo com enorme facilidade.

Mas ontem, no Brasil, ela perdeu uma batalha, embora não a guerra”, escreveu. O ex-ministro encerrou sua análise atribuindo a vitória brasileira à disposição de Lula de enfrentar politicamente os interesses econômicos concentrados.

“Perdeu porque um presidente da classe trabalhadora ousou dar nome à guerra e combatê-la usando instrumentos criados para defender a maioria”, concluiu.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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