O quarto governo Lula começa com tarifa de 25%, disputa na OMC e embaixador americano sem aval. As relações Brasil-EUA pioraram no terceiro mandato e tendem a seguir travadas em 2027.
Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito para o quarto mandato com mais de 64 milhões de votos – algo que enxergávamos como matematicamente improvável algumas semanas atrás. O resultado é legítimo e deve ser reconhecido por todos, inclusive por quem passou meses questionando as urnas.
Mas reeleição não apaga o balanço. A política externa do terceiro mandato, sobretudo com os Estados Unidos, deixou o Brasil mais exposto e com menos canais de diálogo, e nada indica que isso mude sozinho.
Em julho de 2025, os EUA impuseram uma tarifa de 50% (10% mais 40% adicionais) sobre produtos brasileiros. Em outubro, Lula e Trump se encontraram na Malásia, e o brasileiro chamou a conversa de “surpreendentemente boa”.
Trump designou o secretário de Estado, Marco Rubio, para seguir a negociação com Geraldo Alckmin, Mauro Vieira e Fernando Haddad. Em 3 de janeiro de 2026, os EUA atacaram a Venezuela e capturaram Nicolás Maduro.
Lula condenou a ação como “linha inaceitável”, e Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha divulgaram nota conjunta contra operações militares unilaterais. Em 7 de maio, Lula esteve na Casa Branca, e os dois governos combinaram 30 dias para resolver as tarifas.
Não resolveram. Em 1º de junho, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) concluiu que práticas brasileiras em comércio digital, pagamentos eletrônicos, etanol, propriedade intelectual, combate à corrupção e desmatamento ilegal eram “irrazoáveis”.
Em 15 de julho, impôs tarifa adicional de 25%, em vigor desde o dia 22. Em 27 de julho, o Brasil pediu consultas na OMC.
Lula diz que Trump “não é quem não gosta do Brasil” e aponta Rubio como o responsável pela tensão. Mas foi o próprio Trump quem escolheu Rubio como interlocutor, e um governo que quer negociar não escolhe o adversário da outra mesa.
Há também o caso do embaixador. Trump indicou o deputado Daniel Perez, e Lula declarou em agosto que só daria o agrément depois da eleição.
Seu argumento, de que os EUA ficaram um ano e meio sem embaixador em Brasília, é verdadeiro, mas é um argumento para negociar, não para esperar. Segundo o Observatório de Política Externa, o visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti foi revogado, e representantes americanos tiveram vistos negados.
Na audiência do USTR de 6 e 7 de julho, os únicos presentes foram funcionários da Embaixada do Brasil, como observadores. A disputa foi usada como bandeira de campanha.
Na sabatina da TV Globo, em 15 de outubro, Lula disse que os EUA “precisam mais do Brasil”. Pode ser verdade para alguns produtos, mas essa não é uma frase que se leva a uma mesa de negociação, e quem paga a conta são os exportadores.
O caso da Venezuela mostra o mesmo problema. Condenar o uso unilateral da força é posição defensável.
O que enfraquece a credibilidade brasileira é a ambiguidade histórica diante de Caracas, que o próprio JOTA descreveu em janeiro como “esqueletos” no armário. A multivetorialidade, ideia que o governo defende, exige canais abertos com todos.
O Brasil enfrenta tarifa de 25% nos EUA, tarifa de 67% da China sobre carne bovina excedente à cota e regras europeias de desmatamento. Seria desonesto atribuir tudo a Lula.
O tarifaço de 2025 foi justificado em parte pela condenação de Jair Bolsonaro, e o STF entendeu que seu filho Eduardo articulou o tarifaço, a revogação de vistos de ministros e as sanções da Lei Magnitsky para tentar impedir a condenação do pai. Eduardo foi condenado por coação no curso do processo, a 4 anos e 2 meses, e teve prisão decretada em 8 de outubro.
Jair foi condenado a 27 anos e 3 meses. Quem pede a Washington que sancione o próprio país prejudica trabalhadores e exportadores brasileiros.
A seção 301 também não é só política: Pix, etanol, desmatamento e ordens judiciais de remoção de conteúdo são temas que qualquer governo terá de enfrentar. A primeira prova será o agrément a Daniel Perez, que Lula prometeu para depois da eleição.
A segunda é a OMC, cujo caminho é lento e não tira a tarifa no curto prazo. A terceira é se o governo vai abrir um canal profissional com o Departamento de Estado, além do contato entre presidentes.
Sem isso, a interlocução limitada tende a continuar, e a tarifa de 25% tende a ficar. O Brasil entra nessa disputa fragilizado.
A mediana das projeções do mercado vê dívida bruta de 83,4% do PIB em 2026 e 87% em 2027, e o Focus projeta 95,1% em 2030. O déficit primário projetado é de cerca de R$ 53 bilhões, contra meta de superávit de 0,25% do PIB.
A Selic está em 13,75%, e a inflação projetada de 5,22% está acima do teto de 4,5%. Com esse quadro, não há folga para uma guerra comercial.
Lula terá de provar, até 2030, que sabe separar o discurso da negociação. Foi eleito para governar, não para repetir o mesmo roteiro.
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