247 – O governador reeleito do Piauí Rafael Fonteles (PT) afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deverá adotar uma agenda mais ambiciosa de políticas sociais em seu quarto mandato, sem abandonar a responsabilidade fiscal. Em entrevista à Folha de S.Paulo nesta quarta-feira (28), o governador defendeu que os compromissos assumidos pelo presidente na campanha eleitoral são compatíveis com as regras das contas públicas e poderão ser implementados progressivamente.
“Ele vai navegar nesses dois campos, conciliar essas duas agendas, mas jamais vai abrir mão dos ganhos sociais a cada ano”, afirmou Fonteles, que participou da mobilização política pela reeleição de Lula e tem seu nome mencionado entre os possíveis integrantes da próxima equipe econômica.
Segundo o governador, as propostas apresentadas pelo presidente na reta final da disputa eleitoral passaram pela avaliação da equipe econômica e respeitam os limites estabelecidos pelo arcabouço fiscal. Entre as iniciativas citadas estão a ampliação do Pé-de-Meia, o Prospera MEI, que prevê um Pix de R$ 5 mil para empreendedores, e a possibilidade de transporte público gratuito nos fins de semana, associada à utilização de emendas parlamentares de bancada.
“Tudo o que foi proposto foi validado pela equipe econômica, respeitando o espaço do arcabouço fiscal para os próximos anos. Elas são exequíveis ao longo dos quatro anos.
Ele vai implantar gradativamente”, declarou. Fonteles também considerou possível que o governo encerre 2026 com um pequeno superávit fiscal, embora tenha apresentado essa avaliação como uma expectativa.
Para ele, o presidente poderá aproveitar o fortalecimento político obtido com a vitória eleitoral para aprofundar o ajuste das contas públicas, mantendo os programas sociais. O governador avaliou ainda que a reação negativa do mercado financeiro à reeleição de Lula tende a perder força.
Na sua interpretação, investidores haviam incorporado aos preços dos ativos a expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro (PL), apesar das posições assumidas pelo adversário durante a campanha. “Naturalmente tudo vai se acalmar, e o presidente, no momento certo, vai anunciar as medidas para o próximo governo.
Ele vai mais uma vez conciliar os programas sociais com responsabilidade fiscal”, afirmou. Fonteles nega conversas sobre o Ministério da Fazenda
Apontado como um dos possíveis nomes para comandar o Ministério da Fazenda no próximo mandato, Fonteles negou ter recebido qualquer convite ou discutido com Lula a composição do futuro governo. “Nunca tratei com ele sobre nenhum cargo, nenhuma função no próximo governo.
Não falei com ele sobre política econômica”, declarou. O governador ressaltou que acabou de conquistar a reeleição no Piauí e pretende assumir o novo mandato.
Segundo ele, a possibilidade de deixar o governo estadual para integrar a administração federal não foi objeto de conversas com o presidente. “Eu nunca parei para sequer pensar nessa possibilidade porque ela nunca foi conversada e porque não há elementos que me levem a cogitar isso”, acrescentou.
Fonteles integra uma geração mais jovem de dirigentes do PT e ganhou projeção nacional por sua atuação na área econômica. Antes de assumir o governo piauiense, ocupou a Secretaria da Fazenda do estado e presidiu o Comitê Nacional dos Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz).
Governador defende investimentos e trajetória sustentável da dívida Ao abordar os desafios econômicos do próximo mandato presidencial, Fonteles argumentou que o equilíbrio fiscal precisa ser acompanhado de crescimento econômico e ampliação dos investimentos públicos.
Ele apresentou a experiência administrativa do Piauí como exemplo de uma estratégia que busca conter despesas correntes e gastos com pessoal, preservando recursos para investimentos. “No meu governo, priorizei o equilíbrio fiscal, mas procurando sempre elevar a taxa de investimentos”, afirmou.
O governador reconheceu que houve ampliação do endividamento estadual, mas sustentou que os recursos foram direcionados a investimentos públicos capazes de estimular a atividade econômica. No plano nacional, Fonteles associou a possibilidade de redução dos juros à construção de uma trajetória sustentável da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).
“Quanto mais ficar clara a trajetória da dívida de forma sustentável, mais a taxa de juros vai cair”, declarou. Na sua avaliação, a melhora dos resultados fiscais, combinada ao crescimento econômico, poderá contribuir para reduzir o custo do financiamento da dívida brasileira.
Fonteles reconheceu que existem divergências sobre a velocidade necessária para o ajuste fiscal, mas defendeu a estratégia de Lula de conciliar a recuperação das contas públicas com a preservação das políticas sociais. O governador também demonstrou confiança na capacidade de articulação política do presidente com o Congresso Nacional.
Segundo ele, Lula reúne condições para construir maiorias na Câmara dos Deputados e no Senado e aprovar medidas consideradas necessárias para a economia. Reforma tributária e comunicação digital
Fonteles também comentou os desafios da implementação da reforma tributária sobre o consumo. Questionado sobre uma proposta de alíquota de 11,3% para a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), atribuída ao Tribunal de Contas da União (TCU), afirmou que não havia examinado o estudo.
O governador defendeu, entretanto, a preservação do princípio de neutralidade tributária, pelo qual a reforma não deve provocar aumento da carga total de impostos. “Esse debate da alíquota termina sendo menos relevante porque, a rigor, o que importa para a população é o não aumento da carga tributária”, disse.
Ele admitiu a possibilidade de ajustes pontuais ao longo da implementação do novo sistema, mas avaliou positivamente a estrutura central da reforma. Outro tema abordado foi a comunicação do governo federal.
Fonteles atribuiu parte do desempenho eleitoral de Lula no segundo turno à maior presença do presidente nas plataformas digitais, especialmente na mobilização dos jovens e na aproximação com os eleitores. Para o próximo mandato, defendeu a utilização das redes sociais como instrumento de diálogo direto entre o governo e a população, permitindo tanto divulgar políticas públicas quanto receber avaliações sobre seus resultados.
Ao comentar a regulação das grandes empresas de tecnologia, o governador afirmou que eventuais suspeitas de interferência nas eleições precisam ser investigadas. Também defendeu mecanismos para combater crimes praticados no ambiente digital e impedir a manipulação da opinião pública por meio de algoritmos.
Fonteles classificou como lamentável a decisão de Flávio Bolsonaro de deixar o Brasil e questionar a legitimidade do resultado eleitoral. Na avaliação do governador, a postura do candidato derrotado não comprometerá o reconhecimento institucional da vitória de Lula.
“Mas não vai afetar em nada porque as instituições estão todas alinhadas no sentido de que o processo democrático correu na mais absoluta tranquilidade. É uma tentativa inócua de querer tumultuar”, afirmou.
Brasil 247