247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia uma ampla renovação na cúpula das Forças Armadas para o início de seu quarto mandato. A mudança poderá representar um marco histórico: pela primeira vez desde a redemocratização, Exército, Marinha e Aeronáutica deverão ser comandados simultaneamente por oficiais que concluíram sua formação militar após o fim da ditadura, em 1985.
A reorganização também poderá atingir o Ministério da Defesa e o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República. Segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo nesta quarta-feira (28), os atuais comandantes das três Forças manifestaram a intenção de deixar seus postos em janeiro.
O general Tomás Paiva, responsável pelo Exército, é cotado para assumir o GSI, enquanto o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, também pretende encerrar sua passagem pelo governo. Além de Paiva, devem deixar seus cargos o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno, e o comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen.
Os três estão à frente das respectivas instituições desde o início do atual governo Lula e já comunicaram internamente a disposição de não permanecer nas funções. A expectativa é que os nomes dos sucessores sejam definidos e anunciados ainda em outubro, permitindo que a transição seja realizada em janeiro.
Renovação marcará mudança geracional nas Forças Armadas A substituição dos comandantes representará uma mudança significativa no perfil da liderança militar brasileira.
Os três atuais chefes das Forças Armadas concluíram seus cursos de formação durante a presidência do general João Figueiredo, último governante da ditadura militar. Tomás Paiva tornou-se aspirante a oficial em 1981, enquanto Marcelo Kanitz Damasceno e Marcos Sampaio Olsen concluíram a formação em 1982.
Todos, portanto, ingressaram na carreira de oficiais quando o país ainda estava sob o regime instaurado pelo golpe de 1964. Os militares apontados como possíveis sucessores, por sua vez, concluíram a formação a partir de 1985, durante o governo de José Sarney, primeiro presidente civil após o encerramento da ditadura.
A escolha dos novos comandantes segue uma tradição segundo a qual o ministro da Defesa apresenta ao presidente da República os nomes dos três oficiais mais antigos de cada Força. A decisão final, entretanto, cabe ao chefe do Executivo, que não está obrigado a respeitar a ordem de antiguidade.
General Francisco Montenegro Júnior é cotado para comandar o Exército Entre os possíveis substitutos de Tomás Paiva, o nome que ganha maior destaque é o do general Francisco Montenegro Júnior, atual chefe do Estado-Maior do Exército.
Montenegro concluiu sua formação militar em 1986 e mantém proximidade com o atual comandante. Sua indicação, contudo, dependeria de uma escolha presidencial que não seguisse estritamente a antiguidade.
Os três integrantes mais antigos do Alto Comando do Exército são os generais Luciano Guilherme Pinheiro, Kleber de Vasconcelos e Hertz Pires do Nascimento. Todos foram declarados aspirantes a oficial em 1985 e também integram o grupo de militares que poderá ser considerado para a sucessão.
Na Aeronáutica, dois oficiais aparecem entre os principais candidatos. O brigadeiro Walcyr de Castilho Araújo, atual chefe do Estado-Maior, e o brigadeiro Ary Soares Mesquita, responsável pela Secretaria de Economia, Finanças e Administração, são os nomes mais mencionados.
Ambos concluíram a formação como aspirantes a oficial em 1987 e estão entre os militares mais antigos da instituição. Na Marinha, a disputa envolve o almirante Arthur Fernando Bettega, chefe do Estado-Maior da Armada e integrante da área de submarinos, e o almirante Carlos Chagas Vianna Braga, comandante-geral do Corpo de Fuzileiros Navais.
Bettega concluiu sua formação em 1986, enquanto Braga tornou-se oficial em 1985. Tomás Paiva pode assumir o GSI da Presidência
Uma das principais possibilidades consideradas na reorganização do governo é a transferência de Tomás Paiva para o Gabinete de Segurança Institucional. A eventual nomeação manteria o general em uma posição estratégica no Palácio do Planalto, mesmo após sua saída do comando do Exército.
O GSI é responsável por atividades relacionadas à segurança presidencial, à proteção de instalações estratégicas e ao assessoramento da Presidência em assuntos de segurança institucional. A possibilidade de Paiva assumir o órgão integra as discussões sobre a composição do próximo governo, mas ainda não há confirmação oficial de sua indicação.
José Múcio deve deixar a Defesa; dois nomes são considerados A renovação também deverá alcançar o comando político do Ministério da Defesa.
José Múcio Monteiro está decidido a deixar o cargo, apesar das tentativas anteriores de Lula de convencê-lo a permanecer. O ministro reuniu-se com o presidente na terça-feira (27), em meio às articulações para a formação da próxima equipe ministerial.
Múcio assumiu a pasta no início de 2023, poucos dias antes dos ataques golpistas de 8 de janeiro, quando apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília. Durante sua gestão, o ministro apresentou pedidos para deixar o governo em diferentes ocasiões, mas acabou permanecendo após conversas com Lula.
Para substituí-lo, a expectativa é que o presidente mantenha um civil à frente do Ministério da Defesa. Um dos nomes considerados é o de Cinara Wagner Fredo, atual secretária-geral da pasta.
Servidora pública de carreira, ela acumula passagens pelos ministérios da Previdência, Fazenda e Cidadania. Cinara conta com o apoio do próprio José Múcio para assumir o ministério e já costuma representá-lo em reuniões no Palácio do Planalto.
Outra possibilidade é Márcio Elias Rosa, atual ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Com trajetória na área jurídica, Rosa atuou como promotor de Justiça e secretário de Justiça do estado de São Paulo.
O ministro também possui familiaridade com assuntos relacionados à Defesa, uma vez que as duas pastas desenvolvem projetos conjuntos. Trocas ocorrem após período marcado por condenações pela tentativa de golpe
A mudança na liderança das Forças Armadas ocorrerá após quatro anos marcados pelas consequências institucionais da tentativa de golpe de Estado relacionada à derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022. Tomás Paiva, Marcelo Kanitz Damasceno e Marcos Sampaio Olsen comandaram as instituições militares durante o período em que integrantes das Forças Armadas foram investigados, processados e condenados por participação na trama golpista.
Entre os militares condenados estão o general Walter Braga Netto, ex-ministro da Defesa e da Casa Civil, o general Augusto Heleno, que comandou o GSI durante o governo Bolsonaro, e o general Paulo Sérgio Nogueira, também ex-ministro da Defesa. Os três estavam na reserva quando foram condenados.
A responsabilização judicial, entretanto, também alcançou integrantes da ativa, entre eles o tenente-coronel Guilherme Marques de Almeida.
Brasil 247