Lula pede que eleitores comparem governos, e teste no Google mostra respostas favoráveis com base em PT e MST
Em uma tentativa de ampliar a popularidade diante da pressão das pesquisas eleitorais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou uma nova estratégia de promoção do governo: estimular a população a “perguntar ao Google” sobre feitos da gestão, em uma estratégia que busca respostas positivas alimentadas por publicações próximas à gestão petista.
O GLOBO realizou testes com perguntas sugeridas por Lula sobre qual governo investiu mais em áreas como saúde, educação e segurança pública. As respostas apresentadas pelo resumo baseado na ferramenta de inteligência artificial (IA) da plataforma, em sua maioria, tiveram tom favorável ao governo, justamente o que Lula busca com o plano.
Fontes alinhadas politicamente ao presidente ou à esquerda foram usadas como base, a exemplo dos sites do PT e do Instituto Lula, páginas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o CanalGov (abastecido pelo governo federal) e posts de parlamentares da base aliada, como os deputados Rui Falcão (PT-SP) e Chico Alencar (PSOL-RJ).
— Se vocês perguntarem no Google quem é o governo que mais investiu em escola de tempo integral, fomos nós. Quem é o governo que investiu mais na alfabetização? Fomos nós — disse Lula em discurso a operários da fábrica da Iveco em Sete Lagoas (MG), no dia 20 de março.
“O governo de Luiz Inácio Lula da Silva, particularmente em seu terceiro mandato (iniciado em 2023), tem se destacado por realizar altos investimentos na alfabetização, com destaque para o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, que prevê mais de R$ 3 bilhões para garantir a alfabetização na idade certa”, diz a ferramenta de IA do Google a quem pesquisa qual gestão fez mais investimentos em alfabetização.
Das dez fontes citadas pelo motor de busca, seis eram de sites do governo ou veículos oficiais (Agência Brasil e CanalGov), além de posts do Instituto Lula.
De acordo com a pesquisa Quaest mais recente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que será o principal opositor do atual mandatário na disputa presidencial, tem avançado no estrato do eleitorado que se identifica como "independente". A movimentação fez com que ele marcasse 32% das intenções de voto contra 39% do presidente, em um cenário em que o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) marca 4%, e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema anota 3%. No segundo turno, há empate numérico entre Lula e Flávio, com 41%.
Um dos pontos que Lula vai usar na campanha para desgastar Flávio é a comparação com o governo de Jair Bolsonaro, explorando o desempenho em áreas como saúde e educação. No mesmo evento, Lula sugeriu que fosse pesquisado quem fez mais universidades. Os registros oficiais indicam que de fato foi o governo petista, informação que a plataforma entrega citando fontes como um link do Instituto Lula; uma reportagem da TVT, veículo ligado à CUT; e posts de redes sociais do próprio presidente, de deputados petistas e de um sindicalista da CUT.
Procurado, o Google disse que a ferramenta foi criada “para destacar informações baseadas nos principais resultados da web” e que inclui links que “comprovam de onde as informações foram retiradas”. “As pessoas podem usar esses links, e outros que aparecem abaixo, em nossa experiência de busca, para aprofundar um tópico ou encontrar uma variedade de perspectivas”, conclui a nota.
A Secretaria de Comunicação da Presidência informou que o governo federal não tem uma estratégia de SEO (Otimização para Mecanismos de Busca, em tradução livre da sigla em inglês) em seus conteúdos, mas não comentou as respostas dadas pela ferramenta do Google.
"Reprodução acrítica"
A estratégia da comparação apareceu em outro discurso na semana passada. O presidente pediu que fosse pesquisado qual ocupante do Palácio do Planalto fez mais "políticas de inclusão". O Google responde ao item afirmando que “com base em dados de investimento social e redução da desigualdade, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) é frequentemente apontado como o que mais investiu em políticas de inclusão social na história do Brasil”.
Novamente, as fontes citadas pela IA são o site de Lula e de seu instituto e a página do governo federal, além de um post de um deputado do PSOL e um link do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que tem relação histórica com o presidente.
O GLOBO fez as mesmas perguntas em navegação anônima no Rio, em São Paulo, no Rio Grande do Sul, na Bahia e no Distrito Federal, e observou o mesmo padrão de resultados.
Ao ser questionado qual governo mais investiu em saúde, por exemplo, a ferramenta responde que os governos de Lula e Dilma Rousseff (2011-2016) “são frequentemente citados como os que mais aumentaram os investimentos na saúde, com crescimento de 86% acima da inflação no período”. A cifra é retirada do site do PT, que compara os valores destinados à Saúde em 2003 com os de 2015.
Além disso, as fontes usadas pelo Google para criar a respostas são links das redes sociais do PT e do site da sigla, um texto na página do MST, além de fontes oficiais do governo federal. Ao questionar qual governo investiu mais em segurança pública, área considerada calcanhar de Aquiles do governo Lula, o usuário também recebe uma resposta favorável à atual gestão. Diferentemente da maioria das questões, esse texto cita como fontes, além do portal do governo e do Instituto Lula, reportagens de veículos nacionais de imprensa.
Professor de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP), Pablo Ortellado critica a falta de transparência sobre a seleção das fontes do conteúdo gerado por IA como resposta aos usuários.
— Esses resultados aparentemente podem ser facilmente manipuláveis quando se dissemina informações categóricas. A plataforma não faz verificação e reproduz conteúdo de maneira acrítica. Isso é problemático porque há uma crescente tendência nas redes sociais de as pessoas conferirem autoridade às ferramentas de IA, como se elas fossem árbitros de discussões — diz ele, defendendo que é necessário "refletir" sobre a regulamentação para assuntos políticos e eleitorais.
Uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) veda que ferramentas de IA "emitam opiniões, indiquem preferência eleitoral ou recomendem voto". Para o diretor do ITS Rio, Carlos Affonso de Souza, elas não devem ser usadas como fontes de informação:
— Existe uma falha na premissa do presidente Lula e de grande parte da sociedade ao entender que ferramentas de busca, ainda mais quando empoderadas pela IA, são oráculos e suas respostas são, verdadeiras. Qualquer partido ou movimento que inundar a internet com conteúdo que diga X, Y ou Z poderá ganhar destaque no ranqueamento do Google e aparecer como fonte nesse resumo de IA.
