Autor do bordão mais conhecido das últimas décadas em campanhas presidenciais — “Nunca antes na História deste país” —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a reconhecer as dificuldades de sua gestão e a adotar um discurso mais “pé no chão”. Após debater com aliados os obstáculos da corrida eleitoral, o petista tenta modular o tom ufanista e afirma até mesmo que poderia ter feito “muito mais”. O GLOBO ELEIÇÕES: Participe da comunidade e saiba tudo sobre as campanhas, debates e sabatinas Com qual candidato a presidente você mais se identifica? Faça o teste do GLOBO e descubra A mudança na postura ocorre em um momento em que a campanha à reeleição está pressionada por pesquisas de intenção de voto. Os últimos levantamentos mostraram cenário de empate técnico com Flávio Bolsonaro (PL) — no Datafolha divulgado na quinta-feira, o petista aparece com 46%, contra 44% do candidato do PL em eventual segundo turno, enquanto na Quaest de segunda-feira o senador está numericamente à frente (42% a 40%). A modulação no discurso vinha sendo recomendada por aliados e passou a ser colocada em prática nos últimos dias. A inflexão mira o eleitor que se declara independente, levando em conta também a divulgação de propostas para um possível quarto mandato.
A avaliação de aliados é que é preciso seguir fazendo as comparações entre o governo petista e o que foi a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas, ao mesmo tempo, reconhecer que a situação atual do país, sobretudo na questão do custo de vida, está longe de ser a ideal. A ideia é tentar demonstrar que um eventual governo Flávio deverá ser muito pior, apresentando essa possibilidade como um “desastre” para o Brasil. A primeira mudança de tom do discurso do presidente foi feita no dia 10 de setembro, quando Lula concedeu entrevista ao SBT. Na ocasião, ele disse que lamentava muito que o governo, apesar de suas políticas econômicas, ainda não tivesse alcançado a expectativa das pessoas. — Você pensa que eu não fico triste de saber o que nós fizemos na economia e que ainda assim a gente não atendeu a expectativa da sociedade? Porque o custo de vida está caro — afirmou o presidente. A declaração foi considerada uma tentativa de mobilizar o eleitor indeciso. De lá para cá, esse tipo de postura passou a ser adotada nos discursos públicos do presidente e em outras entrevistas.
À Record, na última terça-feira, ao falar sobre a inflação do preço dos alimentos, o petista disse que “não resolvemos tudo”, mas destacou que foram dados passos “muito grandes” para “evitar que o povo morresse de fome”. Já em entrevista ao podcast Desce a Letra, no dia seguinte, voltou ao tema ao dizer que gostaria de ter feito “muito mais” na sua gestão. — Estou bem com as coisas que estamos fazendo no governo, obviamente que eu queria fazer muito mais, queria poder ter feito muito mais, mas as dificuldades foram enormes — afirmou. Endividamento Estrategistas da campanha afirmam que esse tipo de fala busca mostrar que Lula é sensível ao sofrimento das pessoas, especialmente em relação ao endividamento das famílias. O presidente vem testando o argumento, especialmente ao tratar da economia. A avaliação é que o petista se aproxima do eleitor ao reconhecer problemas reais. Também favorece o desempenho entre indecisos admitir que o governo não fez tudo que podia, sem atribuir as dificuldades exclusivamente às altas taxas de juros. Integrantes da campanha afirmam que o presidente deve demonstrar que sente a dor das pessoas e propor soluções para suas angústias. Por essa estratégia, Lula deve modular os elogios à própria gestão, para passar a ideia de que o cenário está longe do ideal e vender esperança de um futuro melhor. Ainda nessa linha, interlocutores do presidente afirmam que a campanha deve centrar esforços no diálogo com os eleitores para apontar as propostas que deverão nortear um eventual quarto mandato do petista. O slogan oficial da campanha de Lula, por exemplo, trata disso: “o Brasil pronto para mais”. ‘Em construção’ Éden Valadares, secretário de comunicação do PT e integrante da coordenação, diz que há uma orientação de Lula para que sejam feitas comparações das propostas de cada candidato e das gestões Bolsonaro e Lula, discutindo medidas que impactam na realidade da população, destacando custo de vida, segurança, educação e saúde. — Nunca foi nossa ideia apresentar o governo Lula como um projeto finalizado, mas em processo, em construção e por isso a necessidade de um novo mandato. Fez muito, mas ainda tem muito para fazer — diz Éden Valadares. A adoção de um tom mais “pé no chão” de Lula foi discutida em reunião da executiva nacional do PT que buscou traçar novas estratégias para a campanha do presidente, diante da percepção que ele está sendo prejudicado eleitoralmente pela crise institucional sem precedentes do Supremo Tribunal Federal (STF). Um petista que acompanhou a conversa no último dia 10 afirma, sob reserva, que uma das ideias discutidas nessa mudança de discurso é também apontar para o que poderá acontecer com o Brasil — e o mundo — numa eventual vitória de Flávio Bolsonaro. Em entrevista à GloboNews na sexta-feira, o presidente do PT e coordenador-geral da campanha, Edinho Silva, também seguiu essa linha adotada por Lula. — A gente pode ter cometido erros no governo. A gente pode ter desafios para aprimorar o Brasil, podemos tornar o Brasil mais eficiente, melhorar o gasto público. A gente pode reconhecer que temos muito o que fazer para o Brasil melhorar. Mas é muito diferente o nosso projeto do deles — disse Edinho. Diversas peças de campanha que estão sendo divulgadas nas redes sociais e em grupos alinhados ao PT já adotam esse tom. Nesta semana, por exemplo, foram divulgadas fotografias que remetem ao governo Jair Bolsonaro, como as vítimas da Covid-19 (com imagem de um cemitério vista do alto), a fome (retratada pela fila em açougues para conseguir ossos) e o desmatamento com as frases: “Se o pai fez isso, imagina o filho”.
O Globo