O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, vai reforçar o discurso econômico voltado para a redução do custo de vida da população e concentrar as viagens ao Sudeste nas duas semanas que faltam para o primeiro turno, em um apelo ao “voto útil” dos eleitores dos outros candidatos de direita. As pesquisas mostram um acirramento da disputa contra o presidente Lula, e a campanha do senador busca antecipar o apoio de uma parcela do eleitorado que rejeita o PT. ‘Desespero’: Flávio diz que Lula tenta ‘comprar voto dos pobres’ com reajuste do Bolsa Família Alerta: Relatório da Abin enviado a governo e TSE aponta risco de interferência dos EUA nas eleições O movimento, que tem como alvo os apoiadores de Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo), será conduzido sem ataques diretos aos adversários. A orientação é apresentar Flávio como o nome em melhores condições de derrotar o atual presidente e antecipar uma migração que poderia ocorrer naturalmente em um eventual segundo turno. Na quinta-feira, Flávio vocalizou o mote durante ato de campanha em Vitória da Conquista (BA) e na live semanal: — Vocês que estão pensando em votar em outros candidatos, que são meus concorrentes, pensem na possibilidade de votar em Flávio Bolsonaro no primeiro turno, para a gente resolver logo.
Para buscar o eleitor que desaprova o governo, o candidato do PL passou a reforçar o discurso sobre endividamento, inflação, juros e custo de vida. Entre as propostas estão a redução de impostos sobre energia e combustíveis, a revisão da reforma tributária para diminuir a alíquota do IVA e medidas para baratear alimentos por meio de investimentos em logística, armazenagem de safras e produção nacional de fertilizantes. A campanha também prepara um programa de renegociação de dívidas que, segundo a coordenadora econômica Daniella Marques, pretende alcançar mais de 100 milhões de brasileiros e usar ativos da União para ajudar a recompor a capacidade financeira dos endividados. A equipe econômica sustenta que a redução mais duradoura da inflação e dos juros depende de um ajuste das contas públicas e passou a quantificar a meta em um corte de despesas equivalente a 1,5% do PIB. A campanha, porém, ainda não detalhou quais despesas seriam reduzidas e afirma que o desenho técnico completo das medidas será apresentado após a eleição. Disputa com Desenrola O discurso sobre custo de vida e endividamento mira os eleitores de classe média e de renda mais baixa, setores que o governo também tenta atrair e que foram foco de uma série de programas federais, como o Desenrola. Em um eventual segundo turno, a Quaest divulgada na semana passada mostrou Flávio dez pontos à frente de Lula entre quem recebe de dois a cinco salários mínimos (46% a 36%). No início de agosto, a vantagem de Flávio era de apenas dois pontos nesse segmento (43% a 41%). Entre os eleitores com renda de até dois salários mínimos, Lula mantém ampla vantagem (51% a 32%), mas viu a distância diminuir. Em meados de agosto, o petista marcava 58%, ante 27% do rival. No placar geral, o instituto mostrou Flávio numericamente à frente de Lula pela primeira vez na simulação de segundo turno durante a campanha (42% a 40%), mas ainda em empate técnico com o petista na margem de erro, de dois pontos percentuais para mais ou menos. Já no primeiro turno, Lula tem 36%, e Flávio, 31%. Cury marca 7%, Caiado e Renan registram 4% cada, e Zema soma 1%. Coordenador da candidatura, o senador Rogério Marinho (PL-RN) busca associar endividamento, inflação, juros e dificuldade de acesso ao crédito à gestão Lula e apresentar uma mudança nessa área como uma das propostas de Flávio. — O PT mente no Orçamento e afunda os brasileiros em dívidas. Voltaremos a ter responsabilidade fiscal, controle da inflação, juros baixos e crédito acessível para que as famílias brasileiras voltem a comprar móveis e eletrodomésticos, não apenas o básico — afirmou Marinho. A preocupação em disputar esse eleitorado apareceu também na reação ao reajuste de 15% do Bolsa Família anunciado pelo governo na quinta-feira. Embora tenha acusado Lula de agir com objetivo eleitoral, Flávio decidiu não recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tentar suspender a medida. A orientação é evitar que o candidato à reeleição apresente a campanha do PL como contrária ao aumento do benefício. O deputado Zé Trovão (PL-SC) acionou a Corte para questionar o aumento, movimento desautorizado publicamente por Flávio — relator do caso, o ministro André Mendonça rejeitou a ação. A campanha também refuta a interpretação de que tenha terceirizado para aliados a contestação judicial e afirma que sua estratégia é não recorrer. Nas redes, bolsonaristas têm concentrado as críticas no momento escolhido pelo governo para conceder o reajuste, sem atacar o aumento em si. Flávio seguiu linha semelhante ao classificar os 15% como uma “merreca” e questionar por que Lula não havia ampliado o benefício anteriormente. Ontem, o presidenciável voltou ao tema e disse que o adversário tenta “comprar o voto dos pobres” com a medida. Foco no Sudeste A busca pelo voto útil será acompanhada pela estratégia de focar no Sudeste, região mais populosa. Depois de uma sequência de viagens pelo Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul, a previsão é que Flávio não volte a percorrer outras regiões a partir de meados da semana e concentre as agendas restantes em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, os três maiores colégios eleitorais do país, com 40% do total do eleitorado. A tendência é que ele passe por cada um dos três estados pelo menos duas vezes até o fim da eleição e finalize as agendas do primeiro turno no Rio. O desenho acompanha seu desempenho na região. No segundo turno, Flávio alcançou 47% na região, ainda segundo a Quaest, contra 31% de Lula. No início de agosto, a distância era de apenas dois pontos (40% a 38%). Um jingle em discussão acompanha a estratégia do voto útil contra Lula na direita. A música aposta na urgência da escolha e apresenta Flávio como “libertador”. “A hora é agora, não deixe para depois”, diz um dos versos. Embora não mencione adversários, a peça está alinhada à mensagem de união que deverá aparecer também nos programas de rádio e televisão. A crise no Supremo Tribunal Federal (STF), explorada nas últimas semanas como eixo de confronto com Lula, continuará presente, mas dividirá espaço com a agenda econômica. Na semana passada, Flávio dedicou parte significativa de seu programa a um “pronunciamento à nação” de 4 minutos e 20 segundos, no qual falou em “desequilíbrio institucional” e buscou vincular Lula a Moraes. A preocupação da campanha permanece sendo o desgaste provocado pela investigação do financiamento do filme “Dark horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. — Já vimos muitas pessoas pedindo que os eleitores do Zema e Caiado entendam esse momento. A questão do STF é favorável à direita, porque todo mundo sabe a relação entre Lula e STF — afirmou o deputado Altineu Côrtes (PL-RJ). Ao mesmo tempo, a campanha não quer romper pontes com os candidatos cujos votos pretende atrair. O cálculo é avançar sobre seus eleitores agora sem inviabilizar uma composição em um eventual segundo turno. A estratégia, no entanto, provoca irritação. — Lógico que este movimento de voto útil é desrespeitoso — diz Caiado. Já Renan minimizou a hipótese de perder apoio na reta final e disse que pretende manter o confronto com o candidato do PL: — Se tem algum efeito, é marginal. Ele está aproveitando que o momento agora é bom para ele para tentar fazer isso.
O Globo