Ao vencer sua quarta eleição, o presidente Lula (PT) realizou várias proezas. Provou que é possível virar um pleito em segundo turno, o que ninguém desde a redemocratização havia feito, e tornou-se o presidente eleito por voto direto que por mais tempo governará o país na República.
Passado o calor da eleição, terá de superar enormes desafios: pacificar e administrar um país profundamente dividido, em que quase metade dos eleitores o rejeita. Terá de se relacionar com o mais hostil Congresso de todos com que conviveu em 12 anos no Planalto.
Precisará agir para debelar uma crise de endividamento público, com margem de manobra menor depois dos muitos programas eleitoreiros às vésperas do pleito. Fora desafios em temas como educação, sem a qual o país não ganhará produtividade, e segurança pública, demanda número 1 dos cidadãos.
Após o resultado da eleição, Lula prometeu governar “para 215 milhões de brasileiros”. E emendou: “Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos”.
Prometeu, ainda, governar junto com o Congresso eleito pelo povo. Lula tem uma trajetória de homem público de mais de meio século, com um legado de inclusão social.
Depois de fugir da seca em Pernambuco, aprendeu o ofício de metalúrgico em São Paulo, tornou-se líder sindical e dali tentou três vezes se eleger presidente, até conseguir em 2002 e 2006. Após ser preso e condenado na operação Lava-Jato, viu seus processos serem anulados e voltou à presidência para seu terceiro mandato.
Ontem, Lula venceu com 64,2 milhões de votos (51,78%) seu rival Flávio Bolsonaro (PL), que teve 59,8 milhões de votos (48,22%), com 99,99% das urnas apuradas. O dia de eleições foi tumultuado.
Após denúncias de falta de transporte público em diversas localidades, o ministro Cristiano Zanin, do STF, estendeu o prazo de votação por duas horas quando já havia urnas fechadas. Nos quatro anos finais da era Lula, ele terá de encontrar solução para um problema que sua longevidade no cargo criou e que o domínio hegemônico de seu grupo político no PT reforçou: não deixou herdeiros políticos com cacife sequer parecido.
Lula é maior que o PT, e sua ausência pode tornar o partido menor do que foi à sua sombra. Hábil negociador político, o presidente precisará governar para todos, o que implica trazer para seu governo forças, grupos e líderes políticos que não estão alinhados com o programa petista, mas que poderiam colaborar para atingir objetivos comuns.
Há um grande campo de convergência onde isso é possível, a começar pela educação, o ponto mais vital e frágil para o desenvolvimento do país, a saúde, onde há boas experiências e técnicos em várias legendas que possam contribuir para a melhoria e progresso do SUS, e o avanço tecnológico.
É possível obter razoável apoio pluripartidário para que a política externa brasileira se mantenha equidistante das duas superpotências econômicas, EUA e China, siga diversificando mercados e obtendo novos acordos comerciais em um mundo cindido pela geopolítica. É importante procurar aprofundar a integração econômica com o Mercosul e países latino-americanos, minimizando desavenças ideológicas com os vizinhos, que hoje, na maioria, giram na órbita do presidente Donald Trump.
Os problemas mais graves estão na condução da economia. Mais quatro anos da mesma política produzirão resultados ruins.
A economia cresceu 3% nos primeiros anos do atual mandato, à custa de gastos fiscais e parafiscais que esgotaram seu poder de estímulo de expansão. Ela esteve apoiada em um regime fiscal que não cumpriu a missão a que se propôs: reduzir e depois estabilizar a dívida pública em relação ao PIB.
O orçamento de 2027 contempla exceções de gastos à regra e terá de encontrar mais R$ 53,6 bilhões em recursos apenas para começar a executar as promessas feitas aos borbotões. Mesmo ganhando a eleição com uma plataforma que corroborava a resistência de Lula ao superávit fiscal, o presidente terá de ser realista e corrigir rumos.
Sua própria equipe indicou que em 2028 não haverá dinheiro suficiente para atender as despesas contratadas, o que, sem mudanças, acabará por paralisar partes da máquina pública e reduzir os investimentos. Esse é um obstáculo central: a economia se chocou com o muro de taxas de juros muito elevadas pelo aumento das dívidas públicas, que desaceleram as atividades para deter a inflação.
Há margem de manobra para ajustes fiscais graduais, ao longo do tempo. Importa sinalizar a direção, com metas críveis e vontade política.
As relações com o Congresso serão mais difíceis, depois que o PL se tornou o maior partido. Uma participação direta de mais partidos no governo atrairia mais apoio no Congresso, onde o Planalto precisará do Centrão para aprovar seus projetos.
Ainda que a relação tenha sido conflituosa no terceiro mandato, há espaço para negociações em torno de projetos importantes. Avesso a se tornar refém do PL, o Centrão se uniu para reconduzir Hugo Motta, que apoiou Lula, à presidência da Câmara.
No Senado, a correlação de força é muito mais desfavorável, o que pode trazer reveses nas indicações para agências reguladoras e Supremo Tribunal Federal.
Valor