O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira que conversou três vezes com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, sobre a crise entre os ministros da Corte. Lula disse que apontou ao magistrado que ele "não fez o correto" e deve "assumir a responsabilidade", sem detalhar, porém, o que considera erro na condução de Fachin. Em entrevista ao Flow Podcast, Lula foi questionado sobre a crise do Supremo, e disse que procurou Fachin para o aconselhar a como contornar a situação. — Eu conversei com o Fachin três vezes, e disse que ele não pode deixar a Suprema Corte degladiando, o que o povo humilde vai pensar do que está acontecendo? Assuma a responsabilidade como presidente e tome conta disso. Na minha opinião, ele não fez o correto, mas não posso dar mais palpite do que isso — disse Lula.
Segundo Lula, os embates públicos entre os ministros vem minando a credibilidade do Judiciário. O presidente criticou a exposição pública a que os membros do STF estão submetidos. — O que está acontencendo está levando a Corte a perder credibilidade na sociedade, depois que inventaram a TV Justiça, para ficar mostrando a briga deles, cada um querendo fazer discurso de três horas, duas horas, um voto que deveria durar cinco minutos, dura cinco horas para dar. O presidente reafirmou propostas que vem divulgando para uma eventual reforma no Judiciário, com medidas como mandato de prazo fixo para os magistrados do STF, e a criação de um conselho da sociedade civil para a indicação dos ministros.
Lula afirmou que os ministros que cometeram crimes terão que "pagar o preço". — Se eles tem um comportamento que não é o correto, eles vão pagar o preço, todos nós pagamos o preço do erro que cometemos, todos nós. Eu quero dizer para você, que a partir do que aconteceu agora, é importante você saber que a primeira reforma do judiciário foi eu que fiz, em 2004 — disse no podcast. A crise no Supremo Tribunal Federal ganhou forma no mês passado, quando o ministro André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal com mensagens do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que citam o ministro Alexandre de Moraes.
Moraes reagiu: pediu investigação contra Mendonça no inquérito das fake news, alegando improbidade, crime de responsabilidade e abuso de autoridade. Mendonça, por sua vez, confirmou ter recebido Vorcaro no início de 2025, mas disse que não tratou do Master.
O conflito escalou na semana seguinte. Mendonça afastou Andrei Rodrigues e o diretor de inteligência da PF, Leandro Almada, sob a acusação de terem produzido relatórios ilícitos a pedido de Moraes. No dia seguinte, Flávio Dino reintegrou os dois; horas depois, o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu as duas decisões e retirou de Moraes a relatoria do inquérito das fake news, que passou a conduzir.
Em sessão extraordinária em 15 de setembro, o plenário discutiu se os casos de Moraes e Mendonça deveriam ser julgados em conjunto. Dino pediu vista após bate-boca entre Gilmar Mendes e Mendonça, e o julgamento ficou sem data para ser retomado, com placar parcial de 4 a 3 pela análise conjunta. A disputa chegou à campanha eleitoral na última semana. No TSE, Mendonça mandou remover, a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), publicações que associavam o candidato a uma suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira; Dino suspendeu a ordem, e Fux, em 28 de setembro, restabeleceu a decisão de Mendonça. Fachin chegou a sinalizar que levaria o caso ao plenário, mas recuou. O TSE manteve a remoção das publicações, mas liberou a do humorista Antonio Tabet depois que Mendonça reajustou o voto, e nesta quinta-feira Dino declarou a perda de objeto de sua decisão e desistiu de levar o tema ao plenário do STF.
O Globo