247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu que não tomará a iniciativa de procurar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para discutir o resultado das eleições brasileiras ou solicitar o reconhecimento de sua vitória. A orientação do governo é evitar qualquer movimento que possa ser interpretado como sinal de dependência política em relação a Washington, especialmente após a reeleição de Lula no último domingo (25).
Segundo a coluna Painel, da Folha de São Paulo, Lula comunicou a interlocutores que não pretende buscar uma conversa com Trump, nem mesmo para prestar esclarecimentos sobre o processo eleitoral brasileiro. Integrantes do governo consideram que uma iniciativa dessa natureza poderia transmitir uma imagem de “fragilidade do governo”, em um momento no qual o presidente brasileiro avalia ter ampliado sua força política com o resultado das urnas.
A posição do Palácio do Planalto é que a legitimidade da eleição brasileira não depende do reconhecimento do governo estadunidense. Por isso, a diplomacia brasileira pretende preservar a autonomia de suas decisões e evitar que a relação bilateral seja condicionada às disputas políticas internas do Brasil.
Nesta quinta-feira, Trump afirmou que conversaria com Lula. Até o momento relatado pela coluna, entretanto, a Casa Branca ainda não havia procurado oficialmente o Itamaraty para estabelecer contato entre os dois presidentes.
O governo brasileiro não descarta o diálogo: Lula está disposto a conversar caso a iniciativa parta do mandatário estadunidense. Flávio Bolsonaro é considerado “página virada”
Outro ponto definido pelo governo brasileiro é que a situação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que fugiu do país após as eleições, não deverá integrar a pauta de uma eventual conversa entre Lula e Trump. Um diplomata ouvido sob reserva pela reportagem classificou Flávio Bolsonaro como “página virada”, expressão que sintetiza a orientação de não conceder protagonismo político ao adversário derrotado nas urnas.
A avaliação do governo é que abordar o assunto em uma conversa presidencial poderia ampliar a repercussão das declarações e dos movimentos do senador, que não reconheceu o resultado das eleições de domingo. A decisão também se aplica à possibilidade de Trump mencionar o senador em um eventual contato com Lula.
A intenção brasileira é concentrar a interlocução nos assuntos de interesse dos dois países, sem transformar a situação do parlamentar em uma questão central da agenda diplomática. Ajuda de integrantes do governo Trump à fuga de Flávio Bolsonaro
A orientação do Planalto ocorre após a divulgação de informações sobre o envolvimento de integrantes do governo estadunidense na saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. De acordo com o jornal The New York Times, o senador recebeu auxílio de integrantes da administração Trump para deixar o território brasileiro.
A revelação acrescentou um componente diplomático à situação do parlamentar, mas não alterou a decisão do governo Lula de evitar manifestações públicas sobre o episódio. Comércio e tarifas continuarão na agenda bilateral
Apesar das divergências políticas e das informações sobre a participação de integrantes do governo Trump na saída de Flávio Bolsonaro, o governo brasileiro pretende preservar os canais de negociação com os Estados Unidos. A prioridade será manter uma relação pragmática, especialmente nas questões econômicas e comerciais.
Entre os temas considerados relevantes estão as negociações sobre tarifas aplicadas a produtos brasileiros e a continuidade das relações comerciais entre os dois países. A orientação indica que o Planalto pretende separar as controvérsias políticas dos interesses econômicos brasileiros, sem abrir mão de suas posições sobre a soberania nacional e o processo eleitoral.
Brasil 247