A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) decidiu transformar a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) em um dos principais temas de sua comunicação até o primeiro turno. O desgaste da Corte foi turbinado após o pedido de vista de Flávio Dino para interromper o julgamento sobre a abertura de uma investigação envolvendo Alexandre de Moraes.
O plano traçado pelo QG passa por intensificar a associação entre o ministro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, levar o embate com a Corte de forma recorrente ao horário eleitoral e ampliar a ofensiva contra Dino, que passou a ser tratado como um dos principais alvos ao lado de Moraes. Uma das frentes foi batizada de “Lula de Moraes”. A campanha prepara peças para fundir politicamente as imagens do presidente e do ministro e transformar a associação em uma marca de comunicação na reta final.
Outra formulação discutida é “Alexandre da Silva”. A ideia é explorar os dois nomes como slogans e recuperar declarações em que Lula defendeu a atuação do magistrado. A ofensiva nas redes já vinha sendo preparada antes do julgamento desta terça-feira, mas o resultado da sessão deu novos elementos ao QG.
A avaliação interna é que o pedido de vista de Dino, em vez de retirar o assunto da campanha, permite manter a crise em aberto até a eleição e sustentar uma cobrança sobre os ministros que impediram uma definição imediata sobre a investigação de Moraes. Dino passou a ocupar um lugar central nessa estratégia. A campanha decidiu aumentar o volume das críticas ao ministro e equipará-las às dirigidas há meses a Moraes.
Auxiliares avaliam que sua atuação na sessão, quando apresentou voto e depois pediu vista, permite explorar também sua passagem pelo governo Lula — Dino foi ministro da Justiça antes de ser indicado pelo presidente ao Supremo — para reforçar a ligação que o QG tenta estabelecer entre o Planalto e uma parcela da Corte. O novo tom começou a aparecer poucas horas depois do julgamento. — A tropa de choque do Lula no Supremo entrou em campo, em especial Flávio Dino, ex-ministro da “Injustiça” de Lula, que pediu vista depois de já ter lançado o próprio voto dele — afirmou Flávio durante agenda em Fortaleza. Aliados sustentam que os ministros que se posicionaram contra a abertura imediata de uma investigação atuaram para “blindar” Moraes e pretendem apresentar esse grupo como uma ala da Corte próxima a Lula. Trata-se da interpretação da campanha, contestada no Supremo.
Ministros que votaram nesse sentido argumentaram durante o julgamento que havia problemas jurídicos e processuais na forma como a apuração foi conduzida. O pedido de vista abriu ainda uma disputa sobre o calendário. Enquanto integrantes da Corte buscaram afastar uma decisão definitiva do período eleitoral, a campanha pretende fazer o movimento inverso e usar a ausência de um desfecho para manter o episódio no debate público durante as semanas restantes até a votação. Nesta quarta-feira, em Juazeiro do Norte (CE), ao comentar o resultado do julgamento, Flávio afirmou que “sem os ministros do Lula no Supremo, a democracia vive”. — Ninguém aguenta mais os ministros do Lula no Supremo melando o Brasil, atrapalhando o Brasil — disse. O coordenador da campanha, Rogério Marinho (PL-RN), também passou a reforçar essa associação. Na véspera da sessão, escreveu nas redes que “Lula é Moraes, Moraes é Lula” e citou episódios de aproximação entre os dois. Aliados de Flávio sustentam ainda que Lula teria uma “dívida” com uma parcela do Supremo pelas decisões que permitiram que o petista disputasse a eleição de 2022. O argumento recupera decisões tomadas pelo STF em 2021. Naquele ano, a Corte confirmou a anulação das condenações de Lula na Lava-Jato ao reconhecer a incompetência da Justiça Federal do Paraná para julgar os processos. Em outro julgamento, a Segunda Turma reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro no caso do triplex. As decisões devolveram ao petista seus direitos políticos. A aposta ocorre justamente quando Lula tenta se descolar da crise. Nesta quarta-feira, o presidente lembrou que Moraes foi indicado ao STF por Michel Temer, e não por ele. Ao mesmo tempo, defendeu a atuação do ministro nos processos relacionados aos atos golpistas de 8 de janeiro. STF entra no horário eleitoral A estratégia deixou de ficar restrita aos discursos e às redes sociais. Nesta terça-feira, a campanha dedicou os 4 minutos e 20 segundos de seu programa eleitoral a uma peça gravada em formato de pronunciamento, na qual Flávio afirmou que Lula dividiu seu poder com Moraes. — O atual governo criou um desequilíbrio institucional, decidiu governar ao lado de uma parte do Supremo Tribunal Federal que descumpriu a lei. O atual presidente dividiu o seu poder com o Alexandre de Moraes. E, no fim, o Brasil ficou sem presidente nenhum, sem comando — afirmou. O interesse pelo julgamento também apareceu nos canais da própria campanha. A TV Celular, canal de Flávio, alcançou 2 milhões de visualizações na transmissão da sessão do STF, a live mais assistida da história do canal. Bia Kicis (PL-DF), Carlos Portinho (PL-RJ) e Capitão Alberto Neto (PL-AM) participaram da cobertura com comentários. O desempenho é citado pelo QG como sinal da mobilização de seu público em torno do tema. A campanha pretende voltar ao assunto na propaganda eleitoral nas próximas semanas, embora não planeje dedicar todos os programas exclusivamente ao Supremo. Com a inclusão de Dino entre os principais alvos, a estratégia passa a apresentar Moraes e o ex-ministro da Justiça como integrantes de um mesmo campo ligado a Lula. Dino e Moraes na mira; Fachin e Gilmar preservados A ofensiva, porém, será seletiva. Enquanto Dino deverá receber críticas em intensidade semelhante às dirigidas a Moraes, auxiliares decidiram preservar Edson Fachin e Gilmar Mendes e orientaram Flávio a evitar ataques aos dois ministros. A intenção é manter interlocutores no Supremo enquanto o candidato explora eleitoralmente a crise. Esse movimento começou antes do julgamento. No início do mês, Marinho procurou Gilmar para discutir o ambiente no Supremo e sinalizar que a defesa do impeachment de Moraes não significava um rompimento com toda a Corte. A conversa ocorreu no gabinete do ministro no dia 2 de setembro. Agora, a campanha sonda novas conversas com integrantes do tribunal para a próxima semana, embora ainda não tenha audiências confirmadas.
O Globo