A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) interrompeu uma sequência de sete vitórias seguidas da direita e da extrema direita na América Latina nos últimos 18 meses. Com ela, Brasil e México, os dois países mais populosos da região, passam a formar o principal contrapeso à esquerda ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tenta ampliar sua influência no continente com tarifas, sanções e força militar.
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Uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) teria deixado a mexicana Claudia Sheinbaum como a única presidente deste campo entre as grandes economias latino-americanas. O quarto mandato do petista também complica os planos de Washington de atrair o Brasil para o Escudo das Américas, a coalizão de segurança e combate às drogas liderada pelo governo Trump, à qual Flávio prometia aderir “com grande entusiasmo e grande honra”, se eleito.
Nesta segunda-feira, a própria Sheinbaum celebrou o resultado. Ao entrar no salão da coletiva de imprensa diária, no Palácio Nacional, a presidente mexicana fez o "L", símbolo usado pelos apoiadores de Lula na campanha, antes de comentar a vitória do petista.
Claudia Sheinbaum, presidente do México CARL DE SOUZA / AFP
— Estamos felizes, muito contentes pela vitória de Lula no Brasil. Muitas felicidades ao presidente Lula e ao povo do Brasil.
É um sopro de esperança para a América Latina — disse. O cenário é bem diferente do de 2023, quando Lula assumiu o terceiro mandato e governos progressistas comandavam a Colômbia, com Gustavo Petro, a Argentina, com Alberto Fernández, o Chile, com Gabriel Boric, e a Bolívia, com Luis Arce.
Hoje, o Brasil está cercado de governos de direita, como os de Javier Milei, na Argentina, José Antonio Kast, no Chile, Keiko Fujimori, no Peru, e Abelardo de la Espriella, na Colômbia, todos mais à direita e alinhados a Trump. SÃO PAULO (SP) - 24/10/2026 - LULA ENCERRA CAMPANHA 2026 NA AVENIDA PAULISTA NESTE SÁBADO
Maria Isabel Pimenta — O México envia mais de 80% de suas exportações para os Estados Unidos.
Mesmo com um governo progressista, a relação se mantém. Já o Brasil, que tem uma política externa diferente, tem uma relação mais difícil com os EUA, principalmente com Trump no poder — afirma Juan Agulló, professor do Instituto Latino-Americano de Economia, Sociedade e Política da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).
Pressão de Washington A relação de Lula com Trump foi marcada por atritos.
Em 2025, o presidente americano impôs tarifas de 50% a produtos brasileiros e sancionou Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), para pressionar durante o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), depois condenado por tentativa de golpe. As medidas foram revertidas, mas, em maio deste ano, Trump recebeu Flávio no Salão Oval e, em julho, aplicou novas tarifas de 25%, atribuídas diretamente a Lula.
Na campanha, o petista transformou a pressão em discurso, apresentando Flávio como “o candidato de Trump” e repetindo o lema “o Brasil é dos brasileiros”. Donald Trump e Lula se reúnem em Kuala Lumpur, na Malásia, em outubro de 2025, em meio ao interesse dos EUA por minerais críticos brasileiros
Haiyun Jiang/New York Times Também nesta segunda-feira, Trump afirmou que a disputa “pareceu mais uma eleição fraudada”, mas disse gostar de Lula.
Para Agulló, a declaração foi “calculadamente ambígua” e deixa mais evidente o desafio da relação. Washington quer acesso às terras raras brasileiras para reduzir a dependência de sua indústria de defesa em relação à China, e Lula busca investimentos e alívio tarifário para os exportadores.
— Lula é pragmático o bastante para encontrar algum tipo de modus operandi com o governo Trump — disse à agência Associated Press Will Freeman, pesquisador do Council on Foreign Relations. Para Pedro Abramovay, vice-presidente global de programas da Open Society Foundations, a relação deve ficar estável.
— O Brasil, durante o governo Lula, mostrou sua independência dos EUA, que impuseram tarifas, mas isso não impactou tanto a economia brasileira. Os EUA não deixam de ser um parceiro importante.
A relação vai continuar a mesma. Não melhora, mas também não se agrava — avalia Abramovay.
Vizinhos à direita Na região, a maior parte dos governos de direita reconheceu a vitória de Lula e destacou temas de cooperação, como o combate ao crime organizado e o desmatamento na Amazônia.
A exceção foi a Argentina. Até o fechamento desta reportagem, o governo de Milei era o único da América do Sul a não ter se manifestado.
Durante a campanha, o argentino apoiou Flávio abertamente e chamou Lula de “ladrão corrupto”. Javier Milei e Flávio Bolsonaro em encontro em Buenos Aires
Reprodução A integração entre essas novas direitas, alinhadas a Trump, já afetou a relação com o Brasil.
Milei participou do lançamento da candidatura de Flávio, o que provocou uma crise diplomática com Brasília, sendo a Argentina o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás da China e dos EUA. No segundo turno, Lula passou a usar a Argentina de Milei como exemplo do que seria um governo de Flávio.
Abramovay não vê espaço para um sentimento de bloco na região contra a pressão americana, ao menos enquanto Milei, De la Espriella e Keiko estiverem no poder. — É difícil que exista um sentimento de unidade, de bloco, na América Latina.
Enquanto De la Espriella, Milei e Keiko estiverem no poder, não haverá unidade contra a pressão dos EUA. Pelo contrário, existe uma obediência cega desses países — disse.
— Tirando o Brasil, a tendência é que esses países se alinhem cada vez mais com os EUA, mas é preciso ver o efeito das eleições de meio de mandato, em novembro, que deve deixar Trump enfraquecido em alguma medida. Agulló relativiza a força dessa guinada.
Segundo ele, muitos dos novos líderes venceram por margem apertada, viram a popularidade cair logo depois da eleição e dependem da direita tradicional para governar, como os ex-presidentes Álvaro Uribe, na Colômbia, e Mauricio Macri, na Argentina. — Essa virada à direita tem nuances.
De la Espriella precisou de Uribe, Milei precisou de Macri, e Keiko precisou do apoio da direita tradicional peruana. É um giro relativo — diz.
No Chile, Kast vê a desaprovação passar de 60% depois de sete meses no cargo. Milei enfrentou recentemente o menor índice de aprovação desde o início do mandato.
Na Colômbia, De la Espriella, que assumiu em agosto, já aparece com a sociedade dividida ao meio em algumas pesquisas. No Peru, Keiko Fujimori tem avaliação negativa bem acima da positiva com apenas três meses de governo.
Para o professor, o caminho de Lula está na tradição da diplomacia brasileira: — O miolo da política externa brasileira é o multilateralismo.
Lula deveria explorar mais duas linhas institucionais, o Mercosul e o pacto amazônico, para articular com seus vizinhos.
O Globo