A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ocorreu apesar de uma queda proporcional do presidente nos municípios com a maior proporção de beneficiários do Bolsa Família em relação a 2022. Uma análise do GLOBO revela, porém, que, se o impacto eleitoral do programa parece ter chegado ao teto para Lula, ele também permitiu aliviar um dos problemas da campanha, a conexão com o eleitorado evangélico.
Foi nas cidades com alta cobertura do programa, mas com maior presença evangélica, que o percentual de votos do petista avançou. De 1989 a 2026: Veja como o mapa do Brasil mudou de cor nas eleições presidenciais
Do Nordeste ao Norte: Os estados nos quais a votação de Flávio Bolsonaro diminuiu entre o primeiro e o segundo turno Os dados revelam o papel central que o programa pode ter tido para reduzir a distância entre dois perfis municipais com desempenhos eleitorais distintos do PT: o de beneficiários de Bolsa Família, ligados a altos índices de votação para Lula, e o de evangélicos, associados a uma rejeição ao PT e à esquerda.
Em resumo, Lula continua tendo mais votos em lugares com muitos beneficiários do programa e poucos evangélicos, mas a diferença entre esses dois perfis de município diminuiu. Considerando as cidades com maior cobertura do Bolsa Família em cada estado, Lula recebeu 67,4% dos votos naqueles com menor presença de evangélicos e 52% naqueles com maior presença.
A diferença, de 15,4 pontos, foi de 18,1 pontos há quatro anos. Lula vai melhor em cidades que dependem do Bolsa Família e têm alta proporção de evangélicos.
O Globo A mudança não permite afirmar que Lula passou a receber mais votos dos eleitores evangélicos em si, mas sim que cidades com este perfil registraram o aumento.
Especialistas costumam afirmar que todos os eleitores estão sujeitos a pressões diferentes, isto é, raramente alguém vota movido apenas por sua religião ou pela economia, mas por uma série de fatores, de amigos próximos a nível de educação e influências familiares. Para a análise, o GLOBO dividiu os 5.570 municípios em quatro grupos, separados conforme a proporção de moradores beneficiários do Bolsa Família em setembro de 2023.
Um deles, com 1.393 cidades, reúne os municípios com alta cobertura. Na média desses locais, 55% dos moradores são beneficiários do auxílio.
Nesse grupo, Lula tem algumas de suas melhores votações e conseguiu passar de 70,91% para 72,68% dos votos entre os dois turnos. Na comparação com 2022, contudo, sua votação proporcional diminuiu: no segundo turno contra Jair Bolsonaro (PL), o petista havia recebido 74,49% dos votos.
O movimento ocorreu na contramão das cidades com menor adesão ao Bolsa Família, onde a votação de Lula passou de 41,61%, em 2022, para 42,51%. De Nova Iguaçu a Itaboraí
Já entre os municípios com maiores taxas de moradores beneficiários do Bolsa Família e alto número de fiéis evangélicos, Lula conseguiu avançar. Nesse grupo de cidades, Lula cresceu, em média, 2,15 pontos entre o 1º e o 2º turno e 0,5 ponto em relação a 2022.
Nas cidades mais dependentes do programa e com poucos evangélicos, o avanço foi mais modesto, de 1,22 ponto percentual entre um turno e outro, e houve queda de 2,3 pontos em relação a 2022. O aumento nos municípios com mais evangélicos foi puxado principalmente por cidades populosas da periferia do estado do Rio.
Em Nova Iguaçu, 40,2% dos moradores com dez anos ou mais se declararam evangélicos no Censo de 2022. Ao mesmo tempo, 33,3% da população aparece como beneficiária do Bolsa Família.
Na cidade, a margem de Lula melhorou 7,92 pontos percentuais em relação a 2022. Isso não foi o suficiente para Lula vencer, mas reduziu a vantagem que o PL teve.
Em Itaboraí, a diferença entre PL e PT caiu 7,45 pontos. Em Japeri, recuou 8,99 pontos.
Todas também estão entre os municípios de maior cobertura do Bolsa Família no Rio e de maior presença evangélica. Fenômeno parecido se repetiu em Itaquaquecetuba, na Região Metropolitana de São Paulo.
Lá, um a cada quatro são beneficiários do Bolsa Família e 37% dos moradores são evangélicos. Lula ampliou a margem em 3,18 pontos.
O resultado ocorreu em meio ao aumento do valor do Bolsa Família. Em 17 de setembro, a 17 dias do primeiro turno, o presidente Lula anunciou um reajuste de 15% no valor do auxílio, correspondente à inflação acumulada desde 2023.
Com a medida, o valor mínimo recebido por família passou para R$ 691. No segundo turno, o governo anterior antecipou o calendário dos pagamentos, previsto inicialmente para acabar no dia de outubro.
Nas novas datas, as 19,3 milhões de famílias atendidas receberam os valores reajustados até o dia 21 de outubro, a quatro dias da eleição. Na avaliação do cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, da FGV EAESP, os dados ajudam a explicar como ocorreu a virada do petista.
— Um dos grandes motores da campanha foi a chamada campanha do medo. Colocaram em questão que um benefício desta natureza, que é muito importante para milhões, poderia estar em risco com a eleição do Flávio Bolsonaro.
E esse discurso furou a bolha e atingiu também os evangélicos, apesar de os líderes religiosos terem apoiado o adversário — avalia. Presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles avalia que o benefício dificulta que a igreja transforme o beneficiário evangélico num antipetista raivoso:
— O evangélico beneficiário pode votar em Flávio por valores, mas não vota contra o Estado que o sustenta. É por isso que a distância nessas cidades diminuiu em vez de aumentar.
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