Derrotar os fascistas foi importante, mas mudar o Brasil junto com a classe trabalhadora deve seguir continuar a ser nossa agenda Assim como as derrotas, as vitórias também nos ensinam muito.
E a reeleição do presidente Lula no último domingo teve a marca inconteste das maiorias populares do País, que querem mais direitos e mais futuro. Foi o momento de maior mobilização popular da última década no Brasil, e isso faz da vitória eleitoral uma grande vitória política do campo progressista e das esquerdas contra o obscurantismo e a agenda antipovo do bolsonarismo.
Flávio Bolsonaro não foi só derrotado nas urnas, mas também e sobretudo nas ruas e nas redes sociais, num movimento de contra-ataque puxado pelo povo trabalhador e liderado pelas juventudes. Mas esse foi o retrato do segundo turno.
Antes disso, na primeira volta da eleição, a campanha de Lula foi a cara do seu terceiro governo: recuada, morna, sem propostas concretas para falar de futuro, comandada por cúpulas partidárias distantes da vida real do povo e mergulhadas na agenda da conciliação institucional, sem povo na rua e sem brilho nas redes.
Foi uma campanha distante da juventude, com cara de passado, quase uma ode à carreira política de Lula, enquanto na vida real as pessoas não tinham dinheiro para acabar o mês e esperavam ansiosas resoluções para a exploração diária que sofrem. O primeiro turno foi uma espécie de julgamento do governo Lula 3, e o resultado foi o que vimos.
Já o segundo turno foi outra coisa. A mudança nos rumos da campanha, com a guinada à esquerda nas propostas, a ofensiva sobre os Bolsonaro e a mobilização popular nas ruas e nas redes mudaram tudo.
A eleição passou a ser, no segundo turno, tamanha a capacidade que a campanha adquiriu para pautar o debate, sobre se os brasileiros queriam ou não que a família Bolsonaro definisse seu futuro, diante do projeto elitista contra as classes trabalhadoras que foi exposto e contraposto.
De cara podemos afirmar que a mobilização popular foi o principal motor para a virada da campanha e a acachapante vitória sobre o bolsonarismo. E isso é muito importante: não foram os acordos com o centro, com a direita, com governadores ou os gestos ao mercado que sedimentaram a viabilidade de Lula, mas, ao contrário, a adesão da campanha, ainda que parcial, a uma agenda popular de enfrentamentos a parte da elite e a perda de controle das elites partidárias sobre o processo de organização e mobilização do povo.
Antes e acima do domínio das redes ou de questões técnicas do uso do algoritmo capitaneadas com muita competência pelo deputado André Janones, vieram a guinada à esquerda do governo e sua aproximação de questões ligadas ao cotidiano real das maiorias populares, receosas de seu futuro num País que enfrenta ainda grande crise social.
Sem isso, a virada seria impossível. Destacamos quatro enfrentamentos bancados pela candidatura que reconectaram a campanha com o povo.
Em primeiro lugar o enfrentamento às bets, responsáveis pela maior parte do endividamento das famílias pobres do Brasil, parceiras do crime organizado e empresas dedicadas a drenar bilhões de reais para fora da economia real, ajudando a empobrecer nosso povo. Em segundo lugar, a conexão com a demanda popular histórica da redução da jornada de trabalho representada pelo fim da escala 6×1, cuja força se mostrou decisiva e poderia ter sido explorada desde o início do governo.
Em terceiro, o enfrentamento ao discurso fiscalista do mercado e o aumento do valor do Bolsa Família, corrigindo os efeitos nocivos da inflação sobre o benefício, e a proposta da Tarifa Zero aos finais de semana, ainda modesta, mas um aceno importante. Por fim, o perdão das dívidas dos MEI e a garantia por parte do Estado de sanear a condição financeira de milhões de trabalhadores precarizados.
Todos essas propostas, apresentadas na campanha como contraponto à agenda antipovo dos Bolsonaro, ajudaram a dar fôlego à reconexão da campanha com o povo. Mais uma vez ficou provado que o povo brasileiro é contra a agenda neoliberal de privatizações, corte de gastos e recuo do Estado em seu papel de garantir bem estar social.
Portanto, a adesão a um programa de conquistas sociais antiausteridade e a mobilização popular foram o carro-chefe da reação. Não adiantaria dominarmos os algoritmos se não falássemos com o descontentamento popular ou se não estivéssemos também nas ruas, todos os dias, falando com as pessoas e mostrando a força do povo e sua vontade de não aceitar ver o País destruído pelos bolsonaristas.
Antes de ganhar nas urnas, os vencemos nas ruas, onde eles foram obrigados a recuar, e essa foi a grande vitória política dessas eleições. Outro fator fundamental foi a retomada das questões de classe para o centro do debate político, o que desmascarou as intenções da extrema-direita e ajudou no diálogo com o povo.
Diferente de outras eleições, a campanha foi pautada pelo sofrimento material e psíquico a que as maiorias populares estão submetidas sob o capitalismo dependente brasileiro. O debate sobre a família e a vida dos trabalhadores se deslocou de consignas abstratas como “amor x ódio” ou “família tradicional x família moderna” ou ainda “fascistas x democratas” e se concentrou no direito de trabalhar menos e ter mais tempo de convivência; no direito a mais salário, a transporte gratuito para quem não consegue se deslocar nas cidades, sobre endividamento para quem vive em sofrimento psíquico como refém dos bancos e das bets.
Contrapomos tudo isso ao intento de abolição do salário mínimo, de aposentadorias, de permanência da escala 6×1 e outras pautas desumanas da extrema-direita. Recorrendo à agenda de classe, com todos os recortes devidos, voltamos a falar para as maiorias e tiramos o véu da agenda bolsonarista.
Destacar esses pontos é fundamental para não ler o segundo turno a partir de um fetichismo técnico, como se o presidente ter um celular, fazer vídeo selfie e ter mais presença direta nas redes fosse a solução de tudo. Ao final do primeiro turno, quando os estudantes de todo o Brasil saíram às ruas para defender a educação pública, as universidades, um projeto soberano de ciência e tecnologia e suas liberdades políticas, isso não foi feito por causa de convocação nas redes sociais ou uma brilhante estratégia de marketing mobilizadora.
Vale destacar também, que no “Exército do Lula” liderado por Janones, não tivemos convocação e agitação das manifestações, e mesmo assim, elas seguiram crescendo, se ampliando, se espalhando em cada canto do Brasil. Comunicação, seja por forma digital ou outros meios, comunica algo, e no caso da política, uma linha ou programa político.
Forma e conteúdo, já diria o velho Marx, são inseparáveis. Com mudança no programa, volta das mobilizações de rua e essa ofensiva inédita nas redes nós conseguimos uma virada épica contra os fascistas.
E vejam: nada diferente do que vimos defendendo há anos, sobre a necessidade de superarmos a estratégia de conciliação e negociação em gabinetes fechados pela incorporação da mobilização popular como método para a governabilidade e disputa por hegemonia. Nada distinto também do que defendemos sobre a necessária mudança na agenda econômica, abrindo mão da austeridade e de acenos ao mercado e pondo no centro do debate propostas populares que exigem maior capacidade de financiamento do estado.
Tudo isso articulado com novas formas de comunicação e mobilização também pelas redes sociais. Porém, já há sinais de que essa mudança pode ser freada pelos menos grupos que buscaram isolar o bolsonarismo ao longo de todo o governo Lula 3 apostando na submissão ao mercado financeiro representada pelo arcabouço fiscal ou novo teto de gastos.
Essa estratégia não conteve o avanço do bolsonarismo nem amansou a insaciável sanha do mercado por mais apropriação do orçamento público em detrimento do povo. Os derrotados no primeiro turno buscam agora reavivar sua agenda no governo Lula 3.
O ministro da Fazendo, Dario Durigan, já fala em responsabilidade fiscal nos mesmos moldes dos austericidas e porta-vozes de alas do governo insistem na importância de acalmar o mercado propondo mais superávit, o que significa mais arrocho no orçamento público para as maiorias populares.
Essas forças precisam ser derrotadas. E se não forem, ou seja, se o governo seguir aderindo à agenda derrotada, as esquerdas não devem ter nenhum compromisso com a defesa de mais uma tentativa de suicídio político.
Mais do que o governo Lula 3, fundado por uma guinada ao centro durante a campanha, o governo Lula 4 está em disputa porque sua vitória foi garantida pelo povo nas ruas e por novas gerações ávidas por direitos e por um futuro digno, por um País realmente soberano, capaz de desenvolver sua indústria, sua tecnologia, garantir bem estar social e uma democracia substancial, onde as classes trabalhadoras sejam protagonistas na política e na economia.
É preciso seguir falando com essa agenda, seguir conectada a essas urgências e combater qualquer tentativa de protagonismo da agenda de austeridade, que já se mostrou incapaz de garantir qualquer vitória, seja eleitoral ou política, ao campo progressista brasileiro. Mais que disputar o governo, precisamos disputar os rumos da estratégia política da esquerda.
Se o lulismo insistir na conciliação no programa e na negociação institucional como tática política, será rapidamente atropelado pela nova conjuntura. Precisamos defender a mobilização popular e a pressão de fora para dentro das instituições como estratégia política e num outro programa econômico, capaz de superar a austeridade fiscal.
A Presidência da República ganhou novo vigor frente ao Congresso após a vitória política do segundo turno e precisa ser um instrumento de convocação do povo às ruas, seja por plebiscitos, por pronunciamentos em cadeia nacional de rede e Tv ou outros instrumentos. No Congresso, iniciativas como a bancada da esquerda radical serão fundamentais para fazer a disputa ideológica dentro das instituições e para agitar as maiorias a pressiona-las a partir de fora, buscando apoio popular para enfrentamentos fundamentais à agenda de mudanças urgentes e inadiáveis no Brasil, como o fim da independência do Banco Central, o fim da extorsão dos bancos no mercado de crédito, a tarifa zero, a contenção no preço de aluguéis, o aumento de investimento do estado em tecnologia e num novo programa de industrialização, um nova e mais robusta política de valorização do salário mínimo, um novo currículo militar e outros temas que deverão ser objeto de disputa nos próximos anos.
Não é hora de recuar. É momento de não deixar a temperatura esfriar.
Devemos aproveitar a volta das mobilizações e da verve popular para organizar um novo ciclo de conquistas populares, de organização política e de construção de um programa de reformas estruturais no País. Derrotar os fascistas foi importante, mas mudar o Brasil junto com a classe trabalhadora deve seguir sendo nossa agenda.
Que seja também a agenda do governo e que não tenhamos qualquer compromisso com recuos ou hesitações. As novas gerações têm fome de futuro e a nova esquerda que subiu no palco nessas eleições chegou para ficar.
Não seremos coadjuvantes. Precisamos ser protagonistas das transformações profundas do Brasil.
Para derrotar de forma definitiva a extrema-direita e criar esperança, precisamos de ousadia e compreensão estratégica dos nossos desafios. Precisamos de uma agenda política que represente as Novas Reformas de Base para criar as avenidas históricas da Revolução Brasileira! E o povo está do nosso lado!
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital. Jones Manoel Historiador, educador popular, doutorando em serviço social pela UFAL e deputado federal eleito pelo PSOL Pernambuco
Pedro Alcântara Professor, doutor em ciências sociais pela UFRN e vice presidente do PT Pernambuco Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo.
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