Leonardo Sbaraglia vive alter ego de Pedro Almodóvar em novo filme do cineasta espanhol

 

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Em "Natal amargo", filme de Pedro Almodóvar em competição no Festival de Cannes, o argentino Leonardo Sbaraglia interpreta um cineasta com problemas de inspiração, em um retrato pouco amável do veterano diretor espanhol.

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Sbaraglia se diz encantado por ter encarnado Raúl Durán, um famoso diretor de cinema que, para compensar a falta de boas ideias, se alimenta dos problemas de seus amigos para escrever seus roteiros.

"A primeira coisa que [Almodóvar] me disse quando me ofereceu o papel foi: 'não quero um retrato amável'", lembra o ator de cabelos grisalhos encaracolados, em entrevista à AFP em Cannes.

"Ele queria se ver como uma espécie de [...] vampirizador", como um personagem o acusa no filme, explica o ator de 55 anos.

Para Sbaraglia, o dilema é saber se vale a pena se aproveitar das experiências dos amigos, e às vezes sacrificar essas relações, para fazer uma obra de arte que possa ter um impacto maior.

"Estou pegando algo da vida e do meu entorno ou da vida de alguém muito querido e levando isso para inspirar o coração de milhões de pessoas" no cinema, afirma o ator, explicando como vê esse dilema.

Em sua opinião, é evidente que os 24 filmes de Almodóvar contribuíram para "inspirar, revolucionar, dar coragem a grupos marginalizados". Com seu cinema, "ajudou muito para que o mundo, de maneira muito concreta, tivesse uma voz e uma coragem".

'Exigência'

Esta é a segunda vez que Sbaraglia filma com o cineasta espanhol. Na colaboração anterior, em "Dor e glória" (2019), também um filme introspectivo sobre seu trabalho de diretor, o ator argentino interpretava um amante do protagonista. Agora, o ator de "Relatos selvagens" foi mais longe e encarna o próprio diretor.

"Foi uma experiência muito exigente, muito demandante e, ao mesmo tempo, arrebatadora", explica.

"É um homem arrebatador, um homem com convicções profundas e com uma espécie de consistência criativa tremenda", diz Sbaraglia sobre Almodóvar. "Sinto sempre como se fosse um Dalí, um Picasso que está tecendo, pintando, construindo cores, construindo mundos".

"A gente é como se fosse mais uma peça dentro de um grande mosaico", prossegue, e "é muito interessante fazer parte de seu mundo".

Em "Natal amargo", Sbaraglia divide o elenco com Bárbara Lennie, que interpreta uma das personagens fictícias da história que Raúl Durán está escrevendo, e com Aitana Sánchez-Gijón, a assistente do diretor.

Na filmagem, "a maior dificuldade foi a própria exigência", diz Sbaraglia, porque, quando Almodóvar "te diz quero que você faça isto... o primeiro inimigo é você mesmo".

O ator saboreia um ano excepcional de trabalho. Além de "Natal amargo", também está em Cannes com outro filme, "Karma", no qual interpreta o companheiro da francesa Marion Cotillard.

Talvez seja um momento de boa fase que possa levar a uma nova colaboração com o autor de "Tudo sobre minha mãe" e "Volver". Questionado se já se sente um 'garoto Almodóvar', responde entre risadas: "Não sei, com uma terceira talvez".