247 – O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, sinalizou que seu partido poderá estabelecer uma relação mais profunda com o quarto governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, desde que o Executivo adote medidas econômicas capazes de transmitir confiança, tranquilidade e equilíbrio fiscal.
Kassab confirmou que já houve contatos por parte do governo e indicou disposição para ampliar o diálogo político. As declarações foram dadas em entrevista à newsletter Jogo Político, conduzida pelo jornalista Thiago Prado, do jornal O Globo.
“O governo já nos procurou desta vez, sim”, afirmou o dirigente, ao comentar as articulações políticas após a reeleição de Lula. Kassab defendeu que o presidente amplie sua interlocução com setores de centro, sem abandonar os compromissos sociais assumidos durante a campanha.
Para ele, a construção de uma base política mais ampla dependerá tanto da postura do governo quanto de suas primeiras decisões na área econômica. O presidente do PSD destacou que medidas voltadas à estabilidade das contas públicas poderão facilitar a aproximação.
“Se medidas econômicas forem adotadas, estaremos mais próximos, sim. Aí poderemos ter uma relação mais profunda”, declarou.
O posicionamento ganha relevância no momento em que Lula inicia as articulações para seu quarto mandato e busca construir condições de governabilidade no Congresso Nacional. O PSD participou do governo anterior com três ministérios, embora Kassab evitasse classificar formalmente a legenda como integrante da base governista.
Diferentemente de União Brasil, PP, Republicanos e MDB, que declararam apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno, o PSD manteve posição de neutralidade. A decisão preservou canais de diálogo com o governo e abriu espaço para uma possível recomposição política após as eleições.
Kassab ressaltou, entretanto, que o PSD reúne lideranças estaduais com diferentes orientações e que uma aproximação mais consistente exigirá sinais concretos do Palácio do Planalto. Questionado sobre a possibilidade de assumir um ministério, o dirigente afirmou que não trabalha atualmente com essa perspectiva, mas também não fechou as portas.
“Não está no meu horizonte, já fui de duas pastas. Mas é claro que é muito honroso ser e não descarto voltar mais uma vez.”
Kassab diz que escolha de Flávio Bolsonaro favoreceu Lula Na entrevista, Kassab também apresentou sua avaliação sobre a vitória de Lula na eleição presidencial.
Segundo ele, a decisão da direita de lançar Flávio Bolsonaro acabou dividindo o eleitorado de centro e favorecendo a candidatura petista. “Na hora que optaram pelo Flávio na direita, dividiram o centro com o Lula”, afirmou.
O presidente do PSD avaliou que o candidato derrotado perdeu apoio ao longo da campanha, especialmente por suas posições sobre mudanças constitucionais e pelo comportamento nos debates presidenciais. Flávio “acabou assustando falando em mexer na Constituição”, disse Kassab, acrescentando que parte dos eleitores rejeitou “o linguajar e a falta de postura nos debates”.
O dirigente reconheceu que a campanha de Lula soube explorar as fragilidades do adversário e mobilizar o receio de um retorno do bolsonarismo ao poder. Também destacou a importância das manifestações espontâneas de apoio ao presidente e da comunicação nas plataformas digitais.
Para Kassab, a polarização política continua intensa, e tanto Lula quanto Flávio chegaram ao segundo turno impulsionados, em grande medida, pela rejeição ao campo adversário. Sobre as eleições de 2030, o dirigente afirmou não acreditar que a direita volte a apresentar um integrante da família Bolsonaro como candidato presidencial.
Reconheceu, contudo, que Jair Bolsonaro ainda deverá exercer influência sobre a escolha de um nome competitivo. Kassab também mencionou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, como possível candidato, mas ressaltou que suas perspectivas dependerão do desempenho à frente do governo estadual.
PSD elege cinco governadores, mas perde espaço no Congresso Kassab fez ainda um balanço do desempenho eleitoral de seu partido.
O PSD conquistou cinco governos estaduais, incluindo a reeleição de Raquel Lyra em Pernambuco, mas sofreu derrotas em disputas importantes no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, no Paraná e no Rio Grande do Sul. No Congresso Nacional, a legenda registrou uma redução de sua representação, passando de 13 para cinco senadores e de 48 para 43 deputados federais.
Ao comentar a eleição no Rio de Janeiro, Kassab contestou o resultado e afirmou que o partido recorreu ao Supremo Tribunal Federal contra uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral. “Temos esse direito e queremos o segundo turno no Rio”, declarou.
Ele rejeitou a interpretação de que o recurso represente uma tentativa de alterar judicialmente o resultado eleitoral, argumentando que o partido busca corrigir o que considera uma injustiça. Em Minas Gerais, atribuiu a derrota de Mateus Simões à dificuldade de formar uma coalizão partidária ampla.
Sobre Paraná e Rio Grande do Sul, observou que a transferência de votos entre lideranças políticas deixou de ser automática e que a definição tardia de candidaturas pode comprometer o desempenho eleitoral. Kassab também fez elogios à governadora pernambucana Raquel Lyra, a quem apontou como uma liderança nacional em ascensão.
“Se uma mulher for presidente nos próximos dez anos, será ela”, afirmou. Por fim, ao abordar a possibilidade de anistia a Jair Bolsonaro, Kassab declarou que o PSD ainda não definiu uma posição partidária, mas considera pessoalmente legítima a discussão.
“Um vencedor poder estender a mão, sempre ajuda”, disse. As declarações indicam que o PSD pretende preservar sua autonomia política, mas poderá participar de uma base mais ampla de sustentação ao governo Lula, especialmente se o presidente combinar a manutenção das políticas sociais com iniciativas de equilíbrio fiscal e diálogo com o centro.
Brasil 247