Juventude de Sherlock Holmes é tema de série estrelada por Hero Fiennes Tiffin: 'Adoraria ver como ele usaria hoje o ChatGPT'

 

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Hero Fiennes Tiffin não perde um segundo quando o repórter revela ser brasileiro. Antes da entrevista começar, o sobrinho dos atores Ralph e Joseph Fiennes, filho dos diretores Martha e George Tiffin, implora por notícias do São Paulo Futebol Clube, "meu time lá".

— As coisas melhoraram, concorda? — pergunta.

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A paixão futebolística à distância, conta, já dura sete anos. Em 2019, descobriu o SPFC quando viajou à capital paulista para divulgar o primeiro filme de "After", em que dá vida ao galã tatuado Hardin. Em seu dia de folga, viu um jogo no Morumbi e foi amor ao primeiro gol. Os cinco longas-metragens da franquia adolescente não foram unanimidade entre a crítica. Mas seus olhos azuis, o 1,88 m de altura, o sorriso largo, a disposição para aparecer repetidamente sem camisa nos cartazes promocionais e a visita ao Brasil multiplicaram seus fãs no país.

Aos 28 anos, o mais britânico dos são-paulinos é a grande aposta de “Jovem Sherlock”, série produzida e dirigida por Guy Ritchie, que tem seus divertidos oito episódios à disposição da enorme torcida do mais famoso detetive da ficção no cardápio do Prime Video a partir desta quarta-feira (4).

Na nova série, Fiennes vive o personagem criado por Sir Arthur Conan Doyle em 1887, mas bem antes dos dias de glória em Baker Street e de seu encontro com um certo Dr. Watson. Inspirado na coleção de oito livros best-seller do inglês Andrew Lane, quatro deles traduzidos no Brasil pela Intrínseca (todos esgotados), "Jovem Sherlock" transporta o espectador à imponente Oxford da década de 1870. Lá, a câmera nervosa de Guy Ritchie registra o imaginado primeiro caso resolvido por um Holmes já excêntrico e arrogante, mas menos frio do que o célebre investigador. Em uma molecagem arriscada, mas que se prova acertada, seu parceiro de deduções e sacadas brilhantes é um mancebo James Moriarty, nêmesis do herói no futuro, vivido por Dónal Finn.

— Conan Doyle jamais tratou da juventude de Sherlock e de Moriarty, e fazê-los “parceiros no crime” até que algo se quebre para sempre se mostrou tão natural como certeiro — diz ao GLOBO o showrunner e roteirista da série, Matthew Parkhill.

Dónal Finn e Hero Fiennes Tiffin em cena de 'Jovem Sherlock'

Dan Smith/Prime

Em pouco menos de um século e meio de existência, Holmes teima em não sair de cena. Com maior ou menor sucesso, apropriações do personagem se multiplicaram na literatura — com direito a viagem ao Rio de Janeiro dos tempos do imperador Pedro II para resolver o desaparecimento de um violino Stradivarius, em “O Xangô de Baker Street”, best-seller de Jô Soares depois adaptado para a tela grande — no teatro, no rádio, em podcasts e no audiovisual. Foi encarnado, entre muitos outros, por Benedict Cumberbatch, Christopher Lee, Michael Caine, Ian McKellen, Christopher Plummer, Rupert Everett, Joaquim de Almeida, Peter O’ Toole e, claro, Robert Downey Jr., — neste caso, pelas mãos do mesmo Guy Ritchie, em duas produções: “Sherlock Holmes”, em 2010, e “O jogo de sombras” (2012), sempre com Jude Law como seu Watson.

— Quando rascunhamos o que seria “Jovem Sherlock”, uma das primeiras certezas foi a de que o nosso não seria a versão no passado da que Robert criou. Não há ligação direta entre eles nem compromisso com o estilo de atuação — diz Parkhill.

Humor ácido e diálogos velozes

A assinatura do diretor de “Snatch: porcos e diamantes”, no entanto, é nítida nas cenas de luta, no humor ácido, nos diálogos velozes e nos efeitos de edição para, por exemplo, colocar o espectador dentro da mente privilegiada de Holmes e mostrar como ela funciona na resolução dos crimes.

— Começamos a pensar nesse projeto há cinco anos e esse retorno foi uma jornada prazerosa, sem exceção — jurou o ex-marido de Madonna, montado em um terno de veludo bordô na premiére da série, com a projeção dos episódios que dirigiu, em noite de gala semana passada no Queen Elizabeth Hall, no South Bank londrino.

A decisão de se escarafunchar o uso rigoroso da ciência e o exercício constante da dedução lógica e de uma impressionante capacidade de observação imprimem em “Jovem Sherlock” relevância singular em momento histórico guiado pela presença inescapável da inteligência artificial.

— Depois de ter feito a série, algo que eu adoraria ver é de que modo Sherlock e Moriarty usariam, nos dias de hoje, o ChatGPT e afins — diz Hero Fiennes Tiffin.

Dónal Finn brinca que, a depender das temporadas, quem sabe “Jovem Sherlock” não faça uma citação ao avanço das máquinas no futuro:

— É algo importante de se pensar agora, especialmente do ponto de vista da maravilha da mente humana e de suas especificidades, tateando de que modo devemos delegar nossas habilidades às máquinas.

Na série, também são brilhantes, cada qual a seu modo, as cabeças de Mycroft Holmes, da princesa chinesa Shou’an e da estrela de Oxford, Bucephalus Hodge. O primeiro, que aparece em alguns poucos livros de Conan Doyle, vivido em “Jovem Sherlock” por Max Irons, filho do vencedor do Oscar Jeremy, acentua a característica de ovelha negra da família do irmão mais novo, tirando-o de encrencas a partir de sua posição de influência na diplomacia britânica. A segunda, papel da taiwanesa Zine Tseng, não é quem parece ser, e será central em um enredo que inclui vingança, assassinatos em série e até um olhar crítico ao colonialismo. O acadêmico Hodge, por sua vez, é o aristocrata que traduz conhecimento por autoridade tal qual imaginado por Colin Firth, em participação especial.

A segunda metade da primeira temporada mergulha em uma tragédia familiar que marcará Holmes e determinará algumas de suas características futuras mais perceptíveis. Seu pai, Silas, é vivido por Joseph Fiennes, o bardo em “Shakespeare apaixonado”. É a primeira vez que sobrinho e tio trabalham no mesmo projeto. O efeito foi resumido por Hero Fiennes sem dourar a pílula. Na primeira cena, contou, “me retraí e voltei a ser o menino que fui um dia”.

Altinha no Rio

O menino que queria ser craque da bola deixou o sonho para trás cedo, aos 11 anos, ao viver no cinema, após passar por uma infinidade de testes, o jovem Tom Riddle, em “Harry Potter e o enigma do príncipe”. Três vezes indicado ao Oscar, seu outro tio, Ralph, vivia o personagem adulto, o já maduro Lorde Voldemort. Quase duas décadas depois, se mostra escolado para eventuais dedos apontados ao nepobaby. O trabalho de Hero anterior a “Jovem Sherlock” foi com o mesmo Guy Ritchie no mais recente longa do diretor, “Guerra sem regras” (2024). Ainda assim, ele passou por mais um batalhão de audições até assegurar o protagonista.

— A disputa foi com atores muito talentosos. Mas quando o vimos na pele de Sherlock Holmes, olhamos um para o outro, eu e Ritchie, com a certeza muda de que tinha de ser ele — afirma Parkhill.

À revista inglesa Radio Times, Hero Fiennes afirmou entender os questionamentos e é o primeiro a admitir que o sobrenome famoso e a ajuda dos pais e dos tios influenciaram. Mas frisa:

— Não farei uma tatuagem de nepobaby. Entendo a sorte que tive, mas, a essa altura, já provei que mereço estar onde estou pela qualidade do meu trabalho.

Em “Guerra sem regras”, Hero trabalhou com Henry Cavill, o Sherlock da série “Enola Holmes” (Netflix), centrada na irmã bem mais nova do investigador, vivida por Millie Bobby Brown. Na gala de “Jovem Sherlock”, o sobrinho de Ralph e Joseph revelou que um conselho dado por Cavill o ajudou a se preparar para o personagem. O Super-Homem se limitou a revisitar a máxima do filósofo Sêneca: “Aquele que se preocupa antes do necessário se preocupa mais do que o necessário.”

O antídoto à ansiedade, brinca o jovem ator, pode ser levado para os campos de futebol. Tanto para o seu São Paulo quanto à seleção brasileira que disputará a Copa do Mundo em pouco mais de cem dias.

— Queria tanto voltar ao Brasil. E dessa vez ir ao Rio, jogar uma altinha na praia o dia todo, por mais difícil que deva ser manter o nível com a habilidade de vocês, e tomar uma caipirinha depois. Amo a seleção brasileira também, mas, sobre a Copa, não é preciso ter a mente brilhante de Sherlock para saber que este ano vai ser difícil. Sendo honesto e direto como ele, França, Espanha e Inglaterra são meus três favoritos no momento — diz.

Eduardo Graça viajou a convite do Prime Video