Um tribunal de Helsinque condenou nesta quinta-feira, 5 de novembro de 2026, o capitão russo do cargueiro Fitburg a três anos e seis meses de prisão por danificar dois cabos de telecomunicações submarinos no golfo da Finlândia. Um contramestre azerbaijano do mesmo navio recebeu pena de dois anos e dez meses.
Os dois foram considerados culpados de dano criminal agravado pela Corte Distrital de Helsinque. Segundo a decisão, os condenados arrastaram intencionalmente a âncora do navio pelo fundo do mar por cerca de 130 quilômetros.
A corte determinou ainda que os dois paguem de forma solidária aproximadamente 1,9 milhão de euros em indenização, o equivalente a 11,5 milhões de reais na conversão do dia, com acréscimo de cerca de 85 mil euros pagos pelo capitão. A agência estatal russa TASS confirmou a sentença e detalhou o conteúdo do veredicto, ao qual teve acesso.
O documento indica que a decisão não é definitiva e pode ainda ser recursada. Os documentos judiciais registrados pela TASS mostram que a promotoria não alegou que o capitão deu ordem direta para baixar a âncora, nem que o contramestre participou ativamente da manobra.
A corte concluiu, ainda assim, que os dois sabiam que a âncora estava baixada enquanto o navio navegava. Os réus negaram qualquer irregularidade e questionaram a jurisdição da Finlândia sobre o caso.
A sentença ainda cabe recurso, e a defesa já havia impugnado a competência do tribunal desde a fase inicial. O Fitburg foi detido pela guarda costeira finlandesa em 31 de dezembro de 2025, suspeito de danificar um cabo de telecomunicações da empresa Elisa que conecta Helsinque a Tallinn, na Estônia.
A polícia finlandesa classificou o episódio como crime e informou que o trecho danificado fica dentro da zona econômica exclusiva da Estônia. No momento do incidente, o navio navegava de São Petersburgo, na Rússia, rumo ao porto de Haifa, em Israel, com 14 tripulantes a bordo.
Segundo a polícia finlandesa, o cargueiro arrastava a âncora há horas quando foi descoberto. A tripulação só içou a âncora após receber notificação das autoridades finlandesas.
Os investigadores estabeleceram que o Fitburg deixou São Petersburgo e atravessou o golfo da Finlândia por várias horas fora das águas territoriais finlandesas com a âncora baixada. O trajeto danificou dois cabos submarinos e colocou em risco outros cabos de comunicação, cabos de energia e um gasoduto na região.
O navio foi liberado da detenção em janeiro de 2026 e está registrado em São Vicente e Granadinas, jurisdição de bandeira de conveniência. A embarcação segue sob investigação da parte civil do processo de indenização.
O caso integra uma série de incidentes com cabos e dutos submarinos no mar Báltico desde a invasão russa em larga escala da Ucrânia, em 2022. A Finlândia reforçou a proteção de sua infraestrutura submarina após a sequência de rompamentos atribuídos a navios suspeitos de operar para interesses russos.
Governos ocidentais descrevem parte dessas embarcações como integrantes da chamada frota-sombra, navios de idade avançada, bandeiras de terceiros países e proprietários opacos usados para escoar petróleo russo contornando sanções. O rótulo é contestado por Moscou, que nega envolvimento do Estado nos rompamentos de cabos.
O veredicto de Helsinque é o primeiro da série a resultar em condenação judicial consolidada por sabotagem de cabo no Báltico. A decisão não estabeleceu responsabilidade do governo russo, e o enquadramento ficou restrito aos dois tripulantes condenados.
As autoridades finlandesas trataram o episódio como crime comum de dano agravado, e não como ato de guerra. A leitura russa registrada pela TASS destaca que a promotoria reconheceu não haver prova de ordem direta do capitão, o que mostra os limites do que a instrução conseguiu demonstrar.
Os dois condenados cumprem a medida em regime finlandês enquanto correm os recursos. O capitão responderá os três anos e seis meses iniciais da pena, e o contramestre os dois anos e dez meses, além da dívida solidária de indenização fixada pela corte.
A decisão agora segue para a instância recursal finlandesa, onde a defesa insistirá na tese de falta de jurisdição e de ausência de dolo na manobra da âncora.
Cafezinho