Justiça argentina inicia julgamento sobre implosão de submarino que matou 44 marinheiros em 2017; relembre o caso

 

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A Justiça argentina abre nesta terça-feira o primeiro julgamento relacionado ao afundamento do submarino ARA San Juan, que implodiu submerso em 2017 com 44 tripulantes a bordo. Até hoje, não foi possível esclarecer de forma conclusiva como ocorreu a tragédia — a maior da Marinha argentina em tempos de paz.

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Os destroços do submarino foram localizados um ano após o desaparecimento. Permanecem a mais de 900 metros de profundidade, a cerca de 500 quilômetros da costa da província de Santa Cruz. A capital, Río Gallegos, sediará o julgamento.

A embarcação havia partido sete dias antes de seu desaparecimento do porto de Ushuaia e retornava à base em Mar del Plata. Em 15 de novembro de 2017, comunicou uma falha elétrica e um princípio de incêndio. Foi o último contato.

As operações de busca mobilizaram dezenas de países e mantiveram sob pressão a sociedade argentina e o governo do então presidente Mauricio Macri.

'Os ninguém'

Nenhum familiar das vítimas — 43 homens e uma mulher — deve comparecer ao julgamento.

— Eles não conseguem nem pagar as fotocópias, quanto mais uma passagem aérea e hospedagem. O mais importante é ter chegado ao julgamento — afirmou à AFP a advogada Valeria Carreras, que representa 34 famílias.

Justiça argentina inicia julgamento sobre implosão de submarino que matou 44 marinheiros em 2017

Reprodução

— São pessoas sem poder, dinheiro nem sobrenome influente; sentiram-se os ‘ninguém’ nestes oito anos, por isso há muita expectativa. A visibilidade é importante para que o esquecimento e o tempo não sejam cúmplices da impunidade — acrescentou.

As penas previstas — de um a cinco anos de prisão — contrastam com a dimensão da tragédia. As acusações envolvem suspeitas de falhas administrativas, de manutenção e de segurança.

— Foi uma tragédia evitável, mas é malvisto na Marinha dizer ‘tenho medo’, ‘há riscos’; existe uma cultura de silêncio — afirmou Carreras.

Segundo ela, a instituição “foi a força de maior hermetismo durante a ditadura” (1976-1983).

Os réus respondem por descumprimento e omissão de deveres e por desastre culposo agravado. Eles aguardam o julgamento em liberdade. São eles: o ex-chefe do Comando de Adestramento, Luis López Mazzeo; o ex-comandante da Força de Submarinos, Claudio Villamide; o ex-chefe do Estado-Maior do Comando de Submarinos, Héctor Alonso; e o ex-chefe de Operações, Hugo Correa.

Em 2021, um Conselho de Guerra destituiu Villamide por negligência e aplicou prisão disciplinar de até 45 dias a outros oficiais por ocultação de informações.

'Invisibilizar'

A Justiça rejeitou pedido do advogado Luis Tagliapietra — pai de Alejandro, morto no submarino aos 27 anos — para que o julgamento fosse realizado em Mar del Plata, onde viviam os tripulantes.

Na cidade, familiares realizaram protestos em frente a prédios da Marinha durante as buscas e após a confirmação da localização dos destroços.

Os parentes também denunciaram terem sido alvo de espionagem. Em investigação paralela, Mauricio Macri chegou a ser indiciado, mas o caso foi arquivado pela Suprema Corte argentina em 2025.

— Levando o debate para Río Gallegos, tão distante de Buenos Aires, buscam invisibilizar a tragédia — afirmou Tagliapietra, que representa cerca de vinte familiares.

A realização do julgamento em Río Gallegos foi determinada pela Câmara Federal de Cassação Penal.

— Este é o primeiro processo; ainda não terminou a investigação sobre os demais responsáveis na linha de comando que chega até Macri — declarou o advogado, ao mencionar que ainda precisam ser analisadas “67 mil fotografias e horas de vídeo”.

Carreras, por sua vez, afirmou confiar que mais de 90 testemunhas apresentem provas nesta fase. Na etapa de instrução, disse, “a muitos falhou a memória; agora isso pode mudar”.

O julgamento

As audiências ocorrerão em blocos de quatro dias consecutivos, com intervalo de uma semana entre cada etapa.

A principal hipótese é que uma falha em válvula tenha permitido a entrada de água no compartimento de baterias, provocando um incêndio seguido de explosão. Para confirmar essa tese, seria necessária a reflutuação dos destroços — uma operação considerada milionária.

“É muito difícil condenar alguém por um crime quando não se sabe realmente o que aconteceu. O julgamento pode terminar em absolvição”, afirmou Tagliapietra.

“Houve muitas falhas antes do afundamento; os comandos em terra não tomaram decisões adequadas, mas ainda não sabemos por que afundou”, disse. “Há resignação entre os familiares. Eu continuo lutando; é a promessa que fiz ao meu filho.”