Jovens que viralizaram na infância com vídeos de dança no início do YouTube chegam à vida adulta
Houve um momento na década de 2010 em que jovens dançarinos talentosos pareciam dominar a internet. Muitos desses prodígios nasceram mais ou menos na mesma época em que foi criado o YouTube (2005) e cresceram em paralelo com o Instagram (lançado em 2010). Mundo jovem impulsionado pela imagem em movimento, as redes sociais revelaram ser o ambiente natural para que eles demonstrassem suas habilidades extraordinárias em todos os estilos de dança. Vídeos de crianças talentosas arrasando em coreografias de competição e dando aulas de hip-hop a adultos alcançaram milhões de visualizações on-line.
Não demorou muito para que o mundo tradicional do entretenimento aproveitasse essa energia. O reality show "Dance Moms" ajudou a tornar famosas jovens estrelas familiarizadas com a internet, incluindo Maddie Ziegler e Sophia Lucia. O programa de TV "So You Think You Can Dance" dedicou uma temporada inteira a dançarinos de oito a 13 anos. Crianças carismáticas dançavam no palco do "The Ellen DeGeneres Show" — gerando clipes que, em pouco tempo, se tornavam virais.
Naquela época, as redes sociais se transformaram em um novo tipo de plataforma de divulgação para jovens artistas. "Durante muito tempo, o vaudeville foi um celeiro nacional de crianças talentosas, e depois veio o Clube do Mickey Mouse. Eram campos de treinamento para astros e estrelas em ascensão", disse Pamela Krayenbuhl, professora de cinema e estudos de mídia na Universidade de Washington em Tacoma, em uma videoentrevista.
Plataformas como o YouTube e o Instagram, porém, ofereciam uma promessa mais ampla: era nelas que qualquer jovem dançarino com um smartphone poderia ser descoberto, sem passar pelo triturador de uma grande máquina comercial. Assistir a esses dançarinos on-line era como observar uma bola de cristal. Ali estava o futuro da dança.
Mas será que essa promessa se concretizou?
Hoje, os dançarinos mirins que nos impressionaram na internet estão chegando à idade adulta. Alguns obtiveram sucesso no mundo da atuação e da música. Ziegler, que foi musa da cantora Sia, estrelou há pouco tempo o filme "Lindas e Letais" ao lado de Uma Thurman. Tate McRae, uma das primeiras crianças a se destacar com vídeos que viralizaram e vice-campeã da temporada infantil do "So You Think You Can Dance", tornou-se uma verdadeira estrela pop.
O mundo da dança profissional tem sido mais difícil de conquistar. A viralização nas redes sociais mostrou aos jovens dançarinos que o trabalho deles era popular, mas criou poucos caminhos profissionais. Muitas vezes, esses artistas conseguiram o "emprego dos sonhos" do mundo do entretenimento convencional — dançar em shows de grandes nomes da música ou em comerciais de grandes marcas — antes de completarem 18 anos, ficando ávidos por novos desafios. E aqueles que esperavam ingressar em alguma companhia de balé clássico ou de dança contemporânea, cujo costume é recrutar bailarinos de suas escolas afiliadas, descobriram que o estrelato nas redes sociais ajudava muito pouco.
Alguns ex-prodígios estão preenchendo esse vácuo profissional com energia criativa, construindo uma carreira diversificada que muitas vezes inclui uma combinação de contratos com marcas, projetos de coreografia e o trabalho de ensino. Também estão falando mais abertamente sobre as pressões resultantes da fama nas redes sociais e ajudando a próxima geração de astros e estrelas da dança a lidar com o sucesso na internet.
Kaycee Rice, hoje com 23 anos, tinha dez quando um de seus solos se tornou superviral no YouTube. Pouco depois, estava dançando com Missy Elliott no show do intervalo do Super Bowl e atuando no videoclipe de "All About That Bass", de Meghan Trainor.
Em uma videoentrevista, Rice comentou que não tem certeza do rumo que está seguindo como profissional. Mas se sente atraída pelas muitas áreas artísticas que seu currículo impressionante já registrou: coreografia, direção criativa, atuação. "Desde cedo, tive a oportunidade de fazer várias coisas que muitos dançarinos adultos faziam. Agora penso: o que mais posso criar? Ainda estou descobrindo meu caminho."
Como muitas estrelas infantis da dança da era da internet, Rice surgiu no circuito das disputas. Rotinas criadas para competições de jazz, balé ou hip-hop — curtas e elaboradas para impressionar — se adaptavam bem às redes sociais, nas quais se tornaram um fenômeno viral.
Hoje com 23 anos, Lucia, cujo domínio nas competições de jazz se tornou um ponto central da trama de "Dance Moms", descreveu a mudança em uma videoentrevista: "De repente, eu estava recebendo milhões de visualizações, coisa que eu nem conseguia processar quando era criança." A atenção era ao mesmo tempo empolgante e avassaladora. "Sempre houve a sensação de que a dança era subestimada, mas logo a conversa em torno dela começou a ganhar muita força."
Muitos jovens dançarinos também costumavam estrelar os vídeos de aulas de dança que proliferaram no YouTube e no Instagram ao longo da década de 2010. Trechos de coreografias de hip-hop ou jazz extremamente enérgicas em sala de aula, muitas vezes gravadas no Millennium Dance Complex, em Los Angeles, começaram a viralizar com regularidade. Ter um ou dois prodígios no centro das atenções podia aumentar ainda mais o número de visualizações.
Um grupo pequeno de jovens dançarinos de elite se tornou presença constante nesses vídeos. Hoje com 25 anos, Gabe De Guzman, que fazia parte do grupo, descreveu o momento como algo único que não se repetirá: "Tudo parecia muito, muito novo, porque éramos crianças que se divertiam de verdade. Não foi planejado. Era nossa paixão genuína, que por acaso acabou sendo registrada."
Naqueles primeiros dias das redes sociais, conquistar muitos seguidores era com frequência uma surpresa agradável, e não um objetivo em si. Kayla Mak, atualmente com 23 anos e aprendiz no American Ballet Theater (ABT), tornou-se popular na internet depois de aparecer na série de televisão "World of Dance" quando era adolescente. Ela revelou em uma videoentrevista que quase não tinha noção de sua capacidade de viralizar: "Meu pai dizia: 'Olha só, seu solo está bombando no YouTube.' Eu respondia: 'Que ótimo!' E depois voltava a fazer meu dever de casa e a comer nuggets de frango."
Ainda assim, o fato de ter um grande público digital inevitavelmente mudou a maneira como esses jovens artistas pensavam em sua carreira na dança. Mak, que estudou vários estilos de dança na Juilliard antes de ingressar no Ballet Theater — caminho muito incomum para quem entra na companhia —, observou que seu sucesso nas redes sociais e na televisão a expôs a diferentes facetas do mundo da dança profissional: "Tenho várias características que posso usar a meu favor no ABT, porque pude ver e fazer muita coisa. É como se cada experiência fosse um passo pequeno em direção à artista que quero me tornar."
Outros prodígios da internet abandonaram completamente a dança. Miko Fogarty, hoje com 28 anos, conquistou um público fiel na internet depois de participar de "First Position", documentário de 2012 sobre competições de balé. Aos 17 anos, ingressou no Birmingham Royal Ballet. Em uma videoentrevista, relatou que, no início, gostava de usar as redes sociais para se conectar com os fãs e com a comunidade de dança em geral.
Nos bastidores, contudo, Fogarty lutava em segredo contra distúrbios alimentares, uma lesão no pé e um esgotamento severo, problemas que não queria discutir on-line por medo de desanimar outros bailarinos. Achava que um emprego em uma companhia de balé poderia ajudar, mas não era tão gratificante quanto esperava. "Eu fazia postagens sobre ser uma bailarina de sucesso — e era mesmo, de certa forma. Mas, às vezes, parecia que eu estava falando de outra pessoa. Eu não estava sentindo alegria suficiente com a dança para justificar nada daquilo."
Em 2016, parou de se apresentar e fez uma pausa de dois anos nas redes sociais. Hoje, Fogarty é residente em cirurgia em Boston, com especialização em pé e tornozelo; comentou que espera, um dia, ajudar bailarinos a superar lesões como as que ela mesma teve.
Além de ainda terem um número grande de seguidores no Instagram e no YouTube, muitos dos prodígios da dança da década de 2010 conquistaram novos fãs no TikTok. Alguns agora adotam uma abordagem mais confessional nas redes sociais.
Rice, que também enfrentou um transtorno alimentar na adolescência, não postou sobre isso na época. Recentemente, tem se mostrado mais aberta no ambiente on-line. Afirmou que a resposta solidária — dos fãs que, em alguns casos, a conhecem desde criança — é comovente.
Embora cada artista com quem conversei tenha seguido um caminho profissional diferente na vida adulta, há um denominador comum: o ensino.
"É uma forma de retribuir um pouco do conhecimento que adquiri, para não o desperdiçar", comentou Fogarty, que dá aulas a jovens estudantes de balé e ministra workshops enquanto segue sua formação médica. Fechando um ciclo, alguns ex-prodígios se tornaram membros do corpo docente nas convenções de dança das quais participaram quando crianças.
