A reconstrução do diálogo entre brasileiros que pensam diferente será um dos principais desafios do país após a eleição presidencial. A avaliação é do jurista José Geraldo de Sousa Júnior, dirigente do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB) e integrante do Conselho Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).Em entrevista aos jornalistas Denise Rothenburg e Ronayre Souza, nesta segunda-feira (19/10), durante o CB.Poder, programa realizado em parceria pelo Correio Braziliense e pela TV Brasília, ele afirmou que o resultado das urnas não será suficiente para superar a divisão política. Para o professor, o período seguinte à votação exigirá disposição para negociar, reconhecer divergências e recuperar a política como instrumento de convivência democrática. “O aprendizado desses dias para todos, inclusive para as candidaturas, é o aprendizado de resgate da política como mediação para as diferenças e para ultrapassagem de conflitos”, afirmou.Leia também: Senadora eleita do PL defende impeachment de Alexandre de Moraes: "Moralizar"Ao analisar os cenários para o próximo governo, José Geraldo destacou que qualquer vencedor terá de enfrentar dificuldades para construir consensos e garantir a governabilidade. De um lado, a continuidade da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisará lidar com limitações de sustentação parlamentar e com as tensões entre os Poderes. De outro, a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), segundo o jurista, ainda precisa esclarecer pontos de seu projeto político, especialmente em relação à economia e às mudanças constitucionais defendidas por seus apoiadores. Para ele, a disputa não deve se limitar à vitória de um candidato, mas à capacidade de a sociedade preservar conquistas e definir os rumos do país.“Espero que nós, enquanto sociedade, possamos ter um papel nesse processo”, declarou. O professor também ressaltou que a participação popular não se encerra no voto: deve continuar por meio do debate público e da mobilização social, como ocorreu durante a redemocratização e a Assembleia Constituinte.A diferença entre direita, esquerda e bolsonarismo também foi discutida na entrevista. José Geraldo explicou que os campos políticos tradicionais se distinguem pelos projetos de sociedade que defendem: enquanto a esquerda prioriza a inclusão social e a distribuição da riqueza, a direita historicamente se estruturou em torno de privilégios e da concentração de acesso aos bens. Na avaliação dele, o bolsonarismo não pode ser compreendido apenas como uma corrente ideológica. “O bolsonarismo se incrustou nesse processo. Ele não é direita ou esquerda, ele é ismo”, afirmou.Leia também: Zanin cobra explicações do TSE sobre eleição em primeiro turno no RioO jurista relacionou o movimento à expansão internacional de forças de extrema direita, marcadas, segundo ele, pela intolerância e pela resistência à emancipação dos povos. Ao tratar da crise dos organismos internacionais, defendeu a recuperação do direito internacional como instrumento de negociação entre países e de proteção de interesses comuns. “Ou se restaura o direito internacional e ele é o lugar onde você cria mediações confiáveis, previsíveis, negociadas e iguais do ponto de vista do processo de debate sobre como articular interesses comuns, ou você entra na condição de uma guerra generalizada”, alertou.O uso da religião nas campanhas eleitorais foi outro tema abordado. Para José Geraldo, a presença religiosa na cultura brasileira é legítima e contribui para a formação de referências éticas, mas não deve determinar as decisões políticas. Ele lembrou que o Brasil é um Estado laico e que a liberdade de crença precisa ser preservada sem transformar convicções religiosas em critérios para a condução do poder público. “Quando você faz isso, você rebaixa a religião e você rebaixa a política”, afirmou.Leia também: Novo boletim médico atualiza estado de saúde de JanonesO professor também comentou a crise do Supremo Tribunal Federal (STF) e defendeu uma reforma construída por meio de amplo debate nacional. Para ele, a Corte precisa preservar seu papel institucional de mediadora das tensões entre os Poderes, sem que cada ministro atue de forma isolada. José Geraldo avaliou que o tribunal tem capacidade histórica de se reorganizar diante de crises, mas ressaltou a necessidade de discutir os limites das decisões individuais e fortalecer a atuação colegiada.Questionado sobre a possibilidade de impeachment de ministros do STF em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, José Geraldo observou que os instrumentos legais já existem, mas sua aplicação depende de articulação política e de condições institucionais.Ele lembrou que processos de impeachment no Brasil foram acompanhados por forte mobilização da sociedade e destacou que mudanças no Judiciário não podem ser conduzidas apenas por interesses de grupos políticos. Na avaliação do jurista, o debate sobre a reforma da Corte deve considerar sua função de contrapoder e a necessidade de preservar a democracia. Ao final, ele retomou a questão central da eleição: mais importante do que identificar quem vencerá é avaliar as consequências do resultado para a população. “A grande questão é saber se a sociedade ganha ou perde”, concluiu.Veja a entrevista completa: *Estagiária sob supervisão de Rafaela Gonçalves Saiba Mais Política Novo boletim médico atualiza estado de saúde de Janones Política Eleições: "Debate frustrou o eleitor", avalia cientista político Política Senadora eleita do PL defende impeachment de Alexandre de Moraes: "Moralizar" Política PT quer CPMI para investigar Flávio Bolsonaro nos casos Master e INSS Política Zanin cobra explicações do TSE sobre eleição em primeiro turno no Rio Política Lula faz ato de campanha em cidade pernambucana onde prefeito apoia Flávio
José Geraldo defende diálogo após eleição: "É preciso fazer mediações"
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