A virada histórica operada por Lula nesta eleição lhe dá um atestado de força e capacidade política capaz de silenciar muita gente que já o via à porta da aposentadoria. Mas não lhe garante nenhum respiro.
Passada a festa, Lula terá que começar imediatamente a trabalhar para evitar que seu quarto mandato não seja inviabilizado por uma sucessão de crises. Se já foi difícil no mandato anterior, será mais ainda com a acachapante maioria da direita no Senado, vitaminada pela revolta dos bolsonaristas com a derrota e as esperadas acusações de fraude por conta do tumulto no início do processo de apuração dos votos.
A estratégia óbvia para o presidente é retomar a frente ampla. Contudo, diferentemente do que aconteceu no mandato anterior, em que ele pôde fazer uma frente ampla de fachada e contar com o Supremo para desempatar disputas cruciais, agora Lula terá de buscar outras ferramentas para conquistar a governabilidade.
A primeira é se ancorar na mobilização popular que o elegeu para expandir a base e ir se chegando para a direita. A primeira pista sobre como fazer isso foi dada pela enorme receptividade à proposta de Flávio Bolsonaro de uma política pública de “prosperidade” — a que o petista aderiu abrindo os cofres para os microempreendedores individuais.
A questão é que, para fazer isso, Lula terá de superar uma barreira talvez ainda mais complexa: a de fazer o país crescer apesar do esgotamento das estratégias que ele teve à disposição no terceiro mandato. O incentivo ao consumo desaguou no endividamento da população, e o gasto estatal com políticas sociais e transferências governamentais está num limite.
A dívida pública também cresceu e demanda uma estratégia de ajuste fiscal que Lula até agora não reconheceu como necessária, mas que vai se impor, até por conta dos gastos já contratados durante a eleição para conquistar o terceiro mandato. Tudo somado, é como se Lula tivesse acabado de vencer a maior prova de sua carreira, só para descobrir que tem diante de si um desafio ainda maior.
O Globo