Jogos de tabuleiro viram febre pelo país como antídoto contra a ‘epidemia’ de telas
Em vez das telas, dados, cartas, ampulhetas e afins. Os problemas causados pelo excesso do uso de tecnologia e de redes sociais têm levado brasileiros a recuperarem o gosto por atividades analógicas, que os ajudem a desconectar. O fenômeno vem contribuindo para a reabilitação dos jogos de tabuleiro, deixados de lado com a expansão digital, que voltam à cena como opções de entretenimento, sociabilidade e até de tratamentos psicológicos. A popularização traz a reboque o aumento no número das chamadas luderias — espaços que unem bar e restaurante ao passatempo —, com eventos temáticos e até imersões para atrair jogadores pelo país.
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O arquiteto Roberto Mattos, de 31 anos, contabiliza até seis horas a menos no celular por semana graças aos jogos. Com o hábito de se reunir com os amigos pelo menos três vezes para partidas de Ark Nova, Projeto Gaia, Duna Imperium e Spirit Island, focados em raciocínio e estratégia, ele garante que passou a ter mais “qualidade de vida real”:
— O celular fica até esquecido na mesinha do lado. Quando era adolescente, gostava de jogos competitivos online, mas acabava ficando até mais estressado e ansioso. Quando vamos para a mesa com jogo de tabuleiro é outra sensação, até perder é bom. A ansiedade diminui, o foco está em participar do que está acontecendo ali naquele momento e na companhia da mesa.
O arquiteto Roberto Mattos é um cliente assíduo da recém-inaugurada Luderia Carioca, no Catete
Léo Martins
Ele explica ainda que o interesse pelos jogos surgiu de forma despretensiosa, em uma reunião na casa de amigos, enquanto procuravam uma atividade exatamente para não ficarem vendo TV ou mexendo no telefone.
— Conheci os “jogos de festa” e acabei pegando gosto. Descobri uma gama de diferentes complexidades, temas e mecânicas. O que me mais fisgou foi ter encontrado opções diversificadas, desde os que exercitam o cérebro aos que são o contrário, feitos justamente para tirar uma risada da galera — descreve o rapaz, que já se tornou frequentador assíduo com os colegas da recém-aberta Luderia Carioca, no Rio de Janeiro.
O local, inaugurado em dezembro passado no Catete, na Zona Sul, leva o nome dos estabelecimentos popularizados nos anos 2000 por juntarem no mesmo espaço bar e tabuleiros. O negócio começou como um delivery de jogos, além da realização de eventos que chegavam a reunir mais de cem pessoas.
— Foi aí que entendemos que tinha espaço para uma loja assim na cidade — conta um dos sócios da Luderia, William Devillart. — Hoje temos um espaço de 300m², mais de 30 mesas e mais de 120 lugares para o pessoal jogar à vontade os mais de 700 jogos do acervo. É um refúgio analógico nesses tempos de mil telas.
‘Consumo descontrolado’
Uma pesquisa da empresa britânica Proxyrack mostrou que os brasileiros ficam mais de nove horas por dia diante de telas, navegando na internet. Outro estudo, publicado recentemente na revista científica Neuropsychology Review, apontou que indivíduos com uso desordenado de telas têm desempenho cognitivo significativamente pior em comparação com outros.
Anna Lucia Spear King, psicóloga e doutora em saúde mental, que coordena a primeira pós-graduação em Dependência Digital da América Latina na Nonahub/Universidade Anhanguera, explica que a preocupação com o tempo de tela tem, de fato, aumentado.
— Houve um boom pela procura dessas tecnologias em um primeiro momento, principalmente nas gerações mais novas, que gerou um consumo descontrolado. Não houve uma preocupação voltada para a educação digital ou uso consciente. Mas a sociedade começou a perceber os prejuízos que o consumo desmedido traz, como o vício em jogos e em compras online, e vai buscar cada vez mais um uso responsável, aproveitando os benefícios que a tecnologia pode proporcionar — prevê.
Os tabuleiros foram uma das estratégias de entretenimento escolhidas pela servidora pública Lidianne Rios de Araujo Mello, de 41 anos, para afastar os filhos, de 16 e de 11, das telas. Junto com o marido, ela fez uma assinatura de jogos no restaurante Bodogami, na Liberdade, em São Paulo, que une os passatempos com a culinária oriental tradicional do bairro. O serviço, que custa R$ 80, permite que eles escolham mensalmente um exemplar diferente para levar para casa e curtirem em família no período.
— Meu marido e eu sempre gostamos de jogos de tabuleiro, aqueles tradicionais, tipo Banco Imobiliário, War, Imagem e Ação. Na pandemia, ele conheceu alguns diferentes, mais estratégicos, e resolvemos comprar um. Com o tempo, se tornou uma das nossas principais atividades em casa. Ficamos impressionados com o poder que eles têm de tirar nosso caçula das telas e de trazer nossa adolescente para mais perto da gente — descreve ela.
Os jogos ajudam a desligar o celular, mas esse não é o único benefício. O psicólogo Manoel Acioli, fundador da RPG Terapia e especialista em terapias cognitivo-comportamentais gamificadas, explica que há uma ativação neurológica durante a prática:
— Muda o tipo de estímulo que o cérebro recebe. As telas ativam um sistema de recompensa rápida, com picos constantes de dopamina, que tendem a deixar o cérebro impulsivo e menos tolerante à frustração. Os jogos analógicos ativam a região responsável por atenção, planejamento, controle emocional e tomada de decisão.
Influenciador digital especializado no “mundo game”, Nicholas Vicente Oliveira, conhecido nas redes como Nick, afirma que é difícil definir quais os melhores jogos, ou mesmo os mais populares do país, por conta da gigantesca variedade. Um ranking do gênero, segundo ele, dependeria do estilo dos jogadores e da habilidade prévia da pessoa. Há segmentos para iniciantes, crianças, grupos, duplas, para festas e até mesmo para quem quer jogar sozinho.
— Além da infinidade de jogos e temas que vão acabar nos conquistando, nada supera o sentimento de poder partilhar memórias e conhecer novas mecânicas, fora das telas, com aqueles que a gente ama — assegura o influenciador, refutando a mística de que jogos de tabuleiro são todos iguais. — No Legacy, por exemplo, não existe sequer uma dinâmica previamente definida, você vai descobrindo regras conforme vai jogando, e isso pode fazer com que você modifique o tabuleiro permanentemente.
Os favoritos
A febre analógica pode ser sentida no Brasil inteiro. No Rio Grande do Sul, Arthur Vargas, proprietário da loja de aluguel de jogos de tabuleiro HEX Boardgame, conta que os mais procurados pelos gaúchos são Coup, Azul e Dixit. Já no Pará, na Ludoteca Sidequest — que também oferecia apenas a locação de exemplares até expandir os negócios para um espaço físico —, os maiores sucessos são, mais uma vez, o Dixit e o Coup, além do Tapalavras.
Em Minas, o Dixit volta a aparecer como favorito no LudoCafé BH, seguido do Dobble e do Ticket to Ride. Onipresente nas listas, o Dixit é um jogo de dedução e criatividade, em que os participantes usam cartas com ilustrações para criar enigmas, frases ou sons, enquanto os outros tentam adivinhar o conteúdo sorteado pelo “narrador”.
Para atrair diferentes públicos, as casas também investem em eventos temáticos, com públicos específicos. Em São Paulo, na Ludus Luderia, que oferece 1.800 jogos e se autointitula a primeira do gênero aberta na América Latina, os primeiros domingos do mês são dedicados aos frequentadores LGBTQIAPN+, com o Jogayme. A ideia é estabelecer em 2026 um dia exclusivo para as jogadoras, criando o Clube Luduzinhas.
A Ludus Luderia tem 1.800 jogos e se diz a primeira do tipo no continente
Reprodução
Em Pernambuco, o carnaval dará o tom do próximo encontro temático dos integrantes do clube de assinaturas da Luderia Nala Land. A ideia é fazer um bloquinho geek, com os participantes fantasiados, mas com foco nos jogos.
Outro tipo de evento ligado a esse universo que tem crescido são as imersões. No Rio Grande do Sul, o encontro Jogaúcha reuniu 160 pessoas na cidade de Nova Petrópolis, interior do estado. Foram quatro dias hospedados todos no mesmo hotel, se intercalando nas mesas de jogos, em um verdadeiro mergulho offline.
