O Jockey Clube de São Paulo pretende quitar a dívida milionária de IPTU que tem com o município e transformar o local em um clube e um parque, após firmar uma parceria com o banco BTG Pactual. A proposta foi apresentada à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos grandes devedores, em curso na Câmara Municipal de São Paulo, mas até agora a agremiação não acionou o Executivo para informar o pagamento da dívida tributária, que atualmente supera os R$ 912 milhões. Leia também: Justiça prorroga por mais 30 dias prisão de Milton Leite, investigado por elo entre PCC e transporte público de SP Na última terça-feira (13), os associados do Jockey aprovaram o contrato de parceria com o BTG, mesmo dia em que o presidente do clube, Vicente Renato Paolilo, e o conselheiro Renato Diniz Junqueira Filho apresentaram a proposta à CPI.
Segundo o contrato firmado entre as partes, o BTG vai assumir a dívida que o Jockey tem com a prefeitura e com outros credores, e em troca vai usar o espaço para construir um clube social privado, além de implementar um parque público de 85 mil metros quadrados. A área total do Jockey é de cerca de 600 mil metros quadrados, ou seja, apenas 14% seriam dedicadas ao parque, e os 86% restantes seriam o clube. O objetivo é manter as corridas de cavalo, até porque parte do local, como a pista de turfe, as arquibancadas e a bilheteria são tombados.
O interesse do banco no Jockey não é novo e, há alguns meses, representantes do BTG já haviam proposto à prefeitura assumir o espaço para a construção de um clube social. Na época, entretanto, a gestão Ricardo Nunes (MDB) havia rejeitado a proposta porque não havia espaço público suficiente no projeto.
Agora, segundo o que foi apresentado pelo Jockey, há a previsão do parque de acesso público, o que contempla os planos da administração municipal, que existem desde 2022, de transformar a área em um espaço de lazer para a população em geral. O BTG não comentou sobre o projeto.
O presidente do clube afirmou, na apresentação que fez na CPI, que o Jockey vai pleitear a adesão ao programa de transação tributária da prefeitura, que garante até 90% de desconto para pagamentos a vista de débitos inscritos em dívida ativa, o que faria com que a dívida caísse pra R$ 228 milhões.
Em nota, a Procuradoria Geral do Município informou que “até o momento, não há registro oficial de adesão do Jockey Clube de São Paulo ao edital que prevê regras de regularização de débitos para grandes devedores”.
Histórico de reveses O Jockey Clube enfrenta problemas com a gestão Ricardo Nunes desde 2022, quando o prefeito anunciou que o clube, com dívida milionária de IPTU, viraria um parque. A prefeitura chegou a avaliar a área, onde o clube está instalado desde 1941, em R$ 95 milhões para abater parte da dívida com IPTU. O Jockey, por outro lado, sempre contestou a cobrança do tributo, argumentando que, por desenvolver atividades rurais, como a criação de cavalos, deveria pagar o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), e alegava que o terreno valia muito mais.
Antigo reduto da elite paulistana, o Jockey Club tem enfrentado uma série de problemas nos últimos anos. A crise se aprofundou com a diminuição do interesse pelo turfe e a inadimplência dos sócios, o que impactou na operação do clube: o quadro de funcionários foi reduzido e muitos criadores transferiram seus cavalos para jóqueis de outras cidades, como Campinas, Curitiba e Rio de Janeiro. O impacto se estendeu até aos pagamentos de prêmios, como mostrou O GLOBO no ano passado: treinadores e proprietários de cavalos ficaram meses sem receber.
Em setembro de 2025, um juiz havia aceitado o pedido de recuperação judicial do Jockey, mas em abril deste ano o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) rejeitou a ação por entender que como o clube é uma associação civil sem fins lucrativos, e não uma empresa, não poderia passar por recuperação judicial. Desde 2023, o Plano Diretor de São Paulo prevê que o Jockey será transformado em parque. Mas, para isso, é necessário que a prefeitura desaproprie o terreno. Para calcular o valor da área, a prefeitura considerou que boa parte do terreno é tombado e que o espaço é classificado como Zona Especial de Proteção Ambiental (Zepam), ou seja, as regras de construção são extremamente restritas na área. Mesmo os arredores são limitados, já que a maior parte do bairro Cidade Jardim é classificado como zona exclusivamente residencial (ZER). No ano passado, o prefeito contava com a proibição do turfe na cidade como estratégia para viabilizar o terreno, sob o argumento de que apenas essa prática esportiva justificaria a existência do espaço. Entretanto, a norma foi suspensa pela Justiça, e a gestão municipal acabou optando pelo caminho da desapropriação. A matrícula do terreno consultada pelo GLOBO prevê que a prefeitura só ficaria com o terreno caso o clube fosse dissolvido.
O Globo