Jim Caviezel: O ator 'chamado por Deus' que virou ídolo da extrema-direita
Citado várias vezes nos áudios enviados pelo senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para o banqueiro Daniel Vorcaro, o ator americano Jim Caviezel vive Jair Bolsonaro no filme "Dark Horse", sobre a vida do ex-presidente brasileiro. Patrocinada pelo fundador do Banco Master, que está preso sob acusação de fraudes bilionárias contra o sistema financeiro, a produção tem previsão de estreia para este ano. Caviezel foi escolhido a dedo para viver o líder político que, por diversas vezes, alegou publicamente ter sido designado por Deus para governar o Brasil.
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O americano de 57 anos, que viveu seu momento de maior destaque ao interpretar Jesus no filme "A Paixão de Cristo" (2004), disse em diferentes ocasiões que decidiu ser ator após receber um "chamado de Deus" numa sala de cinema, aos 19 anos . Recentemente, ele se aproximou da extrema-direita nos Estados Unidos, participando diversas vezes do podcast de Steve Bannon, um dos principais ideólogos do movimento "Make America Great Again" (Maga), liderado pelo presidente Donald Trump. Em um post no Instagram, o artista chegou a dizer que o republicano é o "novo Moisés".
Em abril de 2021, no auge da pandemia de Covid-19, Caviezel participou do evento antivacina "Health Freedom Summit", em Tulsa, ligado ao universo QAnon. No encontro, o ator falou do seu papel no filme "Som da Liberdade", que seria lançado em 2023, no qual ele vive um agente americano em missão para salvar crianças do tráfico sexual. O próprio longa seria criticado, mais tarde, por propagar teorias da conspiração do QAnon. Segundo essas teorias, há uma rede de pessoas ricas e poderosas no mundo orquestrando o tráfico infantil (Donald Trump seria o enviado de Deus para combater esse mal).
Durante o evento em Tulsa, Caviezel difundiu uma teoria bizarra segundo a qual elites liberais estariam matando crianças para extrair adrenalina de seu sangue e usar a substância para diferentes motivos.
Jim Caviezel em cena de "A Paixão de Cristo" (2004)
Divulgação
"Som da Liberdade" recebeu críticas negativas da imprensa, mas fez sucesso na bilheteria dos Estados Unidos e no Canadá. No Brasil, o longa-metragem caiu nas graças do campo conservador. Grupos ligados a igrejas evangélicas promoveram o lançamento e distribuíram milhares de ingressos. A senadora Damares Alves (Republicanos0DF) e o deputado federal Mário Frias (PL-RJ) exaltaram a produção durante discursos numa pré-estreia em Brasília. Flávio e Eduardo Bolsonaro estavam na plateia. Imediatamente, Jim Caviezel se tornou um astro nesse lado do espectro político nacional.
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O artista nascido em Mont Vernon, no estado americano de Washington, teve trajetória peculiar no cinema. A partir do fim dos anos 1990, ele despontou como estrela de filmes aclamados. Entre eles, "Além da Linha Vermelha" (1998), de Terrence Mallick, indicado ao Oscar, e "O Conde de Monte Cristo" (2002), de Kevin Reynolds. Mas, sem dúvida, o seu papel de maior destaque viria sob a direção de Mel Gibson, quando ele encarnou Jesus na produção bíblica "A Paixão de Cristo" (2004).
Em diferentes ocasiões, Caviezel deixou clara a sua devoção pela religião católica. Ele diz que decidiu se tornar um ator depois que ouviu um chamado de Deus para ingressar nessa carreira, mesmo sem a formação para tal. De acordo com o artista, ele tinha 19 anos e estava assistindo a um filme no cinema quando foi "convocado". Num discurso para estudantes da Liberty University, uma instituição de ensino superior cristão na Virginia, nos EUA, em 2018, o artista descreveu como foi aquele momento.
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"Eu senti um amor que nunca tinha sentido, uma paz que nunca tinha sentido”, disse ele aos alunos. “Eu ouvi Deus dizer, 'quero que você seja um ator'... Eu não sabia o que fazer. Eu tinha recebido o chamado para me tornar um ator, mas seria necessário Ele me ensinar e me levar aos professores certos, aos filmes certos". Segundo Caviezel, aquela convocação se tornou "uma marca indelével" em seu coração, algo que ele escutava "toda noite quando eu ia para a cama e toda manhã quando acordava".
Jim Caviezel em "Som da Liberdade" (2023)
Reprodução
O ator contou que, depois de fazer "Além da Linha Vermelha", em 1999, passou a escolher, como se estivesse diante de um "buffet", os filmes dos quais iria participar. Mas recebeu críticas por manter a postura conservadora nos sets. Para gravar uma cena de sexo com Jennifer Lopes em "Olhar de Anjo" (2001), Caviezel pediu que a atriz vestisse uma camiseta. Depois, recusou-se a ficar sem roupas para aparecer outra sequência com Ashley Judd no filme "Crimes em Primeiro Grau" (2002).
Diante do convite para interpretar Jesus em "A Paixão de Cristo", o próprio Mel Gibson alertou a ele que, se topasse, poderia nunca mais trabalhar em Hollywood de novo. Caviezel contou aos estudantes da Liberty University que, num telefonema com o diretor, aceitou a proposta dizendo a Gibson que aquela era a cruz que o ator deveria carregar. Em seguida, observou que as iniciais de seu nome também eram "JC" e que, na época da gravação do filme, ele tinha 33 anos (a idade de Cristo quando foi crucificado).
"A Paixão de Cristo" dividiu a crítica. Muitos viram mensagens antissemitas. Outros não gostaram da violência nas cenas da crucificação. Mas foi uma das produções bíblicas de maior sucesso comercial na história do cinema. Mesmo assim, Caviezel contou em entrevistas que sofreu rejeição da indústria do cinema após o filme. Desde então, ele atuou em diferentes longas de conteúdo religioso, como "Paulo, Apóstolo de Cristo" (2018) e "Infidel" (2020), ou patrióticos, como "Som da Liberdade" (2023).
