À primeira vista, o Alnwick Poison Garden, na Inglaterra, pode parecer apenas mais um jardim com árvores, arbustos e flores. Por trás das grades, porém, estão 97 espécies de plantas tóxicas ou narcóticas, número que garantiu ao espaço o certificado do Guinness World Records como o jardim com o maior número de espécies de plantas venenosas do mundo, confirmado nesta semana.
Localizado nos terrenos do Castelo de Alnwick, em Northumberland, no norte do país, o local só pode ser visitado em passeios guiados. Veja também: Noruega responde Trump com ironia e exalta seus banheiros públicos, após xingamento do presidente ao país
E mais: Parente do Tyrannosaurus rex, Jodi, um fóssil de Nanotyrannus, é arrematado por R$ 252,7 milhões em leilão A coleção reúne plantas capazes de provocar intoxicações e outros efeitos nocivos em diferentes graus.
Entre elas estão o tabaco (Nicotiana), a papoula-do-ópio (Papaver somniferum) e a gympie-gympie (Dendrocnide moroides), que possui os ferrões mais perigosos do reino vegetal. Há ainda espécies como heléboros, dedaleiras e beladona, além de loureiro, teixo, laburno e hera.
"Como destacado na edição #GWR2027, todas as plantas desta coleção botânica são, em maior ou menor grau, tóxicas ou narcóticas; portanto, têm o potencial de nos ferir ou causar doenças", destacou o Guinness, em suas redes sociais. Um jardim para ensinar
O perigo das plantas é justamente o ponto de partida para transformar a curiosidade dos visitantes em uma experiência de aprendizado. Segundo John Knox, guia do Jardim das Plantas Venenosas de Alnwick, explicar que uma espécie pode causar danos ou até matar ajuda a despertar o interesse pela ciência por trás de seus efeitos.
— Um jardim como este transforma a curiosidade, e um pouco de medo, em uma ferramenta de ensino. Ao explicar como uma planta pode causar danos ou matar, ele imediatamente captura a atenção do público e o leva a se aprofundar na ciência por trás disso: como as toxinas funcionam, quais são os sintomas e por que a dosagem é tão importante — explicou ele em entrevista ao jornal La Nacion, neste ano.
Jardim Venenoso de Alnwick , localizado em Northumberland, no norte da Inglaterra Divulgação
A partir das plantas, os visitantes também podem conhecer aspectos históricos relacionados ao uso dessas espécies, incluindo sua utilização como medicamentos, em julgamentos de bruxas, em guerras e em casos famosos de envenenamento. Assim, o espaço deixa de ser apenas uma atração turística e passa a funcionar como um ambiente de aprendizagem.
O jardim foi projetado pelos arquitetos paisagistas belgas Jacques e Peter Wirtz, que transformaram plantas perigosas em parte de uma experiência voltada à disseminação de conhecimento. Como surgiu o jardim de plantas mortais
A ideia de criar um espaço dedicado às plantas venenosas surgiu de Jane Percy, Duquesa de Northumberland, durante o processo de revitalização dos jardins históricos de Alnwick, no início dos anos 2000. Jardim Venenoso de Alnwick abriga mais de 90 espécies de plantas tóxicas, intoxicantes e narcóticas
Divulgação Segundo John Knox, a reformulação poderia ter seguido caminhos mais convencionais, como a criação de outro jardim de rosas ou de um espaço tradicional dedicado a ervas.
A duquesa, no entanto, queria uma proposta capaz de chamar a atenção do público e permanecer na memória dos visitantes. — Quando os Jardins de Alnwick foram reformulados, havia uma forte tentação de optar pelo seguro e criar outro jardim de rosas ou um jardim de ervas tradicional.
Em vez disso, a Duquesa queria algo que realmente fizesse as pessoas parar, prestar atenção e se lembrar do que tinham visto. Foi a partir desse desafio que a ideia nasceu — conta o guia.
Uma das fontes de inspiração para a duquesa foi o jardim de plantas venenosas da família Medici, oficialmente conhecido como Orto Botanico di Firenze. Por que o local é cercado?
Por causa das características das espécies cultivadas, o Jardim Venenoso é isolado por grades e não funciona como uma área aberta para circulação livre. Os visitantes precisam participar de passeios guiados e são orientados sobre os cuidados necessários diante das plantas.
A proposta é apresentar espécies que podem provocar intoxicações sem transformar o espaço apenas em uma coleção de plantas perigosas. Ao explicar seus efeitos, usos históricos e características, o jardim usa justamente aquilo que poderia afastar os visitantes, o risco, como forma de aproximá-los da ciência.
O Globo