Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
O ‘general’ de Lula levou ao celular a urgência que Brizola pôs no rádio durante a Campanha da Legalidade, ambos em defesa da democracia O deputado federal André Janones (Rede-MG) chorou entre o presidente Lula (PT) e a primeira-dama Janja, ao ouvir o próprio nome no primeiro discurso da reeleição, na noite de domingo 25.
Lula o chamou de “nosso general” e agradeceu por ter levantado o moral da tropa “de manhã, de tarde e de noite”. Sessenta e cinco anos atrás, outro homem passou dias e noites ao microfone num porão de Porto Alegre para garantir a posse de um presidente.
André Janones seria o Leonel Brizola de agora? A resposta passa por compreender um pedaço da história brasileira. Quase toda a convocação abria com o mesmo chamado, “Pessoal, urgente!”, e trazia uma tarefa com hora marcada: curtir, compartilhar, subir hashtag.
“Senta o dedo, vai lá no X agora e executa as três missões”, ordenou Janones numa delas. Para entrar na tropa, bastava escrever “soldado” nos comentários e esperar o link.
A insistência virou piada nas redes. Um internauta recebeu o bom-dia das 8h20 com um “Alerta de gatilho: Janones acordou”.
Outro se desculpou com a mãe pela demora em responder, já que o Janones não lhe dava paz. Em 16 de outubro, o general pediu que a tropa abrisse mão do almoço, do jantar, do namoro e, se preciso fosse, do banho.
A reeleição não podia esperar nem sequer uma ducha rápida. No dia seguinte, Lula posou com a camisa amarela da seleção, a mesma que o bolsonarismo transformou em farda, e a militância aderiu em massa, com o L nos dedos.
Nem o general parou. Internado com arritmia cardíaca depois do debate da Band, mandou do leito um áudio pedindo hashtags para a entrevista de Lula ao SBT.
Também explicou o método: os soldados deviam curtir e compartilhar os vídeos antes de assistir a eles, para agradar o algoritmo da Meta. A ideia, contou, era repetir a estratégia de bolsonaristas como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), com uma vantagem: “eu sei fazer o que eles fazem de uma maneira pro bem”.
A esquerda passou anos chamando de gado o bolsonarista que obedece sem perguntar. Em três semanas, parte dela aprendeu a endossar antes de ver, ao toque do berrante do estridente político mineiro, de camisa amarela e tudo.
Funcionou. Lula virou uma eleição que tinha perdido no primeiro turno, algo inédito no País, e a abstenção caiu de um turno para o outro.
No domingo, entre denúncias de falta de ônibus, o ex-cobrador mandou a tropa oferecer carona até as urnas. Ninguém mediu quantos votos saíram das missões, mas o presidente reeleito fez a conta de cabeça e deixou claro o saldo no palanque ao abraçar Janones.
Brizola também veio de baixo. Nascido numa família pobre, trabalhou de entregador em um açougue quando criança, foi engraxate e ascensorista, elegeu-se deputado estadual pelo PTB ainda estudante de engenharia, formou-se e, em 1950, casou-se com Neusa Goulart numa fazenda de São Borja, com Getúlio Vargas de padrinho.
O irmão da noiva, João Goulart, o Jango, era o protegido de Getúlio e herdeiro do trabalhismo que o velho caudilho inventou. Ministro do Trabalho, Jango propôs dobrar o salário mínimo e deixou o cargo depois que 82 coronéis e tenentes-coronéis assinaram um manifesto contra ele, em fevereiro de 1954.
Getúlio concedeu o aumento no 1º de maio e, em agosto, deu um tiro no peito. Confiou a Jango uma cópia da carta-testamento, que Brizola transformou em farol.
Jango se elegeu vice-presidente duas vezes, numa época em que presidente e vice eram votados em separado. Na segunda, em 1960, venceu pela chapa adversária à de Jânio Quadros.
Jânio renunciou em 25 de agosto de 1961, com Jango regressando de uma missão oficial à China. Os três ministros militares vetaram a posse do vice, que consideravam aliado dos comunistas.
O Ministério da Guerra calou as rádios de Porto Alegre, e Brizola, governador do Rio Grande do Sul, requisitou a Rádio Guaíba. Um estúdio foi montado nos porões do Palácio Piratini.
Na manhã de 28 de agosto, com ordem de bombardeio contra o palácio, Brizola abriu o microfone com um bordão que Janones assinaria: “Atenção, Brasil!” Pediu que mandassem as crianças para casa, chamou o povo à frente do Piratini e avisou: “Poderei ser morto. Não importa”.
De madrugada, dera entrevista de metralhadora a tiracolo. A Cadeia da Legalidade chegou a 104 emissoras, o governo gaúcho falou em mais de 150 mil voluntários e, no mesmo dia, o comandante do III Exército, general Machado Lopes, aderiu à resistência.
A ordem de bombardeio não foi cumprida. Jango tomou posse em 7 de setembro, com os poderes encolhidos por um parlamentarismo costurado às pressas pelo mineiro Tancredo Neves, que viraria o primeiro-ministro.
Aprendi detalhes dessa história com a leitura do ótimo Lobisomem contra o império (Cia. das Letras), primeiro volume da biografia de Brizola escrita por Karla Monteiro.
Para ela, foi na Legalidade que Brizola descobriu que o rádio era uma arma. Antes da Campanha da Legalidade, como ficou conhecido o movimento liderado por Brizola, ele já ocupava a Rádio Farroupilha nas noites de sexta, em transmissões que podiam durar doze horas, e a oposição espalhava que ele virava lobisomem à meia-noite, daí o título da biografia.
O parentesco entre a estratégia de Janones e a de Brizola é evidente. Os dois falaram com o eleitor sem intermediário, a qualquer hora e em tom de alarme, e souberam explorar o aparelho que as pessoas tinham em casa ou no bolso.
O PT, que escanteou Janones por anos pelo estilo histriônico, terminou o domingo aplaudindo o general. Lula deve a ele um pedaço da reeleição, assim como Jango deveu a Brizola a faixa.
Durante a campanha, um amigo me perguntou como Janones apareceria nos livros de história. Imaginei estudantes apertando o play num material didático digital para ouvir o deputado gritar “Pessoal, urgente!”.
Quem voltasse algumas páginas do livro (ou tablet) ouviria Brizola, em 1961, gritando: “Nós não nos submeteremos a nenhum golpe”. Daniel Camargos Jornalista, é repórter especial na Repórter Brasil; venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog; dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center
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