'Já me disseram que nunca seria boa', diz Michelle des Buillons, que pode bater o recorde de maior onda surfada

 

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As 25 pranchas de surfe enfileiradas na sala do apartamento de Michelle des Buillons, na Barra, materializam a história da surfista franco-brasileira, de 36 anos, até se tornar uma das protagonistas dos campeonatos de ondas gigantes. Em dezembro do ano passado, na etapa de Nazaré do WSL Big Wave Challenge, a surfista pegou uma onda estimada em 24,99 metros, a maior marca de uma mulher desde o recorde de Maya Gabeira em 2020 (22,4m). “Era o maior mar da temporada, mas não entrei pensando em quebrar recorde mundial. Meu único objetivo era performar bem e sair com segurança”, diz, enquanto aguarda a homologação da medida, prevista para setembro.

Quem pôs Michelle na onda foi seu marido, o também surfista Ian Cosenza. Os dois atuam como dupla nos campeonatos de tow-in, modalidade em que o atleta é rebocado e posto na onda gigante por um jet-ski. “Ela entrou por um ângulo muito radical. Sabia que seria especial. É fora da curva”, afirma ele. Quem também fica orgulhoso da colega é Pedro Scooby: “Nos conhecemos desde a infância, e vê-la se reinventando e tendo esse resultado depois de muita dedicação é realmente uma emoção.” Tamanho sucesso chamou a atenção do Brasil Surfe Clube, que escolheu Michelle como uma de suas embaixadoras. “Ela inspira mulheres e representa a abertura de novos caminhos no esporte”, diz Luis Felipe Magon, sócio-fundador do clube de piscinas de ondas.

Michelle herdou do pai, o shaper francês Jean Noel, a conexão visceral com o mar. “A fábrica dele ficava no quintal de casa, e isso despertou em mim o desejo de me profissionalizar no esporte”, relembra. Foi ele quem estruturou sua primeira prancha de tow-in, quando a surfista decidiu levar a carreira encarando as ondas gigantes, aos 27 anos. “Contratei um técnico em Nazaré para me treinar e, por ser um ambiente mais bruto, ele chegou a me comparar com outra atleta e a dizer que nunca chegaria ao nível dela. Tive e ainda tenho medo da força do mar, mas isso mostra o quanto tenho respeito por aquele ambiente.”

Para além do esporte, os planos de curto prazo incluem encaixar a maternidade. “Não será simples. Como atleta, vou ter que abrir mão de coisas. Mas, prefiro acreditar que, quando esse momento chegar, vou voltar mais forte.” E viver uma boa onda.