Itália e a Copa: como uma tetracampeã mundial viu o torneio virar um trauma

 

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Cinco minutos do segundo tempo, Inglaterra e Itália vão empatando em 1 a 1 em jogo pela primeira rodada do grupo D da Copa do Mundo de 2014. Antonio Candreva dribla Leighton Baines pela direita e cruza para Mario Balotelli marcar, de cabeça, o gol que definiu a vitória. Foi assim a última vez que a azzurra balançou as redes num Mundial. Doze anos depois, a tetracampeã entra em campo hoje, diante da Bósnia, às 15h45, em Zenica, na final da repescagem das Eliminatórias Europeias. Jogo que decide se volta à Copa do Mundo ou se viverá a terceira ausência consecutiva do torneio.

Dos envolvidos no lance daquele gol, Candreva e Baines já estão aposentados. Marchisio e Sturridge, autores dos primeiros gols da partida, também não jogam mais. São personagens de duas gerações do futebol que ficaram para trás enquanto a Itália vivia traumas consecutivos na repescagem das Eliminatórias.

Em 2017, um time que tinha Buffon, De Rossi, Chiellini, Jorginho fazendo sua estreia e Ciro Immobile no auge, os italianos foram surpreendidos pela Suécia, que abriu 1 a 0 em casa e segurou o 0 a 0 na volta para ficar com a vaga para a Copa da Rússia, no ano seguinte. Cinco anos depois, em novo formato e com uma nova geração em campo, com nomes como Donnarumma, Barella e Verratti, um ano depois de conquistar a Euro, os italianos voltaram a se frustrar, caindo ainda na semifinal da repescagem em jogo único com a Macedônia do Norte (1 a 0).

Macedônia eliminou a Itália em 2022

Divulgação/Federação italiana (FIGC)

Safra de jogadores, queda na qualidade e no número de italianos atuando por clubes do Campeonato Italiano, dificuldade de formação em posições específicas e a alta competitividade das Eliminatórias Europeias foram alguns dos fatores colocados em debate dentro e fora da Itália como possíveis razões do insucesso. A seleção trocou de técnico três vezes desde a primeira não classificação, sob o comando de Gian Piero Ventura: Roberto Mancini e Luciano Spalletti passaram pelo cargo antes da chegada do ídolo Gennaro Gattuso, volante campeão de 2006.

Falta de líderes

A falta de líderes entre os jogadores é um dos problemas enfrentados pelas últimas gerações da azzurra, opina Marco Guidi, repórter do jornal italiano La Gazzetta dello Sport. Ao GLOBO, ele diz que há confiança na classificação por quem trabalha próximo ao futebol, mas que existe receio por parte da torcida em geral, dado os últimos dois insucessos.

— O nível da seleção caiu se comparado ao do glorioso início dos anos 2000, assim como o do Campeonato Italiano. Mas se esses mesmos jogadores jogassem pela Grécia ou pela Noruega, por exemplo, jogariam melhor? A resposta é sim, pela ausência de pressão — avalia Guidi — A Itália talvez não esteja mais no mais alto nível, mas tenho certeza que as últimas duas gerações tinham talento suficiente para ir à Copa. O problema real é a falta de personalidade para lidar com a alta pressão e com as comparações com o passado.

A campanha de 2018 nas Eliminatórias foi marcada pela dificuldade no embate direto com a Espanha no grupo grupo G: a azzurra venceu sete dos dez jogos, mas empatou com a fúria em 1 a 1 em casa e levou um 3 a 0 em Madri. Ainda perdeu dois pontos em empate com a Macedônia do Norte, que acabariam não fazendo diferença (a Espanha terminou em primeiro e classificada com cinco pontos de vantagem).

Em 2022, por outro lado, a dificuldade em vencer jogos decisivos se juntou a problemas para capitalizar duelos mais acessíveis. O time terminou o grupo C invicto, mas empatou metade dois oito jogos: Bulgária, Suíça (duas vezes) e Irlanda do Norte. Acabou vendo os suíços ficarem com o topo do grupo e a vaga, com dois pontos de vantagem.

Chiesa marca em empate com a Bulgária, nas Eliminatórias para 2022

Alberto PIZZOLI / AFP

Se o time viveu anos de problemas coletivos, o individual mostra também uma dificuldade em emplacar atletas do país como protagonistas mundiais. Nas últimas dez edições do prêmio Bola de Ouro, jogadores italianos de linha figuraram no top 20 três vezes, todas em 2021: Jorginho (3º), Chiellini (12º) e Bonucci (14º). O mesmo Bonucci foi 21º em 2017, enquanto o meia Barella foi 27º em 2023 e 26º em 2021.

No gol, Donnarumma é um dos astros de sua posição e dá sequência ao legado de Buffon, com quem compartilha resultados de "top 10" mesma na Bola de Ouro. Também já venceu o Prêmio Yashin, específico de goleiros, em duas oportunidades: 2021 e 2025.

Donnarumma é capitão e grande nome da Itália

Stefano RELLANDINI / AFP

Capitão, Donnarumma crê em merecimento

Mais experientes que em 2022, Donnarumma o e Barella são os atletas com mais jogos pela equipe do grupo atual. O volante Sandro Tonali e o zagueiro Calafiori, que defendem Newcastle e Arsenal, são destaques e alguns dos poucos que atuam fora do futebol italiano. Nas Eliminatórias, os atacantes Mateo Retegui e Moise Kean dividiram a artilharia, com cinco gols cada um, enquanto o ala Dimarco foi quem mais distribuiu passes para gol: quatro. São os nomes nos quais Gattuso, que fala em "decepeção e grande golpe" em caso de nova derrota, pode se apoiar.

Autor de um dos gols sobre a Irlanda do Norte, Tonali atua no Newcastle

Alberto PIZZOLI / AFP

— Tenho orgulho de tudo que fiz com a seleção até agora. Houve alegria e dor, perdi duas Copas (era reserva em 2017) e queremos levar a Itália de volta para onde merece. Só nós sabemos como sofremos por não chegar à Copa, então precisamos aprender com essas experiências ruins e colocar tudo no campo. Queremos trazer alegria aos italianos e a nós, porque sinto que merecemos por tudo que temos feito — desabafou o capitão Donnarrumma à emissora Sky Sports.

Comemoração polêmica

Um vídeo polêmico esquentou a partida desta terça dias antes dela acontecer. Dimarco e outros atletas foram flagrados pela emissora italiana RAI comemorando a classificação da Bósnia (nos pênaltis) sobre o País de Gales na outra semifinal da chave, depois de vencerem a Irlanda do Norte (2 a 0) e garantirem a vaga na decisão. Posteriormente, Dimarco negou desrespeito e falou em "reação instintiva".

Capitão da Bósnia, o experiente atacante Edin Dzeko afirmou que assistiu ao vídeo, considerou "normal" que haja preferências e disse até que não gostaria de enfrentar a Itália, mas cutucou:

— Não sabemos por que eles não queriam jogar em Gales. Nós fomos lá, sem medo, e ganhamos. Não sei por que eles teriam medo de Gales ou da Bósnia. Têm uma seleção incrível, que já ganhou quatro Copas. Se estão com medo de jogar em Gales, algo está errado.

Gattuso, técnico da Itália

Alberto PIZZOLI / AFP

Perguntado sobre a polêmica, Gattuso admitiu o erro de seus jogadores, fez elogios a Dzeko e pregou respeito à Bósnia:

— Apesar do que aconteceu, sabemos que não há diferença entre Gales e Bósnia. A polêmica surgiu e Federico (Dimarco) fez bem em explicar. Mas, honestamente, não é clichê dizer que será uma partida difícil e os respeitamos.