Irã concordou em 'jamais' estocar urânio enriquecido, afirma mediador de negociações com os EUA

 

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O chanceler de Omã, país que media as negociações entre EUA e Irã em torno do programa nuclear iraniano, afirmou nesta sexta-feira que Teerã concordou em "jamais" acumular urânio enriquecido, como parte das concessões para um acordo com Washington. Na quinta-feira, os dois lados voltaram a se reunir em Genebra e falaram em avanços à mesa, mas o presidente Donald Trump expressou sua insatisfação com a ausência de texto final, deixando em aberto a possibilidade de uma intervenção militar.

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Em entrevista ao programa Face The Nation, da rede CBS News Badr Albusaidi, disse que os iranianos concordaram em "nunca, jamais acumular material nuclear capaz de ser usado em uma bomba", e que os estoques de urânio enriquecido hoje no país seriam diluídos "ao nível mais baixo possível". Teerã ainda concorda com o retorno dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), que terão "acesso total" às instalações nucleares.

— Não haverá acúmulo, nem estocagem, e haverá verificação completa — disse Albusaidi, sem descartar uma eventual presença de inspetores americanos. — Um acordo de paz está ao nosso alcance.

Representantes do Irã e dos EUA não se pronunciaram.

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Os estoques de urânio enriquecido do Irã são um dos pontos mais complexos das negociações com os EUA. Estima-se que Teerã tenha 400kg do material enriquecido a 60%, nível próximo do necessário para uso militar (acima de 90%), e países ocidentais viam esse cenário como um passo crucial para o desenvolvimento de uma bomba atômica, o que o Irã nega.

Pelo acordo internacional firmado em 2015, rasgado por Trump em 2018, os iranianos poderiam armazenar 300kg de urânio enriquecido a no máximo 3,67%, adequado para uso civil, e permitiam inspeções mais intrusivas em troca do fim do bloqueio econômico e do retorno do Irã aos mecanismos de comércio exterior. Contudo, com a saída dos EUA e a retomada das sanções, os iranianos passaram a descumprir os limites, acelerando o ritmo de enriquecimento e o desenvolvimento de novas centrífugas, além de barrar inspeções da Aiea.

Embora demonstre otimismo com o rumo do diálogo, Albusaidi disse que "precisamos de um pouco mais de tempo", citando conversas técnicas previstas para segunda-feira, em Viena, e para ajustes que serão realizados com os representantes dos dois lados. Questionado, o diplomata disse esperar que os progressos até o momento tenham sido suficientes para evitar um ataque americano. Na última reunião, na quinta-feira, não houve anúncio de um acordo, mas os negociadores sinalizaram avanços.

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Desde o início do ano, Trump acumulou uma importante presença militar nos arredores do Oriente Médio, com dois grupos de ataque de porta-aviões, aeronaves de combate e sistemas de defesa aérea, e sugeriu a diplomatas e funcionários do governo americano em países como Líbano e Israel que deixassem a área.

Nesta sexta-feira, ele disse a jornalistas que "não estamos exatamente satisfeitos com a forma como negociaram", e que o regime "não pode ter armas nucleares". Quando perguntado sobre suas forças no Oriente Médio, afirmou que "adoraria não precisar usá-las, mas às vezes é necessário".

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Mais tarde, em comício no estado do Texas, afirmou que seu objetivo é vetar as atividades de enriquecimento de urânio no Irã, e declarou que ainda não tomou uma decisão sobre um ataque, um cenário que o alto comando do Pentágono não considera ser o melhor dos mundos.

— Temos uma grande decisão a tomar — disse o presidente, recorrendo ao longo histórico de animosidade entre os dois países. — Temos um país que, há 47 anos, vem explodindo pernas e braços de pessoas. Eles querem fazer um acordo, mas precisamos de um acordo que seja significativo. Prefiro fazer isso de forma pacífica. Mas eles são pessoas muito difíceis.