Em negociações, Irã ofereceu suspender atividades nucleares por 5 anos, mas EUA queriam pausa de 20 anos
Durante as fracassadas negociações sobre a guerra de EUA e Israel contra o Irã, no fim de semana, um ponto surgiu como o principal obstáculo a um acordo: o futuro do programa nuclear iraniano, acusado de ter fins militares (o que Teerã nega). Segundo a imprensa americana, os EUA exigiram a suspensão total do enriquecimento de urânio por 20 anos, além da retirada de material enriquecido do país. Na contraproposta, o Irã sugeriu nesta segunda-feira um prazo menor, de cinco anos, com menos restrições do que exigia Washington.
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De acordo com o jornal New York Times, citando fontes no governo americano, os iranianos se mostraram dispostos a uma pausa de cinco anos em suas atividades nucleares, mas rejeitaram se livrar do material enriquecido — estima-se que o país tenha cerca de 440 kg de urânio enriquecido dentro do país. Ao invés disso, relata a publicação, se ofereceram para diluir o material a um grau que impeça seu uso em armas nucleares, proposta similar à feita nas negociações interrompidas pela guerra, em fevereiro. A oferta foi recusada por Washington.
No fim de semana, como revelou o portal Axios, os americanos exigiram a suspensão do enriquecimento por 20 anos e que todo o material enriquecido em instalações iranianas seja retirado do país. Os russos, aliados de Teerã, já se ofereceram para receber o urânio como parte de um futuro acordo com os EUA. Em 2015, como parte do hoje finado acordo internacional sobre o programa nuclear do Irã, que limitava a quantidade de material enriquecido dentro do país, a Rússia recebeu 11 toneladas de urânio.
Diplomatas que acompanharam as discussões no Paquistão relataram que a questão nuclear foi o principal ponto de discórdia entre EUA e Irã. Um dos objetivos apresentados pelo presidente americano, Donald Trump, para a guerra é impedir que o regime em Teerã obtenha uma arma nuclear.
Durante os ataques de junho do ano passado ele determinou que instalações de enriquecimento fossem atacadas. Na ocasião, Trump disse que havia “obliterado” o programa nuclear iraniano, algo que seus serviços de inteligência não comprovaram. Na atual guerra, uma operação terrestre para capturar o material enriquecido dentro do Irã chegou a ser cogitada, afirmou a imprensa dos EUA.
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Embora os prazos sugeridos pelos dois lados sejam distintos, a sua discussão pelos negociadores mostra que o diálogo está aberto entre Teerã e Washington. Para mediadores ouvidos pelo Axios, um desafio a ser superado é a falta de confiança sobre a mesa. Ainda não há uma data para uma nova reunião, tampouco se sabe se haverá uma.
“As negociações de Islamabad lançaram as bases para um processo diplomático que, se a confiança e a vontade forem fortalecidas, poderá criar uma estrutura sustentável que atenda aos interesses de todas as partes”, disse o embaixador iraniano no Paquistão, Reza Amiri Moghadam, na rede social X.
Os diplomatas iranianos lembram que as últimas duas rodadas de negociações foram interrompidas por ações militares, e até pouco tempo havia a suspeita de que uma nova reunião serviria para assassinar os representantes de Teerã. Segundo o Axios, os representantes do Irã acreditavam, até a manhã de domingo, que um acordo preliminar era possível, mas foram surpreendidos pela saída da delegação americana, anunciada pelo vice-presidente, JD Vance, em Islamabad. Horas depois, Trump disse que iria impor um bloqueio naval aos portos iranianos, que entrou em vigor nesta segunda-feira.
— Os iranianos ficaram furiosos com aquela entrevista coletiva — disse uma fonte com acesso às discussões ao Axios.
