Iole de Freitas inaugura exposição em SP e inspira coleção de joias: ‘Quero ampliar minha linguagem plástica’

 

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Do alto do décimo terceiro andar do prédio onde mora, no bairro das Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, Iole de Freitas observa o tempo através da coloração do céu. Faz isso, muitas vezes, a partir das 4h30m, quando já está de pé e espera o alvorecer despontar no horizonte que abrange os topos dos edifícios vizinhos e a Baía de Guanabara. “Delineio a luz, fazendo o percurso de seu surgimento com os violáceos, depois os magentas e os rubros... E aí vai aumentando, até ficarem os laranjas, quando o sol já nasceu”, descreve a artista, de 80 anos, inspirada também pelas tonalidades do anoitecer.

Vem daí o nome da exposição “Noturno sem pé e cabeça”, que ela inaugura no dia 9 de abril, na Galeria Raquel Arnaud, em São Paulo. Entre as obras exibidas, há uma sequência de esculturas pensadas como fotogramas que refletem essa variação de cores. Um trabalho que guarda um dos mais recentes ineditismos da inquieta artista mineira radicada no Rio. Pela primeira vez, o violeta aparece em suas criações. “O ‘noturno’, para mim, é a compressão de uma relação temporal, um tempo que tenho que aguentar. É quase sólido e custa a passar”, observa. “E pode ser tanto o escurecido de antes do amanhecer quanto aquele que vai surgir no anoitecer.”

A investigação reflete um aspecto que o curador da individual, Felipe Scovino, considera fulcral no trabalho de Iole. “Ela tem uma vontade de experimentação em todos os sentidos”, diz ele, cuja relação com a artista se estreitou há pouco mais de um ano, em meio a visitas ao ateliê dela, na Glória. “Iole está sempre inovando quanto ao uso das cores e às técnicas. Mas tem um detalhe importante: mantém, o tempo todo, a coerência.”

O mesmo aparece em outra novidade: a coleção de joias inspirada em suas obras que acaba de ser lançada pela HStern. Um trabalho minucioso articulado ao longo de dois anos de intensas trocas, com incursões da artista em todo o processo da joalheria, do design à ourivesaria e ao polimento. As peças trazem a fluidez e as torções de suas já consagradas formas escultóricas, assim como um de seus principais materiais: o aço. Uma constante em sua produção, sobretudo a partir de 2015, quando ela fez uma escultura para o Espaço Monumental do Museu de Arte Moderna do Rio. “Gosto da firmeza, dessa certa rebeldia em aceitar uma forma que lhe é imposta”, ela comenta.

Escalas foram reduzidas de metros para centímetros para dar vida ao que Iole classifica como “obras vestíveis”. “São feitas para iluminar o corpo”, define. E ressalta o quanto deseja que isso se aplique a pessoas de diferentes gêneros, etnias e identidades. “Quero vê-las em homens e mulheres trans, assim como vários amigos gays querem vesti-las”, diz. A mesma preocupação foi demonstrada quanto ao conforto dos itens, marcados por detalhes como linhas de ouro e diamantes em referência às flechas que atravessam as suas esculturas. “Joia não pode ficar ‘pegando’ no cabelo ou na pashmina de seda da coleguinha.”

Diretor artístico da joalheria, Roberto Stern diz ter se empenhado tão profundamente nessa odisseia, que até ele se viu dobrando chapas de metal com alicate. “Foi o trabalho mais difícil que já executamos. Cada peça foi feita à mão. Mesmo que as diferenças entre elas passem despercebidas, não são exatamente idênticas”, descreve. “Mas foi tudo executado com muito amor. Mergulhamos no mundo dela, porém não fizemos algo literal. Ainda assim, as joias refletem fortemente o trabalho de uma mulher pequena e doce, mas que se expressa com tanta força em criações gigantes.”

A memória impressa nas obras de Iole carrega o legado de mais de 50 anos de uma robusta trajetória profissional. Nascida em Belo Horizonte, a artista estudou dança contemporânea e se formou na Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi), da Uerj. Na década de 1970, mudou-se para uma efervescente Milão, onde trabalhou por oito anos como designer na Olivetti e começou a desenvolver seus primeiros trabalhos em artes visuais.

Era uma época em que caminhos abertos por nomes como Lucio Fontana e Piero Manzoni faziam da cidade italiana um centro de experimentações quanto a técnicas, materiais e linguagens que irradiariam pelos rumos da arte contemporânea. Por essa via, Iole escoou suas investigações, em obras que passam por fotografia, vídeo e performance. Uma trajetória sólida o suficiente para conferir-lhe prestígio internacional com intervenções históricas, como a ocasião em que “furou” a fachada do Museu Fridericianum, em Kassel, com suas esculturas, em 2007. “Os alemães queriam me estrangular”, diverte-se. “Mas esse atrito sobre a quem pertencem os espaços sempre me interessou.”

Nos trabalhos mais recentes, contudo, as investigações arquitetônicas têm cedido lugar a um interesse cada vez mais profundo pela natureza. “A minha geração foi muito influenciada pelo período concreto, que vem da vanguarda russa e está sempre em diálogo com o espaço e as edificações”, reconhece. “Mas, de repente, sou invadida e engolida por uma noção estruturante de que somos natureza. E isso me comove muito. Com esses últimos anos que me são dados, tenho a possibilidade de estar cada vez mais em contato com esse grupo de inteligências e sensibilidades humanas trazidas à tona pelas falas dos povos originários e da cultura afro.”

Ao citar os “últimos anos”, Iole descortina a serenidade com a qual lida com a passagem do tempo. “É fluxo sempre”, resume a artista, estudiosa do espiritismo. “Tenho uma noção da finitude do corpo e da estrutura psíquica que detenho nesta vida, neste planeta incrível e nesta geração. Não sei o que acontece depois, mas sei que continua”, pondera. “O que me interessa é quanto tempo ainda tenho. E, então, quero ampliar e expandir o mais fortemente possível uma linguagem plástica pela qual me interessei desde muito pequena.”

Palavras de alguém que molda o tempo com a mesma perspicácia de quem é capaz de domar a rebeldia do aço. Cerca de três anos atrás, às vésperas da inauguração da individual “Colapsada, em pé”, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, Iole dançou com o neto, o bailarino Bento Dias, para o registro de uma obra. Ao fazer um movimento, sofreu uma queda. “Sou entusiasmada. A cabeça vai na frente das pernas”, diz ela, que foi parar no hospital e precisou colocar 14 parafusos nas costas. A internação, contudo, só se deu horas depois da conclusão do trabalho, devidamente registrado por sua única filha, Rara, do casamento com o artista Antônio Dias (1944-1998). “Tinha uma combinação com eles: ‘Se cair, ninguém vem socorrer mamãe ou vovó’. Como me levantei e ainda consegui fazer o movimento com a mão que havia planejado, ganhamos o trabalho.”

Todo esse vigor tem sido testemunhado — e registrado — pela roteirista Maria Camargo, que reúne filmagens de Iole há 15 anos para um documentário com lançamento previsto para 2027. “Quando acho que estou finalizando as gravações, ela aparece com uma coisa nova”, comenta a diretora. “O projeto tem se estendido por todos estes anos justamente porque há um encantamento do tempo atuando nele. Ela vai criando mundos e tem muitas primeiras vezes. E isso tudo vai nascendo diante dos nossos olhos. É uma figura icônica da cultura brasileira e atravessou gerações com interesses renovados. A cada vez que estou com ela, sinto-me rejuvenescida.”

Foi com este astral que a artista celebrou, com uma superfesta no Museu de Arte Moderna do Rio, os seus 80 anos, em dezembro do ano passado. A pedido dela, utilizou-se o menor número possível de cadeiras no salão para que ninguém se sentasse e a pista de dança pulsasse tanto quanto a aniversariante. “Ela dançou até 1h30m da manhã. Foi a celebração mais bonita que já vi”, conta Maria. Coisas de quem comemora os anos enquanto mira o horizonte com entusiasmo. Os próximos passos de Iole incluem a inauguração de um pavilhão no Parque Geminiani Momesso, em Ibiporã, no Paraná, enquanto já prepara uma exposição para a Casa Roberto Marinho, prevista para o ano que vem. “Quero fazer tudo rápido porque acho que ainda tenho muito a colaborar, interferir, desobedecer e questionar. Enfim... a aproveitar.”