Setenta e dois por cento dos consumidores do país declaram já ter recorrido ou ter disposição para acionar agentes de inteligência artificial (IA) nas suas compras imediatas ou dentro de um horizonte de 12 meses. Os números integram o estudo Agentic Commerce Report 2026, publicado em 13 de outubro de 2026 pela companhia de tecnologia e softwares financeiros Global Payments em parceria com a Worldpay.
O patamar registrado representa quase o dobro do índice de 39% verificado na medição anterior e posiciona o mercado nacional no segundo lugar do ranking global entre sete países pesquisados, superado somente pela China. A fatia de 72% de abertura às ferramentas automatizadas no varejo nacional reúne dois grupos distintos de usuários: 24% dos participantes afirmam que já realizaram aquisições intermediadas por robôs de IA, enquanto outros 48% manifestam o plano de estrear no formato ao longo do período de até um ano.
“O que mais chama atenção é o nível de adoção do Brasil, que está crescendo de uma forma totalmente acelerada”, disse Juan Pablo D’Antiochia, gerente-geral de Enterprise da Global Payments para a América Latina. Na avaliação focada no comércio agêntico, modalidade em que sistemas de inteligência artificial autônomos pesquisam itens, comparam preços, selecionam mercadorias e executam o pagamento em nome do titular, a recusa absoluta no mercado interno caiu de 27% na primeira leitura para 6% em 2026.
A parcela restante de 22% dos entrevistados respondeu que talvez adote o recurso tecnológico. Esse avanço de 33 pontos percentuais na soma de uso efetivo e intenção de compra foi o mais expressivo entre todas as economias monitoradas pelo levantamento, ficando acima do crescimento observado na China (22 pontos percentuais), na França (21 pontos) e no Reino Unido (18 pontos).
Segundo a análise de Juan Pablo D’Antiochia, a projeção preliminar dos pesquisadores indicava que regiões com marcos regulatórios mais rígidos na proteção ao consumidor, a exemplo do continente europeu, apresentariam maior receptividade inicial à delegação de compras. Na prática, porém, o ritmo de deslocamento nas metrópoles puxou a procura interna por soluções automatizadas.
“Quando você olha as grandes cidades brasileiras, vê essa necessidade de tempo da pessoa que está o dia todo na rua, indo de um lado para outro. Esse consumidor tem uma necessidade urgente de delegar atividades”, afirmou o executivo.
O levantamento foi elaborado pela consultoria The Lantern em maio de 2026 a partir de entrevistas com 8.027 consumidores distribuídos em sete mercados globais, avaliando categorias como varejo, viagens, serviços financeiros, alimentação e conteúdo digital. Os índices de adoção ou intenção de uso de agentes de IA e as notas médias de confiança (medidas na escala de 1 a 5) por país ficaram distribuídos da seguinte maneira:
Ainda que a propensão para terceirizar tarefas de consumo tenha subido, exatos 50% dos respondentes no país apontam a segurança das informações de pagamento como o principal obstáculo para liberar a atuação de agentes de IA. Na sequência das preocupações aparecem a privacidade e o tratamento de dados pessoais, mencionados por 45% dos participantes da amostragem nacional, ao passo que 41% demonstram temor de que o software tome decisões equivocadas na hora de fechar o pedido.
No recorte global da pesquisa da Global Payments, 80% dos consumidores abertos ao uso de inteligência artificial nas compras aceitam que o agente exerça algum papel na etapa de pagamento, mas 59% ainda fazem questão de aprovar cada transação individualmente antes da cobrança. Para aumentar a confiança nas plataformas autônomas no mercado doméstico, o público ouvido enumerou salvaguardas técnicas e regras de responsabilidade civil que condicionam a expansão da tecnologia.
Entre os entrevistados no país, 41% exigem uma etapa de confirmação prévia antes que o robô conclua a compra, outros 41% cobram o envio de alertas instantâneos de transação, 34% pedem comprovação de blindagem contra ataques cibernéticos e 33% defendem regras claras sobre quem arca com o prejuízo em caso de falha operacional.
“Estamos entrando em uma fase em que a conversa deixa de ser sobre o que a IA é capaz de fazer e passa a ser sobre o que os consumidores estão dispostos a delegar”, declarou D’Antiochia. De acordo com o dirigente da Global Payments, a transferência de autonomia para os algoritmos tende a se consolidar primeiro em mercadorias padronizadas, que apresentam baixa variação entre fabricantes e estão disponíveis em múltiplas vitrines digitais.
“Quando frete, condições de entrega, etc., são iguais, ganha o mais barato, ou o promotor mais amigável”, disse. Veja também: Presidente da Google DeepMind alerta para perigos iminentes da inteligência artificial
O crescimento dos softwares autônomos de compra levou grandes operadores do comércio eletrônico a priorizarem ferramentas proprietárias ao mesmo tempo em que fecham o cerco contra robôs de empresas concorrentes. Desde o dia 20 de setembro de 2026, a Amazon implementou o bloqueio do agente de inteligência artificial Muse, que havia sido lançado pela Meta em 8 de setembro de 2026.
A varejista impediu que o assistente externo executasse transações dentro de sua plataforma sob a justificativa de descumprimento dos termos de serviço, ausência de identificação clara e coleta de credenciais de acesso, enquanto direciona recursos para consolidar seus próprios sistemas automatizados, denominados Alexa for Shopping e Buy for Me.
Na avaliação de Juan Pablo D’Antiochia, as grandes plataformas de marketplace devem manter a estratégia de privilegiar seus assistentes nativos antes de abrir o ecossistema para agentes independentes de terceiros. “Há shoppings em que você entra por uma loja e depois acessa o resto do shopping.
Todo mundo quer ser essa loja, né? Essa loja é onde você tem que passar de forma obrigatória”, afirmou o executivo ao traçar um paralelo sobre a disputa pelo controle da porta de entrada do consumidor. Os números apurados em 2026 mostram aceleração frente aos dados colhidos na primeira edição da Pesquisa Internacional de IA Agêntica, aplicada entre os meses de agosto e setembro de 2025 junto a aproximadamente 8 mil consumidores das mesmas sete nações.
Naquele levantamento inaugural, o mercado nacional registrava 39% de intenção de uso das ferramentas e uma nota média de confiança de 3,18. Essa mudança de hábito já se reflete no fluxo de navegação das lojas virtuais: um mapeamento da plataforma Similarweb compilado pelo banco BTG Pactual revela que o tráfego direcionado a sites de varejo a partir de ferramentas de inteligência artificial cresceu 203% no intervalo entre junho de 2025 e maio de 2026, passando a responder por cerca de 0,4% de todas as visitas do setor.
Nos marketplaces, o volume de acessos mensais originados por sistemas de IA atingiu a marca de 46,8 milhões, o que configura uma expansão anual de 237%. Uma segunda radiografia do mercado, o estudo Global Digital Shopping Index 2026 – Brazil, publicado pela Visa Acceptance Solutions em setembro de 2026, confirmou que 53% dos compradores online do país já acionaram recursos de inteligência artificial em pelo menos uma etapa recente de sua jornada de consumo.
Na contramão do apetite demonstrado pelos usuários, o relatório da Visa constatou um gargalo técnico na infraestrutura das empresas: somente 15% dos varejistas em atividade no território nacional contavam com catálogos e dados de produtos devidamente estruturados para permitir a leitura direta e automatizada por agentes de inteligência artificial.
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