Inadimplência em condomínio dispara no Norte e no Nordeste

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Fonte da notícia: Valor Valor

A inadimplência condominial atingiu principalmente as regiões mais pobres do Brasil, no primeiro semestre deste ano. Em algumas localidades, ficou acima da média do país.

O alerta é de estudo sobre o tema da uCondo, empresa de tecnologia para gestão condominial, que atende sete mil condomínios e mais de 700 mil usuários. O estudo foi realizado no primeiro semestre, por meio de mapeamento em 3,5 mil condomínios da base da uCondo, nas cinco grandes regiões do país.

Nesse universo, 12,5% da amostra informaram inadimplência superior a 30 dias na taxa condominial. Essa taxa de inadimplência média, no país como um todo, foi a maior desde começo de série da pesquisa, em 2022, informou Leonardo Mack, diretor de operações da uCondo.

O valor médio nacional do condomínio também subiu, de R$ 413 no primeiro semestre de 2022, para R$ 538 nos primeiros seis meses de 2026, alta de 30,3%. No entanto, o dado é mais preocupante no recorte regional da pesquisa.

As regiões Norte e Nordeste, com os menores Produto Interno Bruto (PIB) do país, registraram taxa de inadimplência de 19,09% e de 12,71% no primeiro semestre, respectivamente, acima da média nacional. E, no caso do Norte, também foi a maior parcela de série do estudo.

Em contrapartida, as outras localidades tiveram resultado inferior ao da média. É o caso das taxas de inadimplência encontradas nas regiões Sul (11,61%), Sudeste (12,28%) e Centro-Oeste (8,52%).

Essa maior taxa de inadimplência nas regiões mais pobres do país ocorre justamente em localidades onde a parcela condominial tem valor inferior ao da média nacional. No Norte e Nordeste, o valor médio ficou em R$ 441,90 e em R$ 486,47, respectivamente, no primeiro semestre, segundo o estudo.

Um aspecto que não ajuda a diminuir o patamar de inadimplência, em localidades mais pobres, é o fato de que trata-se de despesa que o condômino de menor renda sabe que pode “empurrar” para frente, sem prejuízo imediato, admitiu Mack. O especialista ponderou que o mesmo não ocorre em pagamento de serviços essenciais, como contas de luz e de água.

Em caso de ausência de pagamento desses serviços, observou, ocorre corte em fornecimento. Mas ninguém é expulso de casa imediatamente após atrasar taxa condominial por mais de um mês, reconheceu.

“Outro fator é o encarecimento das taxas condominais [nos últimos meses]”, acrescentou. Isso se deve não somente à energia e fornecimento de água mais caros, que também se incorporam no valor da taxa, explicou.

O valor da mão-de-obra, pago a prestadores de serviço, e os passivos trabalhistas são o grande componente para aceleração da taxa, disse. “Da última vez que fizemos levantamento sobre o tema, quase metade [do valor total da taxa condominial] era correspondente a pagamentos de serviços de zeladoria e manutenção, reforma, fachada, pintura”, afirmou.

As afirmações de Mack vão ao encontro de informações oficiais sobre o tema. No Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de inflação do país calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a variação da taxa condominial no país acumula alta de 4,26% em 12 meses até setembro, maior patamar desde janeiro (4,77%).

Para o especialista, a taxa condominial poderia subir menos e, assim, afetar de forma menos intensa condôminos de regiões mais pobres, com a ajuda de profissionalização maior, de administração dos prédios. Na prática, opinou, muitas vezes a gestão condominial, no Brasil, tem histórico de priorizar manutenção de serviços essenciais, como segurança e portaria, optando por cortar outros serviços de manutenção e prevenção.

E, quando ocorre algum problema estrutural, os custos de prestadores de serviços ficam mais caros, elevando o valor de condomínio, disse. “Existe tendência de aumento da taxa condominial”, alertou.

“Nem sempre essa taxa de inadimplência [na pesquisa da uCondo] foi de dois dígitos”, recordou. E, quanto maior o valor do condomínio, mais difícil para condôminos, em regiões mais pobres, ficarem em dia com suas obrigações, reconheceu.

O cenário de inadimplência condominial é complexo em todo o país e exige estratégias para quem tem que lidar com a inadimplência direto da fonte. Em Santa Catarina, Guilherme Pereira, administrador de mais de 158 condomínios, e na profissão desde 2019, disse que, para tentar conter maior avanço de não pagamentos, envia mensagens de cobranças e lembretes periódicos, de pagamento da taxa, aos devedores.

Já Alan Pontes, síndico profissional há oito anos em São Paulo, e atualmente responsável por 12 condomínios, chega a criar plantões de negociação para tentar organizar valores em inadimplência, junto com setor jurídico. “Se recebo um condomínio com a inadimplência muito alta, acabo por acionar um [aconselhamento] jurídico para auxiliar nessa mediação”, explicou.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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