'Impacto severo', ortopedista vê aumento na quantidade de acidentes com motocicletas e na gravidade das lesões
Só no fim de semana da Páscoa, 41 pessoas deram entrada no Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, vítimas de acidentes envovendo motocicletas. O Corpo de Bombeiros registrou, até a sexta-feira passada, 14.303 ocorrências envolvendo motocicletas no estado: 9.115 colisões, 4.382 quedas e 806 atropelamentos. Na capital, o cenário também é contundente. Nos primeiros três meses deste ano, foram realizados 12.071 atendimentos a vítimas do trânsito nas unidades de saúde do município. Desses, 8.506 estavam em motos, o equivalente a 70,47% do total.
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A realidade chama a atenção de profissionais que acompanham de perto o aumento tanto na quantidade dos acidentes, quanto na gravidade das lesões decorrentes deles. Na entrevista abaixo, o médico Marcos Musafir, coordenador da Comissão de Campanhas Públicas da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) fala sobre o problema que muitos já classificam como uma espécie de "epidemia": "
Há um grande número de registros de atendimentos a vítimas de acidentes envolvendo motocicletas no Rio. Só os bombeiros já socorreram mais de 14 mil pessoas no estado nos primeiros meses deste ano. A moto é, de fato, um problema de saúde pública hoje?
Marcos Musafir — No levantamento feito no ano passado pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia com 190 hospitais no Brasil que formam residentes em ortopedia e traumatologia, a média é de 70% dos leitos ocupados por vítimas de acidentes com motocicleta. Isso afeta toda a cadeia do sistema de saúde. Cirurgias eletivas, como menisco, próteses de quadril e joelho ou hérnias de disco, deixam de ser realizadas porque os leitos estão ocupados. Então a resposta é sim: há impacto severo.
Como enfrentar de forma eficiente esse problema?
Marcos Musafir — A motocicleta, da forma como está sendo usada, decorre de um fenômeno social. Há a economia de tempo pela agilidade do veículo, o baixo custo do combustível, a possibilidade de evitar o transporte público, que ainda é deficitário, e também de gerar renda, seja como mototáxi ou com entregas. É um fenômeno irreversível, na minha visão. Precisamos nos adaptar para enfrentá-lo, organizar o ambiente do trânsito para esse usuário e, assim, diminuir os impactos no trauma. A principal causa das lesões são quedas em alta velocidade.
Isso pode tornar as lesões mais graves...
Marcos Musafir — De fato, as lesões também se tornaram mais graves. A explicação é a energia do trauma. Costumo usar um exemplo simples: um copo de vidro que cai no chão pode quebrar em poucos ou muitos pedaços. Se você o arremessa com mais força, ele tende a se fragmentar mais. No caso dos acidentes, a velocidade maior aumenta a energia do impacto. Essa força, ao atingir uma estrutura como a perna, se distribui e provoca múltiplas lesões. É uma questão de biomecânica do impacto. Antes, uma fratura exposta podia ser estabilizada com fixador externo, consolidar e evoluir bem. Hoje há explosões ósseas e articulares, com maior complexidade, mais tempo de internação, maior uso de material cirúrgico e ocupação prolongada dos leitos.
Que papel os médicos podem exercer para tentar conscientizar a sociedade em realção ao problema?
Marcos Musafir — Como ortopedistas, podemos alertar e pedir atenção das autoridades para criar ambientes mais seguros: vias bem planejadas, melhor sinalização, uso de tecnologia para identificar motocicletas no trânsito, câmeras e chips nos veículos. É preciso aprofundar essa discussão para proteger vidas.
Há também o impacto social dessas ocorrências.
Marcos Musafir — Sem dúvida. Os mais afetados são geralmente jovens que podem ficar incapacitados para o trabalho ou para outras atividades, gerando um peso para a família. Muitos contribuem para o sustento familiar, e um acidente pode levar à piora da qualidade de vida de todos. Além disso, há custos com reabilitação, medicamentos e equipamentos. É um fenômeno com grande repercussão tanto no atendimento imediato quanto na reabilitação.
