Uma contagem realizada por voluntários às margens do rio Tâmisa, em Londres, identificou 733 lenços umedecidos em 50 áreas de amostragem, menos da metade dos 1.584 encontrados nos mesmos pontos em abril. A redução foi registrada após a abertura de um túnel para diminuir o despejo de esgoto no rio e a retirada de uma ilha de 180 toneladas formada pelo acúmulo desses resíduos.
Vídeo: Universidade cria escultura de monstro de 15 metros feita com lixo para alertar sobre poluição nos oceanos Cinco filhotes de orangotango ameaçados de extinção são resgatados em floresta na Índia A contagem faz parte de um projeto de ciência cidadã coordenado pela organização ambiental Thames21, que monitora há quase uma década a poluição causada por resíduos sanitários nas margens do Tâmisa. Cerca de 40 voluntários participaram da atividade em um trecho de 250 metros próximo à ponte Hammersmith, onde lenços se acumulam entre lama, conchas e pedaços de madeira. O levantamento conta com a colaboração de pesquisadores hidrográficos da Autoridade Portuária de Londres, que delimitam as áreas de coleta. Os voluntários utilizam molduras quadradas para demarcar os pontos de amostragem e ferramentas metálicas para revolver o sedimento. Os lenços encontrados são contabilizados e registrados em uma base de dados sobre a poluição plástica nas margens do rio. Ilha de resíduos alterava o curso do rio Um dos principais problemas identificados na região foi a chamada “Ilha dos Lenços Umedecidos”, uma formação de resíduos que chegou a pesar 180 toneladas e começou a modificar o formato do rio. Meses depois da abertura do túnel Tideway, em 2025, máquinas removeram o material acumulado no local.
A Thames21 estima que a operação retirou cerca de 5 milhões de lenços, que haviam se aglomerado em uma estrutura de aproximadamente 250 metros. O túnel Tideway, conhecido como “superesgoto”, é um projeto de 4,6 bilhões de libras destinado a reduzir o despejo de esgoto no Tâmisa. A obra entrou em operação em 2025, após atrasos, e integra as iniciativas para conter a poluição do rio. A região próxima à ponte Hammersmith é especialmente propícia ao acúmulo de resíduos. Segundo Jim Powell, gerente de operações e pesquisador hidrográfico da Autoridade Portuária de Londres, o trecho fica na parte interna de uma curva do rio, onde a correnteza é mais lenta. — Quando pedaços de madeira e pneus ficam presos, começam a reter sedimentos, e outros materiais, como os lenços plásticos, também acabam se acumulando. O processo cresce progressivamente — explicou Powell ao The Guardian. Lenços podem se transformar em microplásticos Muitos lenços umedecidos contêm fibras plásticas e são fabricados para manter a estrutura mesmo quando estão molhados. A característica dificulta sua decomposição, inclusive no caso de alguns produtos comercializados como biodegradáveis. Voluntário monitorando o impacto de lenços umedecidos na margem do Tâmisa Divulgação | Thames21 A Thames Water, empresa responsável pelo abastecimento de água e pelo tratamento de esgoto na região, estima que 3,8 bilhões de lenços sejam descartados em sua rede todos os anos. Segundo a companhia, o volume seria suficiente para construir mais de dez réplicas do Big Ben com os resíduos úmidos e malcheirosos. A preocupação ambiental vai além da poluição visual. Parte do plástico pode se fragmentar em partículas menores e chegar ao oceano, com potencial de entrar na cadeia alimentar marinha. Venda de lenços com plástico será proibida Outra medida para enfrentar o problema foi anunciada pelo governo britânico em dezembro do ano passado. A partir de maio de 2027, será ilegal vender lenços umedecidos descartáveis que contenham plástico no Reino Unido.
A decisão representou uma vitória para a Thames21, que há anos reúne dados sobre a poluição e compartilha os resultados com a deputada Fleur Anderson, representante de Putney, que defendeu a restrição no Parlamento. Apesar da queda observada na contagem mais recente, os pesquisadores ressaltam que são necessárias novas medições para avaliar a tendência. Duas amostragens, isoladamente, não permitem determinar se a redução decorre da retirada da ilha de resíduos, da entrada em operação do túnel ou de mudanças nas condições do rio.
O Globo