Ideia de que EUA poderiam confiscar ouro alheio já não parece improvável, diz Nobel de Economia

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Fonte da notícia: Valor Valor

A ideia de que o governo dos EUA poderia inventar uma desculpa para confiscar o ouro de outros países guardado no Federal Reserve (Fed, o banco central americano) já não parece tão improvável, segundo o economista Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2008. Em artigo publicado na plataforma Substack nesta sexta-feira (4), intitulado "Lingotes em que não confiamos mais", Krugman afirma que as nações estão tomando precauções contra este risco.

No artigo, o Nobel de Economia lembra que os bancos centrais detêm reservas de ouro avaliadas em trilhões de dólares e, por vezes, vendem esse ouro uns aos outros para liquidar pagamentos internacionais. "Contudo, essas transferências raramente envolvem o deslocamento físico do ouro através das fronteiras. Uma grande parcela das reservas mundiais de ouro encontra-se, na verdade, em um cofre subterrâneo do Federal Reserve Bank de Nova York, embora o Fed de Nova York movimente barras de ouro entre diferentes compartimentos quando ocorrem transferências", escreve. Leia também: Trump pressiona Fed e diz que taxa de juros alta coloca EUA em desvantagem: 'Não vou permitir isso'

"No início desta semana, o banco central holandês anunciou a transferência de cerca de US$ 12 bilhões em ouro do cofre de Nova York para o cofre do Banco da Inglaterra (BoE, o banco central britânico), em Londres. Essa medida segue-se a uma iniciativa semelhante do banco central francês, que transferiu uma quantia ainda maior de Nova York para Paris. Outros países estão cogitando movimentos parecidos", diz o economista.

De acordo com Krugman, o impacto econômico ou financeiro direto dessas ações será mínimo. "Não haverá sequer grandes remessas transatlânticas de ouro: bancos centrais estrangeiros venderão seu ouro armazenado em Nova York para compradores privados nos EUA e reporão seus estoques comprando de vendedores privados na Europa", afirma.

O economista destaca que a inviolabilidade da propriedade das nações sobre o ouro armazenado em Nova York é garantida pela palavra do governo dos Estados Unidos — “um governo extremamente confiável, pois respeita o Estado de direito. Ou, pelo menos, esse era o país que costumávamos ser".

Ele argumenta que a expressão "Estado de direito" não é frequentemente associada à administração do presidente americano, Donald Trump. "Além disso, o governo demonstra um desprezo particular pelo direito internacional. Muitas das tarifas (comerciais) impostas por Trump foram consideradas ilegais à luz da legislação dos EUA; no entanto, praticamente todas elas constituíam — e ainda constituem — uma violação flagrante de acordos anteriores, solenemente assinados por presidentes americanos precedentes, inclusive pelo próprio Trump."

O economista americano afirma que o simbolismo das medidas adotadas por outros países para retirar suas reservas de ouro do Fed de Nova York é "assustador". "Os EUA já não inspiram confiança. Governos estrangeiros não podem mais contar conosco para cumprir as regras mais básicas, como o mandamento de não roubar o ouro alheio", escreve.

"E, mesmo depois que Trump deixar o poder, serão necessários muitos anos de uma administração governamental honesta e responsável nos EUA para restaurar essa confiança perdida", conclui Krugman. Paul Krugman, economista americano vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2008 Leo Pinheiro/Valor

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