IA substitui 'peneiras'? Plataformas ajudam clubes a encontrar novos talentos
Entre dribles, chutes e passes registrados de forma amadora pelos próprios atletas, a tradicional “peneira” do futebol tem ganhado um novo formato: o da tela do celular. Plataformas com inteligência artificial (IA) surgiram nos últimos anos como alternativa aos testes presenciais, analisando fundamentos técnicos remotamente e prometendo revelar talentos sem que o jogador e o clube precisem se locomover. Mas será que a tecnologia consegue, de fato, substituir a avaliação dos olheiros in loco?
Essa é a proposta de ferramentas como CUJU, Footbao e Scoutium, que usam IA e visão computacional para analisar o potencial de jovens craques a partir de vídeos disponibilizados na Internet. A seguir, o TechTudo explica como funcionam essas “peneiras digitais”, quais são as principais opções disponíveis e o que esperar desse modelo, além de riscos e limitações. Confira.
🔎 IA no futebol: como a tecnologia está sendo usada nos campos?
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IA do CUJU em funcionamento
Reprodução/CUJU
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No índice abaixo, veja tudo que você vai encontrar nesta matéria.
A IA já entrou em campo: como a tecnologia é utilizada no esporte
Como funcionam as peneiras com IA e os apps do nicho?
Talentos já revelados com "assistência" da IA
Do olheiro ao algoritmo: como a IA amplia o alcance das peneiras no futebol
A magia do esporte não cabe na tela do celular
1. A IA já entrou em campo
O uso de inteligência artificial no futebol já não é mais novidade. Já há alguns anos, a tecnologia tem ajudado clubes a analisar desempenho, estudar adversários e até tomar decisões no mercado de transferências. Em março deste ano, por exemplo, o Athletico fechou parceria com a ferramenta “Gemini Sports” para auxiliar na busca por reforços. No mesmo mês, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) assinou um contrato de patrocínio com o Google, que prevê o uso do Gemini Google — não confundir com o software citado anteriormente, já que ambas não têm ligação entre si — para identificar padrões de jogo de adversários e sugerir ajustes táticos nas seleções masculina, feminina e de base.
Um novo capítulo dessa trajetória começa a se consolidar com a popularização de serviços com IA voltados à descoberta de talentos. Nesses modelos, cada jogada se transforma em métrica, e a subjetividade dos olheiros é substituída por algoritmos capazes de interpretar movimentos, pontuar “scores” e ranquear atletas.
Além da identificação de novos craques, essas plataformas também se propõem a auxiliar no treinamento, oferecendo feedbacks personalizados e acompanhamento de desempenho. Apesar da proposta inovadora, o uso da tecnologia não é consenso. Antes de adentrar nos limites e riscos, entretanto, vamos conhecer detalhadamente os serviços mais populares.
2. Como funcionam as peneiras com IA e os apps do nicho?
Um jovem atleta posiciona cuidadosamente o celular e, de frente para a câmera, faz embaixadinhas e outros lances de efeito, além de demonstrar que domina fundamentos básicos do esporte bretão, como passe e domínio. Às vezes, quando tem uma partida em seu bairro, pede que algum amigo ou familiar grave suas jogadas e, a partir disso, seleciona os melhores lances em um “edit”. Depois, sobe esses vídeos em programas como CUJU, Footbao e Scoutium, que utilizam inteligência artificial para analisar os movimentos, gerar métricas de desempenho e indicar possíveis talentos a clubes e olheiros parceiros.
O cenário até parece distópico, mas, à medida que a inteligência artificial se populariza, diferentes clubes passam a enxergar na tecnologia uma extensão do seu poderio de scouting, capaz de ampliar e acelerar a busca por novos talentos — e, claro, reduzir custos com olheiros. Nesse contexto, surgem plataformas dedicadas exclusivamente a esse mercado, que transformam a identificação de atletas em um processo digital, orientado por algoritmos e IA.
No estilo "Fifa", IAs analisam e avaliam o "overall" de jogadores reais
Reprodução/CUJU
Entre as opções disponíveis, o CUJU é um dos exemplos mais conhecidos. O aplicativo de origem alemã funciona como uma espécie de peneira digital guiada: o jogador realiza exercícios padronizados, grava os movimentos pelo celular e envia os vídeos para análise. A partir daí, a inteligência artificial avalia fundamentos como velocidade, passe, controle de bola e agilidade, gerando uma pontuação objetiva de desempenho.
No app disponível para Android e iPhone (iOS), os resultados obtidos podem ser comparados com outros atletas ao redor do mundo, enquanto clubes e olheiros parceiros têm acesso aos vídeos e métricas e podem fazer contato com jogadores que se destacarem.
Interface do Scoutium
Reprodução/Scoutium
Outra ferramenta popular é o Scoutium, também compatível com Android e iPhone (iOS), mas com uma proposta um pouco mais ampla. Além da captação de talentos, o serviço funciona como uma ferramenta de análise e gestão esportiva, reunindo vídeos de partidas, estatísticas e comunicação entre atletas e comissões técnicas.
A partir das gravações dos jogos, a inteligência artificial analisa mais de 40 parâmetros de desempenho, permitindo acompanhar desde ações individuais, como passes e dribles, até o rendimento coletivo da equipe. Para clubes e olheiros, a plataforma oferece filtros por idade, posição e estatísticas, facilitando a busca por jogadores. Já para atletas, há recursos como relatórios personalizados, acompanhamento de evolução e até a criação de “cards” para compartilhar resultados.
Site da Footbao exibe talentos revelados com "assistência" da IA
Reprodução/Footbao
Já a Footbao, também disponível para Android e iPhone (iOS), aposta na lógica da vitrine digital. No app, jogadores publicam vídeos, constroem um perfil esportivo e passam a integrar um banco global de talentos, com análises apoiadas por inteligência artificial. Além de avaliar o desempenho via IA, o app também busca conectar atletas a oportunidades por meio de seletivas, eventos e parcerias com clubes.
Por fim, mais uma opção popular é o aiScout, que aposta em um modelo automatizado de identificação e desenvolvimento de talentos. Presente nas lojas de aplicativos de Android e iPhone (iOS), o serviço permite que jogadores realizem exercícios guiados, gravem os movimentos e enviem os vídeos para análise. A partir dessas imagens, a inteligência artificial mapeia dezenas de pontos do corpo, como ângulos, posicionamento e velocidade, para gerar avaliações.
3. Talentos já revelados com "assistência" da IA
Os primeiros resultados desse modelo já começaram a aparecer. Um dos exemplos é o do jovem Pedro Carreço, de 18 anos, que ganhou visibilidade após participar do CUJU e se destacar na final de uma competição promovida pela própria plataforma. O torneio, conhecido como “A Jornada”, reuniu jogadores selecionados a partir de dados e vídeos enviados no aplicativo, que passaram por avaliações mais próximas do ambiente profissional. Após a participação, Carreço avançou na carreira e hoje integra a equipe sub-19 do Académico de Viseu, de Portugal.
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O serviço também já ajudou a ligar novos talentos a times brasileiros. A zagueira Marcela Geremias, na época com apenas 14 anos, foi contratada pelo Corinthians após ganhar visibilidade com vídeos publicados no CUJU.
“Foram os meus amigos que me mostraram a plataforma (CUJU). Na época, estava atuando pelo Avaí e passei a publicar todo dia. A visibilidade que me deu ajudou muito para que eu chegasse ao Corinthians”, contou a promessa em entrevista a’O Globo
Marcela Geremias usou o CUJU para ganhar visibilidade e ser contratada pelo Corinthians
Edilson Dantas/O Globo
Outro caso emblemático envolve o meio-campista Leonardo Veiga, de 18 anos. Natural de Santa Catarina, ele chamou a atenção após enviar um vídeo para uma seletiva na Footbao, sendo escolhido entre centenas de candidatos para um período de testes na Europa. A experiência abriu caminho para negociações e, posteriormente, para a assinatura de contrato com o Spezia, da Itália.
Na própria Footbao, há ainda relatos de jovens atletas que chegaram a clubes brasileiros ainda na base, como casos de contratações precoces por equipes como Corinthians e Flamengo.
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4. Do olheiro ao algoritmo: como a IA amplia o alcance das peneiras no futebol
“Por 100 anos, a peneira do futebol dependeu de um olheiro estar no lugar certo, na hora certa e olhando para o jogador certo”, refletiu o criador de conteúdo Bruno Gabarra, em vídeo publicado nas redes sociais. Hoje, o encontro entre o olheiro e o talento pode depender da IA certa.
Com a popularização de plataformas de descobertas de talento com essa tecnologia, o celular passa a funcionar como uma espécie de intermediário entre os novos atletas e o clube, ampliando, em tese, o alcance das peneiras e mudando a lógica da descoberta no futebol.
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Naturalmente, um dos principais argumentos a favor dessas ferramentas é a ampliação do acesso ao futebol profissional. Para os desenvolvedores, a tecnologia surge como uma forma de romper barreiras geográficas e sociais historicamente presentes no processo de seleção de atletas.
“Quando tivemos a ideia do CUJU, o que passava na nossa cabeça era encontrar uma solução que usasse tecnologia para democratizar o acesso ao futebol profissional. Como brasileiro e atleta, eu desejava uma ferramenta que pudesse ajudar os talentos do meu país a conquistar seus sonhos”, explicou Luís Gustavo, cofundador da CUJU e atualmente jogador do Athletico, em depoimento disponível no site da ferramenta.
Na prática, isso significa que jogadores fora dos grandes centros passam a ter mais visibilidade. “Atletas de diversos locais do Brasil agora têm a oportunidade de serem vistos. Um jovem do Acre, hoje, tem a possibilidade de ser visto por um clube do Rio de Janeiro sem ter que se deslocar até esse clube, independentemente de onde o atleta seja, da classe social ou até da qualidade do vídeo”, afirmou Euler Victor, diretor da Footbao no Brasil, em entrevista a’O Globo.
Outro ponto frequentemente destacado é a escala. Enquanto peneiras tradicionais dependem da presença física de olheiros, as peneiras digitais permitem que milhares de atletas sejam analisados simultaneamente. Processos que envolveriam meses de observação podem ser exponencialmente encurtados, com a triagem inicial feita por algoritmos capazes de cruzar dados, vídeos e métricas de desempenho em questão de segundos.
5. A magia do esporte não cabe na tela do celular
Não é preciso ser especialista em futebol para identificar alguns dos limites desse modelo de peneira via inteligência artificial. Na verdade, basta entender o funcionamento dessa tecnologia. Se, por um lado, os serviços com IA ampliam o alcance do scouting, por outro, levantam uma série de limitações e riscos.
A principal delas está na própria natureza da análise: baseada em vídeos enviados pelos atletas, a avaliação pode não refletir o desempenho real em jogo. Isso porque o material costuma ser selecionado — e, muitas vezes, editado — pelos próprios jogadores, destacando apenas seus melhores momentos.
Além disso, há o risco de padronização. Ao transformar o desempenho em métricas e pontuações, os algoritmos tendem a valorizar determinados perfis técnicos e físicos, o que pode favorecer estilos específicos de jogador e deixar de lado talentos que fogem desse padrão. Na prática, esse tipo de filtragem já existe no olhar humano, já que olheiros também buscam características específicas para cada posição ou modelo de jogo. No entanto, quando incorporada aos sistemas automatizados, essa lógica pode ser reforçada.
Outro ponto sensível diz respeito ao desenvolvimento dos atletas. Jovens que não tiveram acesso a categorias de base ou treinamento estruturado podem não dominar certos fundamentos com a mesma precisão exigida pelas plataformas, o que pode resultar em pontuações mais baixas, mesmo quando há potencial técnico evidente. Na prática, o modelo pode acabar privilegiando quem já teve algum nível de formação em categorias de base, em vez de revelar talentos “brutos”.
Embora a promessa seja de democratização, o acesso à tecnologia ainda impõe barreiras tecnológicas e financeiras. Para se destacar nesses apps, é necessário ao menos um celular com câmera e condições mínimas de gravação e, em muitos casos, alguma noção de enquadramento, edição e apresentação. Com isso, atletas com melhor estrutura tendem a produzir vídeos mais atrativos e, consequentemente, ganhar mais visibilidade.
Por outro lado, vale lembrar que, antes mesmo da popularização da IA, a revelação de novos talentos já era influenciada pelas redes sociais. Casos como o de Heitor Lelis, que viralizou com o vídeo da “caneta dupla” e acabou sendo incorporado às categorias de base do Atlético-MG, mostram que esse processo já passava, em alguma medida, pela capacidade de se destacar em meio aos algoritmos.
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Apesar dos problemas, tudo indica que a IA será titular na descoberta de novos talentos no futebol. A tendência é que essas ferramentas se popularizem cada vez mais, especialmente nas etapas iniciais de seleção, ampliando o alcance dos clubes e reorganizando a forma como jogadores são observados.
No fim, como não dá para fugir da tecnologia, o caminho mais responsável é fazer com que a avaliação humana e o poderio da IA joguem juntos. Até porque, por mais que lances e dribles possam ser traduzidos por algoritmos, a magia do futebol e o sonho de ser atleta profissional não cabem na tela do celular.
Com informações de CUJU, Footbao, Scoutium, aiScout e O Globo
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