IA pode afetar capacidade das pessoas pensarem? Entenda o que é 'sedentarismo cognitivo' e saiba como usar ferramentas de forma consciente

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A facilidade para obter respostas e executar tarefas com inteligência artificial pode ter um efeito colateral menos evidente: o chamado “sedentarismo cognitivo”. O termo é usado por Belén Ortega, especialista em inteligência artificial e autora de "Human/IA. A IA tem alma e é o ser humano", para descrever o momento em que uma pessoa deixa de exercitar o próprio pensamento porque passa a delegar à tecnologia atividades que antes exigiam suas capacidades. Confira 9 dicas para fotografar melhor com a câmera do celular iOS 27: Novo sistema do iPhone chega nesta segunda-feira; veja como baixar A comparação é com o sedentarismo físico. Assim como o corpo perde condicionamento quando deixa de ser movimentado, o pensamento pode ser menos exercitado quando a pessoa permite que a inteligência artificial faça tudo por ela. Ortega relaciona o problema a habilidades como memória, criatividade, resolução de problemas, formulação de ideias próprias e pensamento crítico. Para a especialista, o cenário pode criar uma divisão que não seja apenas econômica, mas também intelectual. — Classe alta e baixa, não apenas econômica, mas também intelectual. O risco não está em usar IA Uma pesquisa da Universidade de Toronto, realizada em 2024, apontou que o uso de grandes modelos de linguagem e sistemas de IA generativa pode diminuir a capacidade de pensamento criativo. As ferramentas podem melhorar o desempenho no curto prazo, mas seu uso também pode resultar em ideias mais semelhantes entre si, menos convencionais e em uma redução da capacidade de pensar de maneira independente e criativa com o passar do tempo. A preocupação, portanto, não está no simples uso da inteligência artificial, mas na substituição de atividades que exigiriam participação intelectual da própria pessoa. Ortega não defende que as pessoas parem de usar IA. A recomendação é definir quais tarefas podem ser delegadas integralmente à tecnologia e quais exigem a participação ativa do usuário. Para atividades repetitivas e operacionais, ela incentiva o uso direto da IA. Já em tarefas que envolvem emoção, pensamento estratégico, pensamento crítico ou relações humanas, a sugestão é usar a ferramenta como apoio, pedindo informações e diferentes pontos de vista, mas mantendo a decisão final com a pessoa. — O leme da vida está nas mãos de cada um. Não podemos delegar o comando à inteligência artificial, porque ela faz estragos, bate o barco. Como manter o próprio critério Para Ortega, uma das questões centrais diante da expansão da IA é desenvolver critério próprio em um cenário em que praticamente sempre existe uma resposta disponível. Ela defende que esse critério seja transformado em hábito. Isso envolve observar quanto uma pessoa está recorrendo à inteligência artificial e quanto continua fazendo por conta própria. A proporção pode variar: alguém pode escolher usar IA em 50% do trabalho, enquanto outra pessoa pode utilizá-la em 5%, e ambas as escolhas podem estar corretas. Duas recomendações são especialmente importantes para Ortega ao conversar com uma ferramenta de inteligência artificial. A primeira é dizer explicitamente: "não invente". A segunda é pedir: "faça duas ou três perguntas necessárias para cumprir seu papel". A proposta é evitar que a ferramenta preencha lacunas por conta própria ou crie informações inexistentes. Como exemplo, Ortega sugere que, para escrever sobre uma encíclica do Papa Leão XIV, por exemplo, o usuário poderia primeiro definir que a IA deveria atuar como especialista em pesquisa sobre tecnologia e religião. Depois, deveria pedir que não inventasse informações e que fizesse as perguntas necessárias antes de executar a tarefa. Em "Human/IA. A IA tem alma e é o ser humano", Bélen Ortega argumenta que a transformação provocada pela inteligência artificial não está apenas nas máquinas, mas também na maneira como as pessoas passam a conviver com a tecnologia. "Durante anos, acreditamos que o futuro dependeria da tecnologia que fôssemos capazes de criar. Hoje começamos a descobrir que o verdadeiro desafio consiste em entender o que faremos nós com essa tecnologia e, sobretudo, em quem nos transformaremos enquanto convivemos com ela. Porque a inteligência artificial não está apenas mudando a forma como trabalhamos. Ela está colocando em evidência nossas forças, nossas fraquezas, nossos hábitos, nossas crenças e nossa capacidade de nos adaptarmos a um ambiente que evolui mais rápido do que nunca", escreveu. As habilidades que podem ganhar importância Na avaliação de Ortega, comunicação, pensamento crítico e criatividade estarão entre as habilidades mais importantes em um cenário de crescente automação. Ela também destaca a estratégia. A especialista afirma que a inteligência artificial não possui criatividade por si mesma, mas consegue preencher lacunas e buscar informações em outros lugares quando não dispõe de determinado dado. Para lançar e comercializar um produto ou serviço em um mercado em transformação, porém, seria necessário interpretar para onde o mundo está caminhando e tomar decisões estratégicas. Segundo Ortega, a IA não oferece essa capacidade da mesma forma porque trabalha com previsão de padrões e estatísticas. Ortega considera que o mercado profissional será cada vez menos definido apenas pela relação tradicional entre empregados e empregadores. Na visão dela, ganharão importância pessoas capazes de oferecer soluções e serviços combinando seus próprios talentos com a inteligência artificial. Entre as habilidades que ela destaca estão criatividade, pensamento crítico, pensamento científico e comunicação. A combinação dessas capacidades com a tecnologia aparece como parte central da transformação do trabalho. Três pontos para se preparar para a IA Ortega considera que existem três áreas fundamentais para acompanhar essa transformação.

A primeira é entender inteligência artificial, sem necessariamente dominar a tecnologia no nível de um engenheiro eletrônico, mas sabendo utilizá-la para resolver problemas e supervisionar as respostas dos modelos. A segunda é retomar uma comunicação estratégica, baseada não apenas em curtidas, mas em interações planejadas com seres humanos, inteligências artificiais e pessoas que administram sistemas de IA. A terceira é identificar o próprio propósito, perguntando em que a pessoa é realmente boa e o que a motiva. Para Ortega, esse processo pode ajudar a definir objetivos profissionais e até possíveis fontes de renda. Em vez de escolher apenas qual empresa oferece a melhor inteligência artificial, Ortega recomenda distribuir funções entre diferentes ferramentas e ter três assistentes. O primeiro ajudaria nas tarefas do cotidiano e resolveria rapidamente determinadas demandas. O segundo seria responsável por executar tarefas. O terceiro deveria ser capaz de desenvolver uma solução que os dois primeiros não conseguiram produzir, inclusive criando aplicativos a partir de um comando. Além desses três, ela sugere aplicativos específicos para determinadas necessidades, como ferramentas de transcrição de áudio e o NotebookLM para estudos. Para alguém que nunca usou inteligência artificial e quer começar, Ortega propõe pedir à própria ferramenta uma análise sobre a maneira como a pessoa a utiliza: "Faça uma análise exaustiva de como você me vê — porque tudo o que escrevi é um espelho — e de quais são minhas forças e fraquezas no nível pessoal e profissional". A partir dessas informações, a pessoa poderia formular perguntas mais profundas para utilizar a IA na construção de seu propósito profissional. Para Ortega, o processo também exige questionar continuamente aquilo de que a pessoa gosta ou não gosta. O futuro, afirma, será marcado pela necessidade de questionar a si próprio e aos outros.

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