Produtos que não existem. Entregas de comida que nunca vão chegar à porta de casa. Pausas para fumar sem o ingrediente mais importante: o cigarro. Tudo isso e muito mais — ou seria menos? — pode ser encontrado nos chamados “sites de dopamina”, plataformas que não oferecem nada de concreto e, ainda assim, se tornaram extremamente populares em um ambiente digital que estimula o consumo. Dona da Louis Vuitton, que já foi a maior empresa da Europa em valor de mercado, sai do grupo das 10 maiores Quem são os 10 brasileiros mais ricos? Cofundador do Facebook lidera lista da Forbes pelo terceiro ano consecutivo; veja ranking Batizados em referência à substância química do cérebro associada à busca por recompensas, esses sites simulam experiências como compras on-line, capazes de provocar sensações agradáveis. A ideia, segundo seus criadores, é justamente subverter os hábitos de pessoas acostumadas a comprar e consumir. E os preços não poderiam ser melhores: são tão inexistentes quanto os produtos oferecidos. A tendência surgiu na Coreia do Sul na primavera no Hemisfério Norte e rapidamente se espalhou pelo mundo, com manchetes internacionais ajudando a estimular a proliferação de sites de dopamina. Alguns são essencialmente lúdicos, enquanto outros buscam estimular a autorreflexão. Lazer de alto padrão: Louis Vuitton lança boia inflável de luxo por mais de R$ 22 mil, com estampa clássica e bomba de ar própria Um grupo ambientalista, o Earth Day Canada, por exemplo, lançou o Imaginair, uma loja de mentira criada para chamar a atenção para o consumo excessivo. Nos Estados Unidos, um desenvolvedor da Microsoft preocupado com os hábitos de compra criou a Fake Haul, uma espécie de megaloja fictícia, como projeto pessoal. Independentemente da motivação, especialistas em psicologia afirmam que esses sites se tornaram populares não só por ativarem um dos mecanismos básicos de recompensa do cérebro, mas também por refletirem a crescente preocupação dos jovens com a forma como se relacionam com o mundo digital. Prazer sem dor? Quando Seohyun Park, uma estudante de 21 anos de engenharia mecânica em Seul, na Coreia do Sul, criou um site falso de entrega de comida em março, a intenção era fazer um “experimento divertido”, segundo ela.
Seohyun queria testar se a sensação de consumir poderia ser dissociada do ato em si, depois de perceber que sentia menos prazer ao comer a comida que pedia do que ao navegar pelos cardápios e fazer o pedido. Ecoansiedade: Quando a preocupação com o planeta e as mudanças climáticas viram estresse crônico O site, que a estudante diz que pode ser melhor traduzido como “A Comida Nunca Chega”, foi concebido principalmente como uma brincadeira, permitindo que as pessoas desfrutassem do ato de fazer um pedido on-line e, em seguida, calculassem quanto economizaram em dinheiro e calorias. Mas ela ficou surpresa ao descobrir que o site gerava discussões reais sobre o consumo. “As pessoas começaram a compartilhá-lo on-line e a discutir se ele realmente as ajudava a resistir à tentação de pedir comida”, escreveu Park em um e-mail. Ações de empresas de tecnologia recuam após pedido de CEOs para desacelerar IA Ao que tudo indica, ela havia captado uma sensação comum. Especialistas em psicologia comportamental e dependência afirmam que os sites de dopamina ganharam popularidade porque muitas pessoas estão cada vez mais desconfortáveis com sua relação com a tecnologia e querem interagir com ela de maneira mais consciente. Segundo Park, seu site recebe cerca de 10 mil visitantes por mês. Depois que o site foi mencionado pela imprensa na Coreia do Sul e em outros lugares, outras pessoas seguiram seus passos. Na Índia, dois desenvolvedores profissionais citaram o site de Park como inspiração para seus próprios projetos. No início, Purvansh Parmar e Anshul Sharma, ambos de 26 anos e moradores do estado de Rajastão, no noroeste do país, começaram a experimentar romper seus próprios ciclos de consumo inconsciente, segundo eles.
— Eu estava pensando em comprar um telefone novo e, no fim, não comprei — e isso foi bastante satisfatório para mim — disse Sharma. Celular na infância: por que o cuidado vai além do tempo de tela Depois, os dois decidiram criar uma “cozinha de dopamina”, que ofereceria entregas falsas, como o site de Park, mas com um diferencial: receitas de verdade. Segundo eles, o site já teve mais de 2,7 milhões de visualizações desde seu lançamento, em junho. Em seguida, criaram o Rewire Heaven, onde os usuários podem declarar publicamente que vão abandonar um determinado hábito e permitir que desconhecidos os responsabilizem pelo compromisso, além de oferecer apoio. Até agora, a maioria desses sites funciona mais como uma experiência divertida do que como um negócio. Jogos de expectativa Os sites de dopamina exploram a ideia de que boa parte do prazer de uma indulgência vem da expectativa. Na economia comportamental, as compras imaginárias proporcionam o que os especialistas chamam de “utilidade antecipatória”: a sensação agradável provocada pela expectativa de algo. Essa sensação pode ser igual ou até maior do que o prazer proporcionado por algo que de fato acontece, chamado de “utilidade da experiência”. Ela também pode superar a lembrança posterior daquela experiência, conhecida como “utilidade retrospectiva”. — O elemento de esperar por algo proporciona muito prazer, e frequentemente temos uma queda emocional depois de um evento ou nos sentimos decepcionados — disse Ravi Dhar, diretor do Yale Center for Customer Insights.
Inteligência artificial: entenda como o uso da tecnologia tem levado pessoas com crise de imagem aos consultórios médicos Por isso, segundo ele, faz sentido que, pelo menos inicialmente, a própria expectativa seja suficiente para satisfazer algumas necessidades. No entanto, a empolgação proporcionada por uma simulação pode desaparecer quando esse truque mental deixa de ser novidade, afirmou Lingguo Xu, economista comportamental que faz pós-doutorado sobre utilidade antecipatória na Universidade de Waterloo, no Canadá. iPhone 18 Pro: novo celular da Apple chega 18,9% mais caro; veja valores Um dos riscos de simular o consumo, segundo ele, é que isso “pode levar a desejos mais intensos” e fazer com que a pessoa fique “determinada a concretizar o consumo no fim, para corrigir o mecanismo de antecipação”. Simulação e estimulação — Os sites de dopamina são essencialmente equivalentes à cerveja sem álcool digital — disse Anna Lembke, psiquiatra especializada em dependência da Universidade Stanford e autora de Dopamine Nation, livro de 2021 sobre viver em meio a tecnologias que nos prendem a uma estimulação constante. Nossos dispositivos fornecem continuamente “dopamina digital”, argumenta Anna, fazendo com que as pessoas se sintam bem no início, mas frequentemente levando ao consumo excessivo de comida, notícias, compras, pornografia e muito mais. Segundo ela, qualquer pessoa pode se beneficiar de limitar ou interromper o uso da tecnologia, ao menos por algum tempo, como uma espécie de reinicialização. Para a psiquiatra, os sites de dopamina são uma resposta “criativa” aos perigos da era atual, criada por jovens insatisfeitos com pelo menos alguns aspectos de suas vidas digitais. O que é 'menu de dopamina'? Influenciadora testa estratégia após passar até 13 horas por dia no celular Na linguagem de sua profissão, esses sites funcionam como um “mecanismo de autocontenção”, uma maneira de limitar comportamentos habituais. Eles também podem ajudar a aumentar a autoconsciência e aliviar a solidão ao proporcionar uma comunidade, afirmou. De fato, alguns criadores de sites de dopamina dizem ter descoberto que as pessoas às vezes estabelecem relações reais em meio ao consumo fictício. É o caso de Seojin Ko, desenvolvedora profissional na Coreia do Sul. Ko, de 30 anos, contou por e-mail que, embora não seja fumante, às vezes acompanhava colegas durante as pausas para fumar. Em novembro passado, decidiu criar, como uma brincadeira, um espaço que recriasse virtualmente esses momentos. Ela o chamou de Damta World. (Damta é uma abreviação, em coreano, para “hora do cigarro”.) Detox de dopamina: a trend é verdadeira? O que diz de fato a ciência Ao contrário de muitos sites de dopamina, que podem oferecer uma grande variedade de opções, o Damta World é simples. Ele apresenta um cigarro grande no centro da tela e, abaixo dele, um contador de “bitucas” acumuladas no telhado virtual de um escritório. Ao tocar na tela, começa uma pausa para fumar cronometrada. Uma ilustração mostra a fumaça subindo, enquanto cinzas se acumulam e caem, acompanhadas pelo som crepitante do tabaco. Os fumantes podem “sussurrar” uns com os outros, digitando mensagens que passam rapidamente pela tela. Em muitos dias, milhares de pessoas aparecem para passar um tempo no site. Segundo Ko, cerca de 150 mil pessoas visitam o Damta World por mês.
Nova moda: Por que as pessoas estão fazendo pedidos falsos de comida e moda em aplicativos gratuitos de 'dopamina' “O Damta World se tornou um lugar onde as pessoas podem se abrir com desconhecidos sobre as dificuldades que enfrentam no trabalho, na escola ou simplesmente no dia a dia”, escreveu ela. As pausas fictícias acabaram levando a algumas amizades reais, algo que, segundo ela, foi ao mesmo tempo surpreendente e gratificante. Alguns usuários disseram a Ko que agora se encontram pessoalmente. “Fico realmente feliz em saber que o projeto ajudou as pessoas a criar conexões significativas e a compartilhar energia positiva”, afirmou. Naturalmente, alguns usuários também disseram a ela que, quando se encontram pessoalmente, saem para a rua e acendem um cigarro.
O Globo