Humanidade não nasceu de um único grupo: estudo sugere múltiplas origens para os primeiros humanos na África

 

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“E se a história da humanidade não começasse com um único grupo, mas com vários povos espalhados pelo continente africano?” A pergunta, que desafia uma das teorias mais difundidas sobre a origem humana, ganhou novo fôlego após uma publicação destacada neste domingo pelo Science Daily. Segundo a análise, os primeiros Homo sapiens não surgiram de uma única população ancestral isolada, mas de diferentes grupos espalhados pela África que permaneceram em contato e trocaram genes por centenas de milhares de anos.

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O estudo, publicado originalmente na revista Nature em 2023 e liderado por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis (UC Davis) e da Universidade McGill, propõe uma revisão importante do tradicional modelo “Fora da África”, que durante décadas sustentou a ideia de uma única linhagem ancestral principal para os humanos modernos. Em vez de uma árvore genealógica simples, os cientistas defendem agora uma espécie de rede complexa de populações interligadas.

A pesquisa foi baseada na análise de DNA de populações africanas atuais e na comparação com evidências fósseis de grupos primitivos de Homo sapiens. Um dos pontos centrais do trabalho foi o sequenciamento de 44 novos genomas do povo Nama, população indígena do sul da África conhecida por apresentar uma diversidade genética excepcionalmente alta. Segundo os pesquisadores, essa riqueza genética ajudou a revelar pistas fundamentais sobre o passado remoto da espécie humana.

Entre 2012 e 2015, amostras de saliva foram coletadas nas aldeias Nama enquanto os participantes realizavam suas atividades cotidianas. A partir desse material, os cientistas testaram diferentes modelos computacionais para verificar se a origem humana se encaixava melhor em uma hipótese de fonte única ou em um sistema mais amplo e conectado. O resultado favoreceu fortemente a segunda opção.

Um começo mais complexo

O modelo mais compatível com os dados sugere que a primeira separação populacional detectável entre os ancestrais humanos ocorreu entre 120 mil e 135 mil anos atrás. Antes disso, duas ou mais populações de Homo pouco diferenciadas já trocavam genes havia centenas de milhares de anos. Mesmo após essa divisão, o contato e o cruzamento entre os grupos continuaram por muitas gerações.

Os pesquisadores chamam esse cenário de “estrutura basal pouco definida”, uma espécie de tronco evolutivo flexível. Isso significa que as raízes dos humanos modernos não estariam em uma população isolada, mas em um conjunto disperso de grupos conectados por fluxo gênico contínuo. Para os autores, esse modelo explica melhor a diversidade genética atual do que hipóteses anteriores que dependiam da contribuição de hominídeos arcaicos desconhecidos na África.

“Estamos apresentando algo que ninguém jamais testou antes. Isso representa um avanço significativo para a ciência antropológica”, afirmou Brenna Henn, professora de antropologia e do Centro de Genoma da UC Davis e autora correspondente do estudo. Segundo ela, as incertezas sobre a origem humana persistem porque o registro fóssil e os dados genômicos antigos ainda são limitados e nem sempre coincidem com os modelos construídos a partir do DNA moderno.

O que muda na leitura dos fósseis

As conclusões também afetam a forma como os cientistas interpretam fósseis antigos. De acordo com os autores, apenas de 1% a 4% da diferenciação genética entre populações humanas vivas pode ser atribuída à variação entre essas populações ancestrais. Como os grupos continuaram se misturando por muito tempo, é provável que tivessem aparências relativamente semelhantes.

Isso significa que fósseis com características físicas muito distintas, como os do Homo naledi, provavelmente não representam linhagens que contribuíram diretamente para a evolução do Homo sapiens. Para Tim Weaver, coautor do estudo e professor de antropologia da UC Davis, modelos anteriores eram mais complexos porque pressupunham contribuições significativas de hominídeos arcaicos, mas os novos dados apontam em outra direção.

Pesquisas mais recentes reforçam essa visão. Trabalhos publicados em 2024 e 2025 nas revistas Nature Ecology & Evolution e Nature também destacaram a profundidade da diversidade genética no sul da África e a continuidade populacional de milhares de anos na região. Juntas, essas descobertas fortalecem uma mensagem central: a origem da humanidade não foi uma faísca isolada em um único lugar, mas o resultado de uma longa história de movimento, mistura e conexão entre diferentes populações africanas.