Hugo Motta não irá a ato do 8 de Janeiro em meio a possível veto de Lula à dosimetria
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, não participará do ato organizado pelo governo federal para marcar os três anos dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. A ausência foi confirmada ao GLOBO por sua assessoria, que informou que o deputado cumpre compromissos fora de Brasília e está em período de férias parlamentares.
De acordo com interlocutores, Motta já havia comunicado ao Palácio do Planalto que não estaria presente na solenidade. O presidente da Câmara também não participou do evento realizado no ano passado, quando o governo promoveu a segunda cerimônia oficial em memória da invasão às sedes dos Três Poderes.
O ato deste ano ocorre em meio ao debate sobre o projeto que altera a dosimetria das penas aplicadas aos condenados pelos ataques golpistas, aprovado pelo Congresso no fim de 2025 e que agora aguarda decisão do presidente Lula. No Planalto, a possibilidade de veto ao texto é tratada como provável, o que reacendeu tensões com o Legislativo, especialmente na Câmara, onde a proposta teve apoio expressivo.
Parlamentares avaliam que a discussão em torno da dosimetria acabou contaminando o ambiente político do 8 de Janeiro, transformando o evento em um novo teste da relação entre Executivo e Congresso neste início de 2026. Nesse contexto, a ausência do presidente da Câmara é lida como um movimento de cautela institucional — sem adesão explícita ao gesto simbólico do governo, mas também sem confronto direto.
A avaliação de líderes da Casa é que, diante da iminência de uma decisão presidencial, parte do Congresso prefere evitar exposição em um evento que pode ganhar contornos de disputa política. O entendimento é que a eventual confirmação de um veto tende a gerar novo desgaste entre os Poderes, o que reduziu o apetite de dirigentes do Legislativo por uma participação mais ativa na solenidade. A expectativa, nos bastidores, é de presença majoritariamente de integrantes da base governista.
O Planalto mantém a previsão de realização do ato e reforça o caráter institucional da cerimônia, voltada à defesa da democracia e à memória dos ataques. Diante do impasse, auxiliares do governo passaram a aconselhar Lula a adiar a decisão sobre o veto, de forma a evitar que o debate interfira diretamente no simbolismo do evento.
Alcolumbre não confirmou presença
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ainda não confirmou presença no evento e, segundo interlocutores, pode seguir o mesmo caminho de Motta e se ausentar da cerimônia. A indefinição reforça a leitura de que, neste ano, o 8 de Janeiro ocorre sob um ambiente mais cauteloso no Congresso, marcado por cálculos políticos e pela expectativa em torno da decisão do Planalto sobre a dosimetria.
Aliados de Motta afirmam que a ausência não deve ser interpretada como um gesto político direcionado ao governo e ressaltam que não houve alteração de agenda em função do evento. Ainda assim, a falta do presidente da Câmara expõe as dificuldades do Executivo em ampliar a presença das cúpulas do Legislativo em um momento de relação sensível entre os Poderes.
