Com quase cem pedidos de remoção por dia, São Paulo bate recorde de carros abandonados nas ruas
Carros caindo aos pedaços, por vezes com larga ficha de multas e problemas judiciais, espalham-se pelas ruas paulistanas. O problema levou a patamares recordes de queixas do gênero junto à prefeitura, que estuda como reformular as regras que regem o assunto para tentar liberar com mais agilidade os pátios que armazenam os veículos abandonados confiscados.
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O poder municipal recebeu no ano passado, em média, 95 pedidos de remoção por dia, segundo dados abertos do SP156, portal de serviços da prefeitura, disponíveis até setembro. O índice é maior do que a média registrada em 2024, quando foram cerca de 88 contatos diários, totalizando 32.460 solicitações, o número mais elevado da década.
Na Avenida Albert Bartholome, na Vila Sônia, na Zona Oeste, foram 27 pedidos nos primeiros nove meses de 2025, ou um a cada dez dias. O fotógrafo Leandro Melo, morador do local, conta que a região chega a ter mais de 15 carros parados por meses, seja na própria via ou em ruas do entorno. Ele reconhece que a prefeitura realiza ações constantes no local, mas o problema se repete:
— Vivo aqui desde 2014, e isso sempre existiu. Mas agora o número de automóveis aumentou e está se expandindo para ruas vizinhas. Tem carro com lanterna quebrada, vidro todo manchado. O meu receio é a dengue. O pneu murcha, vai empoçando água do lado, água no para-brisa. E os carros estão cheios de coisas.
Em nota, a subprefeitura do Butantã, responsável pela área, afirma que removeu neste ano dez veículos em situação de abandono na avenida, sendo o último em 24 de novembro. Uma nova vistoria será realizada no local.
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Periferias sofrem mais
Outro ponto crítico é a Avenida Professora Ida Kolb, na Casa Verde, na Zona Norte, com 23 pedidos de remoção. O influenciador Sidnei Cruz registrou dois carros deteriorados na área. Criador do perfil Abandonados, que soma mais de 230 mil seguidores no Instagram, ele caça veículos do tipo pela cidade desde 2015.
— Principalmente na periferia há um maior número, muitos carros importados da década de 90 ou carros nacionais com uma mecânica mais complexa, com bloqueio judicial, problema de inventário, multas — conta.
Carcaças em pátio da prefeitura de São Paulo, em imagem de 2024: mais de 400 retiradas das ruas neste ano
Érico Casagrande / Prefeitura de São Paulo
A subprefeitura da Casa Verde informou que realizou uma vistoria na via em 19 de dezembro, identificou três veículos em situação de abandono, adesivou os carros com o indicativo de que eles poderão ser removidos e multados e notificou os proprietários.
Como narra o influencer, as estatísticas mostram que zonas afastadas do centro concentram o problema. Os dados de 2025 põem a região do Sacomã com mais solicitações (774). O bairro fica na Zona Sul, responsável por quase 30% de todas as reclamações, seguida da Zona Leste, com 28%, e a Zona Norte (24%).
Até dezembro, a prefeitura atendeu 12.516 solicitações, que geraram a apreensão de 668 veículos. Pela legislação municipal, um automóvel pode ser considerado abandonado quando está há mais de cinco dias estacionado na mesma região e representa “risco à saúde pública, à segurança pública ou ao meio ambiente devido a seu estado de conservação e processo de deterioração”. Até 2023, a regra valia apenas para carros estacionados por longos períodos no mesmo ponto, mas a fiscalização se deparava com proprietários que, ao receber a notificação, apenas mudavam o veículo de lugar.
A multa para o abandono na cidade, até setembro, era de R$ 25 mil, custo que não diminuía o problema e desencorajava que o motorista, uma vez que tivesse o carro apreendido, quitasse o débito e retirasse o veículo do pátio. Agora, o valor foi reduzido de forma drástica e fixado em R$ 929.
— A multa anterior tinha uma analogia com o descarte irregular. O valor foi reduzido para dar a oportunidade de retirarem o carro, caso seja uma questão momentânea, um aperto (financeiro) — diz o secretário municipal das subprefeituras, Fabricio Cobra.
Outra mudança prevista é um decreto, a ser publicado pela prefeitura em breve, que buscará agilizar o processo de leilão dos cerca de 1.500 carros que estão armazenados nos 17 pátios da prefeitura. A intenção é reduzir o prazo contado a partir da apreensão de 150 dias para 60.
Especialistas veem um vácuo legislativo a nível federal. Além disso, mesmo cidades que regulam o problema, como São Paulo, carecem de abordagem preventiva, como observa o auditor fiscal João Peres Teodoro, autor de uma tese de mestrado sobre o tema:
— Temos de padronizar a forma de ação e as consequências. Há cidades fora do país, como nos EUA, com programas que envolvem a busca do veículo em casa e dão uma indenização. Precisamos desse olhar mais direcionado.
