Homem aciona Justiça após encontrar R$ 137 mil em cheques e receber pouco mais de R$ 100 como recompensa, na Argentina: 'Não sei se é justo'
Um homem argentino que encontrou cheques no valor de 37 milhões de pesos (cerca de R$ 137 mil, na cotação atual) e decidiu devolvê-los ao proprietário passou a contestar judicialmente a recompensa de 30 mil pesos (aproximadamente R$ 111) recebida, considerada desproporcional. O episódio, ocorrido em janeiro, ganhou repercussão pública e abriu uma ampla discussão sobre o reconhecimento de atitudes éticas e os limites entre a obrigação moral e a compensação financeira.
Mauricio Abdelnur localizou um envelope parcialmente rasgado ao sair do trabalho e, ao verificar o conteúdo, constatou o valor elevado. Ele permaneceu no local por algum tempo na tentativa de identificar o dono, mas ninguém apareceu.
— Encontrei um envelope grande, meio rasgado; abri e dentro havia 37 milhões de pesos em cheques. Fiquei ali esperando para ver se alguém aparecia, porque, se você vê alguém preocupado voltando correndo, é o dono. Esperei, esperei, esperei. Quando cheguei em casa, comentei com meu filho, e ele disse: "Tem que devolver" — conta.
A decisão de devolver os cheques foi reforçada pelo filho, cuja orientação teve peso na escolha. Abdelnur levou o envelope para casa e iniciou a busca pelo proprietário.
Para identificar o emissor, ele fotografou os cheques e recorreu à inteligência artificial, que forneceu um número de telefone vinculado ao responsável. O contato levou diretamente ao homem que havia emitido os documentos, ligado a uma empresa com sede em San Luis.
— Tirei foto de cada cheque, a inteligência artificial me deu um telefone, e atendeu justamente o homem que havia emitido todos os cheques. Ele queria que eu enviasse por Uber. E eu disse: ‘Acho melhor não, porque são 37 milhões’. Vai que depois dizem: ‘Faltam 20 milhões aqui’. Em que confusão eu me meteria por querer ajudar? — relata.
Abdelnur recusou enviar os cheques por aplicativo e optou por uma entrega presencial, acompanhado de um amigo.
Frustração
Após a devolução, ele recebeu 30 mil pesos. O valor gerou frustração.
— Fui com um amigo e lá nos sentimos meio... enfim. Depois meu filho disse: ‘Pai, acho que te enganaram’. Porque me deram 30 mil pesos. Não fizemos isso pelo dinheiro, mas ele deve ter pensado que nos daria um trocado por devolver 37 milhões — conta.
Embora afirme que não agiu com expectativa de lucro, Abdelnur considerou a compensação inadequada diante do montante recuperado.
Possível disputa judicial
Posteriormente, ele consultou especialistas jurídicos e foi informado de que o procedimento adequado seria entregar os cheques à polícia ou a um banco, o que garantiria uma recompensa entre 2% e 10% do valor.
Com base nessa orientação, Abdelnur entrou em contato com o empresário para questionar a quantia recebida.
— Mandei mensagem dizendo: ‘Olha, pela lei, caberia um pouco mais. Você não considerou nem 2% do que encontrei. Não é que você tem que me dar, mas eu protegi seu patrimônio' — relata.
Sem resposta considerada satisfatória, ele iniciou medidas formais por meio de notificação legal.
O caso passou a extrapolar a dimensão individual e provocou reflexões sobre valores sociais.
— Que tipo de sociedade queremos ter se alguém tenta fazer o certo? Falamos tanto disso e não sei se é tão justo. Da próxima vez que eu encontrar cheques, talvez jogue fora — diz.
Abdelnur também criticou o simbolismo da recompensa recebida.
— Achei engraçado quando me deram 30 mil pesos, como se dissessem: ‘Toma, serve para o Uber?’. E eu respondi: ‘Vocês disseram que pagariam o Uber, não vou ter que pagar ainda?’. É sobre isso, sobre a sociedade que queremos construir.
