Histórias da Copa: Três países disputam uma vaga no Mundial e a oportunidade de se reinventar pelo futebol

 

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Em março, Nova Caledônia, Jamaica e República Democrática do Congo vão decidir quem contará sua história na Copa do Mundo de 2026. As três seleções disputam uma vaga na repescagem internacional que levará o vencedor ao Grupo I, ao lado de Portugal, Colômbia e Uzbequistão.

Os ReggaeBoyz despontam como favoritos, apesar de terem perdido a chance da vaga direta no jogo contra Curaçao pelas eliminatórias da Concacaf. Mas confiam na chance de apresentar novamente seu futebol em um Mundial — a única participação foi em 1998 sob o comando do técnico brasileiro René Simões.

ReggaeBoyz em baixa

A terceira maior ilha do Caribe conta com os filhos da diáspora ao trazer jogadores nascidos na Inglaterra (foi colônia inglesa até o início dos anos 1960 e ainda mantém laços com a Commonwealth) para a solucionar a crise de identidade da seleção.

— O futebol decepcionou bastante nos últimos anos, não só nas Eliminatórias, com a vaga escapando para Curaçao. O sonho é contar com Mason Greenwood, do Olympique de Marselha, jogador com histórico de acusações de violência doméstica, mas com dupla cidadania e um talento futebolístico bem maior do que a média da seleção jamaicana — explica Carlos Massari, criador da página Copa Além da Copa.

Para isso, os jamaicanos vão ter que superar os azarões da Nova Caledônia. Com menos de 300 mil habitantes, o pequeno território ultramarino da França localizado na Oceania vê o futebol como formador da sua identidade nacional. Nos últimos anos, o governo local luta por mais autonomia em relação aos franceses.

Autonomia e holofotes

Em 2025, França e Nova Caledônia assinaram um acordo político para transformar o território em um “Estado de Nova Caledônia” dentro da República Francesa, permitindo a criação de uma nacionalidade caledônia além da francesa — os neocaledônios são considerados cidadãos franceses.

— A Copa do Mundo é um momento de holofote mundial e, sem dúvidas, até mesmo a repescagem será um momento importante para que mais pessoas conheçam a Nova Caledônia, uma vez que a classificação é bastante improvável. O momento na Nova Caledônia é bastante complicado e volátil, com protestos violentos recentes que fizeram o próprio Emmanuel Macron ir até lá tentar apaziguar a situação, e com a França fazendo concessões de autonomia para tentar acalmar o desejo por independência — diz Massari.

Sem um campeonato interno forte e profissional, a seleção recorre a jogadores nascidos na metrópole ou que jogam nas divisões inferiores da liga francesa, como o atacante Lues Waya. O inverso também ocorre. Nascido em Lifou, o volante Christian Karembeu foi campeão mundial pela França na Copa de 1998.

— A Nova Caledônia ganhou o direito de jogar esta partida de repescagem, e será um evento fantástico para nós… mas inevitavelmente seremos azarões contra um adversário ranqueado melhor no ranking da Fifa — afirmou Johann Sidaner após o sorteio da repescagem.

Resistência africana

Enquanto Jamaica e Nova Caledônia se enfrentam dia 26 de março, a República Democrática do Congo apenas espera seu adversário no dia 31 de março — os jogos serão no México. Deste confronto, a vaga no Mundial será decidida, e a expectativa da nação africana em participar de sua segunda Copa do Mundo é enorme.

Assolado por uma crise humanitária (insegurança alimentar, conflitos armados, surtos de doenças e falta de infraestrutura básica) que perdura décadas e afeta mais da metade da população, o país encontra no futebol a resistência necessária para seguir em frente.

Nas últimas semanas, ganhou o mundo a cena do torcedor fantasiado de Patrice Lumumba nas arquibancadas da Copa Africana das Nações no Marrocos. Líder revolucionário, Lumumba esteve à frente da luta pela independência nos anos 1960, e se tornou primeiro-ministro do país. Logo depois, ele foi morto durante o golpe militar.

Nos jogos da RD Congo, Kuka Muladinga aparece vestido com um terno nas cores da bandeira do país e se mantém imóvel durante os 90 minutos, com um braço erguido, recriando a pose icônica do líder. Na eliminação para a Argélia, nas oitavas de final, ele foi carregado nos braços da torcida. “É um poderoso símbolo da independência congolesa e do orgulho nacional”, diz a narração de um vídeo publicado pelo perfil oficial da Confederação Africana de Futebol.

— Ir à Copa do Mundo para a RD do Congo é a possibilidade de gritar para o mundo sobre a sua luta, a gravidade de sua situação humanitária, mas mostrar também que o país tem muito além disso. E também apagar a péssima impressão deixada pela participação na Copa de 1974, ainda como Zaire, quando o ditador Mobutu Sese Seko ameaçou matar todo o elenco na volta ao país — relembra Massari.