Halloween: a festa de raízes irlandesas, feita na China, que movimenta US$ 13,5 bilhões nos EUA e disputa o Brasil com o Saci

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Fonte da notícia: ND Mais ND Mais

O Halloween deve movimentar US$ 13,5 bilhões nos EUA, com 90% dos produtos tendo ao menos uma peça importada, em geral da China. A data mostra como cultura, tarifa e consumo se misturam.

Resumo e áudio gerados por inteligência artificial a partir do texto desta matéria. Neste sábado, 31 de outubro, parte do mundo se fantasia.

É a noite em que a geopolítica veste máscara, e vale a pena olhar por baixo dela. A National Retail Federation (NRF) prevê que os americanos gastem um recorde de US$ 13,5 bilhões com Halloween em 2026, contra US$ 13,1 bilhões no ano passado.

São cerca de US$ 115 por pessoa, e 74% dos consumidores pretendem celebrar. Fantasias levam US$ 4,4 bilhões, dos quais US$ 920 milhões só para os pets.

Decoração soma US$ 4,3 bilhões, e doces, US$ 4,1 bilhões. Metade dos consumidores começa as compras em setembro ou antes, e há lojas vendendo itens de Halloween já em julho, a chamada “Summerween”.

Os americanos estão gastando mais, mas também mais atentos ao preço: um terço procura itens reutilizáveis. A origem costuma ser contada como celta: o festival de Samhain, no fim da colheita e do ano celta, em 31 de outubro.

Os historiadores concordam em parte. A data cristã de Todos os Santos teve alguma influência do festival antigo, mas se a Igreja deliberadamente “reembalou” Samhain é debatido.

O que não é debatido é a viagem. A América protestante do início quase não comemorava a data, com exceção de áreas católicas como Maryland.

Foi a imigração irlandesa e escocesa, sobretudo depois da fome dos anos 1840, que levou lanternas de nabo, jogos e histórias de espíritos, e que trocou o nabo pela abóbora. No século XX, a festa virou o produto comercial que conhecemos.

É um Halloween irlandês-americano, e o soft power, no caso, é um bumerangue: a Irlanda exportou o costume e a América devolveu a festa pronta, com fantasia e açúcar. O mundo comprou.

No Japão, a AP estimou em 20 milhões os que celebraram em 2015, com o bairro de Shibuya, em Tóquio, como palco. No México, a festa chegou pela TV e pela imigração, e disputa o espaço com o Día de Muertos, que começa amanhã.

A associação do setor (Halloween & Costume Association) diz que cerca de 90% dos produtos de Halloween têm pelo menos uma peça feita no exterior, na maioria dos casos na China. O dono de uma das maiores redes de lojas sazonais dos EUA disse, no ano passado, que mais de 90% da mercadoria sazonal de Halloween e Natal é importada da China.

Isso tem preço. Segundo a associação, uma fantasia infantil de bruxa básica custava US$ 19,99 em 2024, US$ 39,99 em 2025 e chega a US$ 60 em 2026, por causa das tarifas sobre plásticos e têxteis chineses.

Os fornecedores procuram a Índia e o Vietnã, e o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, anunciou que a China aceitou cortar tarifas sobre cerca de US$ 60 bilhões em produtos não sensíveis, incluindo brinquedos e decorações. Não está claro quando isso chega às prateleiras.

A ironia é de livro: o soft power americano mais pop é fabricado pelo rival comercial dos EUA. O Halloween brasileiro cresceu por escolas de idiomas e pela indústria do entretenimento, e ganhou cara própria: menos “doce ou travessura” nas ruas, mais festa à fantasia em condomínios, escolas e bares.

Uma historiadora o chamou de “carnaval fora de época”. Os números sustentam.

A Abrafest, associação do setor de artigos para festas, registrou alta de 14% no faturamento com decoração e fantasias em outubro de 2025 e projeta mais 12% em 2026. Segundo a plataforma Nuvemshop, o faturamento com Halloween nas suas lojas cresceu 26% sobre 2025 e 81% em dois anos, e o Pix pagou 52% dos pedidos.

As fantasias, que eram 69% das vendas temáticas na primeira quinzena de outubro de 2025, caíram para 41%, com decoração, doces e experiências ganhando espaço. No Distrito Federal, 85% dos lojistas consultados pela Fecomércio esperam alta de 5% a 20%.

E o presidente do sindicato dos lojistas de Taubaté diz que mais de 30% dos brasileiros já fazem festas temáticas na data. A resposta nacional veio por lei.

O Dia do Saci, na mesma data, nasceu de uma ONG, a Amigos do Saci, como uma “resistência pacífica” ao Halloween: troca-se o chapéu de bruxa pelo gorro vermelho. Em 2003, o então deputado Aldo Rebelo apresentou um projeto de lei federal, e São Paulo oficializou a data em 2004.

Só no Brasil se tenta vencer uma festa estrangeira por projeto de lei, e o Saci, justiça seja feita, tem mais charme que a abóbora de plástico. Cultura circula, a fatura tem endereço.

Uma festa de origem irlandesa, comercializada nos EUA, fabricada na China e adaptada no Brasil não pertence a ninguém. Quem ganha é quem vende.

Atração vence imposição. O conceito de soft power, de Joseph Nye, é a capacidade de seduzir.

Crianças fantasiadas não foram obrigadas a nada. Mas a tarifa, uma forma de coerção econômica, mexeu no preço da sedução.

Adaptar vence resistir. O Halloween brasileiro cresce porque virou brasileiro: condomínio, escola, Pix.

O Saci cresce também, nas escolas, quando é brincadeira e não bandeira. Neste sábado, quem sair fantasiado carregará uma festa irlandesa, comercializada na América, montada na China e reinterpretada no condomínio ao lado.

Abóbora de plástico é uma boa bússola da globalização: mostra de onde vêm as coisas, quem lucra e quem paga a tarifa. Amanhã, o México responde com seus mortos.

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