Haitiano-canadense, Thélyson Orélien usa IA para escrever romance e é excluído do prêmio Goncourt

Haitiano-canadense, Thélyson Orélien usa IA para escrever romance e é excluído do prêmio Goncourt - Foto
Fonte da notícia: Jornal Opção Jornal Opção

Quem usa inteligência artificial, de maneira intensiva — não para reformatar, e sim para escrever textos —, parece acreditar que está enganando os leitores. Não está.

É cada vez mais fácil verificar o uso de IA e os leitores começam a se divertir com isto. Programa de detecção de IA, o Pangram é excelente.

O Jornal Opção o usa para certificar se há artigos e, até, reportagens escritos com uso de IA. Recentemente, o “Estadão” entrou em choque com a Meta, que decidiu excluir alguns de seus textos devido ao uso de IA.

O jornal brasileiro negou o uso intensivo de inteligência artificial. Mas está cada vez mais comum jornais publicarem textos escritos ou revisados por IA.

Há como conter isto? Muito difícil. Porque a IA reduz o esforço e acelera os trabalhos.

É provável que, daqui a pouco, alguns jornalistas, se obrigados a escreverem sem o uso de IA, não darão mais conta de produzir textos verdadeiramente autorais. Em geral, a desculpa é a mesma: “Só uso para revisão”.

Ou então: “Uso para reformatar o texto”. Não é o que o Pangram apura.

O jornal “Libération” decidiu examinar um escrito de Thélyson Orélien, de 2012. Descobriu, de cara, que o escritor havia plagiado, no prefácio, o livro “O Despertar dos Mágicos”, de Louis Pauwels e Jacques Bergier, de 1960

Será que os jornalistas que usam IA em excesso não percebem que, a médio ou a longo, poderão perder seus empregos? Ora, se a IA faz seu trabalho, sem nenhum custo, resulta que podem ser dispensados. E como ficará o cérebro de quem deixa de usá-lo para refletir e organizar, via escrita, o pensamento?

De duas cousas tenho certeza. Primeiro, a IA veio para ficar e é extremamente útil.

Segundo, várias pessoas, inclusive jornalistas e escritores, jamais vão deixar de usá-la. A IA se tornará uma muleta mental eterna.

É inescapável. Samuel Fitoussi, do jornal francês “Le Figaro”, e Pierre-Thomas Eckert, da universidade espanhola Villanueva, usaram o Pangram para examinar o romance “C’Était Ça ou Mourir” (“Era Isso ou Morrer”.

Estou usando uma reportagem de Isadora Laviola, da “Folha de S. Paulo”, para comentar o caso), de Thélyson Orélien.

“Testamos vários trechos, de diferentes partes do manuscrito, e obtivemos quase sempre o mesmo resultado: 100% IA”, afirmam os donos da conta do WhatsApp, que inicialmente era anônima. Pois é: não se trata de 30% ou de 50%, e sim de 100%.

(Nós já submetemos o texto de um colaborador ao Pangram e o resultado foi de 97% com uso de IA.) O jornal “Libération” decidiu examinar um escrito de Thélyson Orélien, de 2012.

Descobriu, de cara, que o escritor havia plagiado, no prefácio, o livro “O Despertar dos Mágicos”, de Louis Pauwels e Jacques Bergier, de 1960. O livro de Thélyson Orélien não está mais inscrito para o Goncourt, um dos prêmios literários mais importantes do mundo e o principal da França.

Nenhuma frase foi criada por uma máquina, tampouco o sentido ou a estrutura de uma história que vem de minhas estranhas, afirma Orélien. O escritor ataca: Há um desejo não apenas de atacar o livro, mas sobretudo a minha voz

O Goncourt divulgou um comunicado: “Os plágios dos quais o autor foi culpado ao longo do tempo e que acabam de ser revelados, assim como os resultados convergentes de diversas análises realizadas por pesquisadores e jornalistas confiáveis, que apontam que [o livro] é, muito provavelmente, em grande parte, produto de inteligência artificial”.

A editora canadense Boréal, que editou o romance de Thélyson Orélien, rompeu o contrato com o escritor. A empresa encomendou uma análise técnica independente, que reafirmou que há uso de IA na escrita do livro.

Mesmo com o uso de IA e um plágio escancarado, Thélyson Orélien afirma que está sendo injustiçado. Fala em “calúnia e heresia”.

“Nenhuma frase deste livro foi criada por uma máquina, tampouco o sentido ou a estrutura de uma história que vem de minhas estranhas”, afirma Thélyson Orélien. O escritor ataca: “Há um desejo não apenas de atacar o livro, mas sobretudo a minha voz”.

Mas, pelo visto, a voz não é exatamente sua, e si da IA. A IA, por sinal, retira coisas de vários lugares e não se sabe, ao menos com precisão, de onde se pirateia.

(Há pouco tempo, descobriu-se que o ChatGPT estava “furtando” informações, por assim dizer, nos arquivos do jornal americano “New York Times” — que decidiu processar a OpenAI.) Seria mais adequadro Thélyson Orélien admitir que usou IA, mas que o romance representa aquilo que realmente pensa.

Deveria, inclusive, explicar como foi a composição do livro. Ele elaborou um roteiro e “encomendou” que a IA o finalizasse? Seria interessante descobrir qual é o seu método.

“C’Était Ça ou Mourir”, apesar das denúncias, e talvez por causa delas — despertou a curiosidade dos leitores —, já vendeu, de acordo com a “Folha de S. Paulo”, “mais de 35 mil exemplares e venceu os prêmios franceses Fnac, Méduse e Plume”.

Noutras palavras, Thélyson Orélien enganou leitores gabaritados dos vários prêmios. Nenhum percebeu a fraude.

A “Folha” relata que o romance “narra, em primeira pessoa, a trajetória de um professor que deixa o Haiti em meio à violência de gangues e entra em uma jornada perigosa atravessando 12 países até encontrar refúgio no Canadá”. Uma boa história, sem dúvida.

A “Folha” lista mais três escritores denunciados por uso de IA: Jerry Falade (“Call Me, I’ll Hide the Body”), Mia Ballard (“Shy Girl”), H. M.

Wolfe (“Daggermouth”). Prêmio para obras escritas com robôs

Na quinta-feira, 22, “O Globo” publicou uma reportagem, não assinada, com o título de “IA pode ganhar prêmio literário? França lança concurso para obras escritas com robôs”. Você é goiano ou paulista? Não importa.

O que vale é que os livros — de ficção — devem ser escritos em francês. O Prix Pascal de Littérature IA será concedido a autores que escreverem seus livros em parceira com inteligência artificial (pode-se usar o ChatGPT, o Claude, o Gemini e o LLaMA).

As inscrições podem ser feitas até 30 de novembro. O manuscrito deve ter de 10 mil a 50 mil palavras.

“As obras deverão abordar desafios éticos, sociais ou ambientais que ameaçam a humanidade.” Dez escritores serão selecionados e, em dezembro, o vencedor será anunciado.

O prêmio será a publicação da obra.

Publicação Original Jornal Opção jornalopcao.com.br
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →