Um engenheiro de software em busca de recolocação baixou o que acreditava ser um teste de seleção e abriu, sem perceber, a porta do maior roubo já registrado no mercado de criptomoedas. A Binance, maior corretora do setor, perdeu US$ 6,3 bilhões, cerca de R$ 35 bilhões, segundo a própria empresa — que posteriormente anunciou a recomposição de 98% das perdas para os usuários com recursos de seu fundo de reserva.
O processo seletivo tinha recrutador, descrição de vaga e até reunião virtual com quem se apresentava como presidente da empresa contratante. Nada disso existia, e o roteiro servia para convencer o profissional a executar um arquivo no computador corporativo.
Ao abrir o material, a vítima instala um programa que mantém uma conexão remota aberta para os criminosos. “É como se a máquina virasse uma marionete.
O criminoso passa a controlar remotamente aquele equipamento e consegue agir usando os acessos e permissões do próprio funcionário”, diz Hiago Kin, presidente da Associação Brasileira de Segurança Cibernética. É aí que nasce o problema.
Quando a empresa lê os registros da invasão, o acesso é do empregado, a senha é dele e o horário também. A operação durou meses e teve duas etapas.
O primeiro computador comprometido serviu para estudar a estrutura da equipe, não para levar dinheiro. A Binance afirma que esse primeiro passo veio em junho de 2026, quando um integrante da equipe de carteiras digitais baixou uma ferramenta de inteligência artificial adulterada.
A corretora trocou o equipamento e mudou credenciais, mas os invasores já tinham mapeado a equipe e as funções de cada um. Quem trabalha na área de carteiras digitais mexe em rotinas de movimentação de fundos.
É essa credencial que a operação buscava, e não a conta de um usuário comum. Em setembro de 2026, o segundo engenheiro, em busca de recolocação, baixou um repositório de código malicioso no computador corporativo.
A partir dali, os hackers passaram a operar com as credenciais dele dentro da empresa. O FBI atribui a operação a um grupo de hackers ligado à Coreia do Norte, que se infiltra em redes profissionais com recrutadores falsos.
A atribuição é do serviço de investigação americano e vale como acusação, não como condenação. Quem cai nesse tipo de golpe é vítima de crime, não devedor do bilhão.
A frase parece óbvia no papel e deixa de ser quando a empresa começa a somar quantos anos de salário separam o funcionário do prejuízo. “Os criminosos criam perfis falsos, principalmente no LinkedIn, se passando por recrutadores ou headhunters”, explica Kin.
O pedido final é um teste técnico, que chega como planilha, software, ambiente de programação ou arquivo para download. Kin diz que os criminosos preferem alvos que reúnem duas características, conhecimento técnico e acesso privilegiado dentro das empresas.
O perfil descreve as equipes de tecnologia de bancos e fintechs brasileiras, onde um único login alcança sistemas críticos. A vaga remota para empresa estrangeira é o formato que melhor se encaixa na isca.
O candidato não visita a sede nem conhece o entrevistador, e a distância faz a farsa parecer normal. No Brasil, a primeira pergunta é sobre a demissão por justa causa.
O artigo 482 da Consolidação das Leis do Trabalho lista as faltas graves que autorizam a dispensa motivada, e nenhuma delas descreve o empregado enganado por um golpe externo. A segunda pergunta é sobre dinheiro.
O parágrafo 1º do artigo 462 da CLT só permite desconto por dano causado pelo empregado quando existe previsão em acordo ou quando ele agiu com dolo, a intenção deliberada de causar prejuízo. A empresa ainda pode recorrer à Justiça para cobrar o prejuízo.
O caminho é estreito, porque exige provar intenção num cenário em que o próprio sistema registrou o acesso do funcionário como legítimo. A conta também corre pelo outro lado.
Pela Lei Geral de Proteção de Dados, a empresa responde pelos dados que guarda, inclusive quando o vazamento começa no computador de um funcionário enganado. O funcionário enganado entra na investigação interna como suspeito.
Se a empresa decidir cobrar o prejuízo, ele vira réu num processo em que o adversário controla justamente os registros que servem de prova. É essa assimetria que transforma um caso de segurança em disputa de poder.
A companhia escolhe o perito, guarda os registros e define o que a auditoria vai olhar, e o empregado precisa provar que foi enganado com as ferramentas da própria empresa. O tamanho do prejuízo já está nos livros da Binance.
O que segue em aberto é a conta que a empresa vai tentar colocar no colo de quem caiu no golpe.
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